as voltas que a vida dá

Hoje por acaso falamos do meu blog, pelas circunstâncias ocultas do universo já estava pensando nele há alguns dias. Pensei em trocar o nome, é tão vaidoso ter um blog com seu próprio nome, pensei. Contudo, à época em que o criei eu achava apropriado, afinal, era um blog sobre mim, escrito por mim. Bom, mas vamos lá…

Antes que eu pudesse lembrar novamente do blog, e daquele desejo de vir aqui dar aquela atualizada, uma grávida que acompanhei compartilhou o link do relato que fiz do seu parto. E assim, as teias invisíveis trouxeram meu bloguinho à tona outra vez.

Pra mim esse espaço é sagrado, por algumas razões: eu adoro escrever e ter um blog é uma boa desculpa para isso; adoro compartilhar minhas experiências, descobertas, catarses, pois na outra mão, aproveito, aprendo e me delicio com as experiências alheias também; sou da turma old shcool em que blogs eram no Blogger e tinham nomes esquisitos (confesso que coloquei meu próprio nome por falta de criatividade mesmo!) e as pessoas faziam daquilo seu espaço de expressão, dava pra sentir/ver/saber/conhecer as pessoas através de seus blogs… enfim… a verdade é que eu tenho um apego danado a isso aqui.

Mas queria dizer que muita coisa mudou desde a última postagem. Melhor, eu diria que TUDO mudou.

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Então pensei em desfazer esse blog ou refazer as postagens, tirar, acrescentar, editar… mas a vida é o que é, sempre em frente. De que adianta apagar daqui se fez parte da minha história?

No entanto, editei algumas postagens por não representarem mais minhas posições ideológicas e eu não quero passar mensagem que não me representa por aí. No mais antecipo meu mea culpa pelas bobagens que escrevi e continuarei escrevendo… e tentarei aparecer mais por aqui! :)

 

parto de maio

o grito dela emocionava.

o trabalho de parto vinha rápido, a galope, atropelando.
as vezes cedia o passo, mas continuava firme, intenso.
e aí, de repente começou a afirmar:
eu preciso.
eu preciso de algo.
de quê eu preciso?
…..
não sei. eu não sei de nada.
não sei a resposta, meu filho.
…..
as frases pareciam aleatórias… desavisados poderiam pensar que era delírio.
mas eu não,
eu sabia que elas vinham de um lugar muito profundo.
o significado estava além do que poderíamos entender em palavras.
era apenas sentir. e veio.
o sentimento bateu no peito e refletiu os olhos marejados.
era a beleza em si.
crua. nua.
era a condição humana revelando-se em fragilidade e força.
era o encontro inevitável de si mesmo, sem fugas, sem máscaras.
era apenas a verdade.

“por que você se tornou doula?”

Esse texto-desabafo eu escrevi no começo de julho e fiquei adiando a publicação… por falta de tempo e por não ter certeza se seria entendida, mas enfim… ei-lo aí

………….

Sexta-feira saí para fotografar uma gestante, mas a chuva nos apanhou no momento em que fiz o primeiro clique. Resolvemos esperar um pouco e enquanto a chuva não cedia,  a gestante, sua mãe e eu conversávamos qualquer coisa para passar o tempo. No meio da conversa a mãe disparou: já que não estamos fazendo nada, me conte aí: afinal, por que você resolveu ser doula?

Hã? Oi?

Sou doula há mais de um ano e já respondi essa pergunta algumas vezes. Mas, para minha própria surpresa, titubeei e a primeira coisa que consegui responder foi:
Pois é, boa pergunta. Afinal por que resolvi ser doula? 
As palavras saíam da minha boca à medida que eu procurava alguma resposta sincera, que dissesse a verdade, o motivo fundamental e certeiro de eu ter me tornado doula.
Tão assim de supetão não encontrei outra forma de responder a não ser o “velho texto batido”:
“para ajudar outras mulheres e proporcionar a elas o que eu recebi no parto do meu filho.”
Mais uma vez as palavras saíam e eu me arrependia delas, não pude frear a autocrítica: afinal quem sou eu para pretender “ajudar” uma mulher e lhe “proporcionar” algo que ela não pudesse criar por si mesma? Como se eu pudesse ter uma chave, uma sabedoria mágica ou qualquer coisa que fosse salvadora e importante?
Sei lá, de repente tudo aquilo me soou estranho porque me dei conta que eu não ajudo mulheres (sim, eu ajudo, claro! mas essencialmente EU não faço nada além do que ela própria conseguiria fazer ou acessar). O trabalho de doula não vem de mim, do meu intelecto, não é algo que eu produzo. Não tenho expectativas de carreira profissional, não tenho planos nem metas quanto a isso. As vezes eu realmente me pergunto: como se deu essa escolha? Em que momento eu decidi?
Sinceramente, conscientemente eu não decidi nada. Nunca desejei, nem grávida, nem após o parto, conscientemente ser doula. As coisas foram acontecendo e, isto sim é verdade, decidi me levar por elas. E bom, não sei onde li a frase, mas me apego a ela: o caminho se faz caminhando. 
desenho-lindo-de-doula

 

Recentemente muitas pessoas vieram me perguntar sobre o trabalho de doula, como é, se é bom, se é bem remunerado, se vale a pena o investimento, etc. Se eu fosse responder com a razão, moldada culturalmente nessa sociedade ocidental, eu diria: é uma merda.  Afinal, fisicamente é muito cansativo, a equação tempo e disponibilidade versus remuneração não bate, além do não reconhecimento e situações de stress que enfrentamos. 

Eu nunca responderia assim tão diretamente “é uma merda” porque sei (pois vivencio) que ser doula contempla uma satisfação em si que não pode ser mensurada pelo que se espera de um trabalho/carreira de sucesso.
No entanto, urge em mim a necessidade de dizer: ser doula não é nadar num mar de rosas cheios de bebês fofinhos e mulheres iluminadas e relatos de partos emocionantes. Não é.
Para além de tudo ser doula é se confrontar diariamente. É resgatar um feminino esquecido, machucado. É mergulhar em suas próprias águas para conseguir entender as águas turbulentas de uma mulher parindo. E mergulhar em si. E rever nossos naufrágios e tesouros submarinos não é fácil. É lidar com muitas expectativas e consequentemente decepções, é trabalhar minuto a minuto o ego, a vaidade, a humildade.
E então, por que eu me tornei doula, afinal? – continuava martelando…

doula avançado

 

Essas reflexões me levaram a concluir que eu “resolvi” ser doula porque eu tenho um chamado. Não é algo que se escolhe racionalmente. Esse chamado que me leva a estar em círculo com as mulheres, compartilhando com elas desse momento sagrado do parto e do ser-mãe. Me reconectando a tudo que vivi e acessei na sacralidade do parto de Vinícius, resgatando minha ancestralidade, minhas origens. Minhas e de todas as mulheres que vieram antes de mim. Ah, isto sim é claro como água… E aí eu tenho certeza que elas é que me ajudam iluminando o caminho pelo qual percorro para encontrar quem eu sou, quem eu fui e o que eu vim fazer aqui. Em cada parto, em cada grito de dor, nos olhares em transe que elas devolvem, nos corpos se contorcendo eu me reconheço enquanto fêmea, mulher-selvagem, e acessar essa memória produz o maior sentimento de pertencimento que eu jamais senti: nesse momento miraculoso eu reencontro minha manada, minhas irmãs. Quem proporciona o que a quem afinal?

Eu resolvi ser doula porque eu estive lá uma vez e não consegui mais sair. 

E aí se eu fosse responder com base na minha emoção, levando em conta tudo o que eu vivencio sendo doula, eu diria: ser doula é uma reinvenção da própria vida. 
E para terminar este texto  volto à conversa que lhe deu início e que por sua vez terminou com um lindo relato: a mulher que me fez a pergunta, no momento seguinte começou a me contar um pouco de sua história. Era neta de parteira, vivia no interior de Minas Gerais, nasceu em casa, assim como todos os seus irmãos, pelas mãos da avó. Relatou como era quando a mãe entrava em trabalho de parto, sendo acompanhada apenas por sua própria mãe e pelo marido, que renovava a água quente da bacia. O bebê nascia e os irmãos sabiam pelo choro que se ouvia ecoando pela casa. A mãe cumpria rigorosamente o resguardo de 40 dias dentro do quarto e ao sair apresentava o bebê à natureza do sítio onde moravam.
Minha amiga gestante, perguntou: apresentava o bebê à natureza ou a natureza ao bebê? 
– O bebê à natureza,
– Como uma oferenda?
– É, como uma oferenda. Levava o bebê no colo e abria os braços assim, mostrando o tudo em sua volta. 
À medida que ela falava a imagem se formava na minha cabeça. Me emocionei. Que coisa mais linda, apresentar o bebê à natureza, harmonizando essas duas forças que são parte de um todo…
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a África em mim

Antes eu tinha um tremendo preconceito contra o candomblé. Desses que muita gente tem. E também tinha medo. Morria de medo só de passar em frente a uma casa de produtos para macumba. Ave Cruz! Preciso nem me alongar, pois sei que muita gente me entende. rsrs

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Até que um dia, num encontro de mulheres, reunidas na praia, algumas começaram a cantar louvores pros Orixás e eu parei ouvindo aquelas músicas, prestando atenção nas letras que falavam de amor, de beleza, das águas, das flores, do mar… e aquelas músicas me trouxeram paz e eu pensei: como pode uma coisa tão linda dessas ser algo ruim ou que me dê medo?
 E quando eu voltei para a minha casa, decidida em conhecer mais o candomblé, conversei com uma amiga que estava iniciando na umbanda e me surpreendi com as coisas que ela me falou: da festa e a da alegria na celebração dos orixás e que os orixás são deuses e humanos, que cada uma refletem personalidades humanas… que são verdadeiros arquétipos. E por esse motivo, quando comecei a me aprofundar no assunto, ouvindo as músicas, lendo a respeito, rompendo meu preconceito e meus medos, fui encontrando paz e felicidade nesse espaço, nessa forma de encarar a espiritualidade e que eu desconhecia.
Fui ao terreiro (que eu julgava ser um grande quintal a céu aberto onde corriam galinhas pretas! tamanha a ignorância!) e pedi pra mãe de santo jogar os búzios para me dizer quem são meus orixás. Oxum me guia, Ogum vai à minha frente e Iansã me protege atrás. E sabendo que essas três forças me acompanham mergulhei num autoconhecimento profundo, num autoreconhecimento, na verdade.
mamãe oxum

mamãe oxum

Eu, que sempre maldisse meu jeito “meigo” e as vezes “passivo” de ser, vi  em mim a doçura de Oxum, mãe das águas doces, e passei a bem dizer a doçura que aflora em mim e chega no outro através dos dons dessa deusa.
E passei a perceber também o quanto as pessoas se referiam a mim como uma pessoa doce e cada vez que eu ouvia isso, em minha mente, agradecia e referenciava a Oxum.
Por outro lado, e para minha surpresa, Ogum e Iansã, que são personalidades fortes, orixás de luta e guerra estão comigo e pensando nisso parei para observar que na minha vida, e apesar do que eu chamava de passividade, sempre fui aguerrida para abrir meus caminhos e bancar minhas escolhas, seja como for. Estou lá na luta, na coragem que a força desses orixás me dão… e é motivo de orgulho, para mim, estar ao lado deles, ser guiada por eles.
Quem já me viu com raiva, cega de fúria, sabe que como mamãe Oyá eu faço cair trovão e tempestade! 😉 hehehehehe
mamãe Iansã

Iansã

pai Ogum

 Ogum

O primeiro candomblé que eu fui foi mágico de tão lindo! Fiquei sentada olhando aquelas pessoas andarem em círculo, vestidas de branco, na pele a ancestralidade marcava, os atabaques estalando a a batucada e aquelas vozes cantando e louvando animadamente em iorubá. Pisquei o olho e num relance era como se eu estivesse vendo os negros da escravidão, ao redor de uma fogueira, procurando alento e alegria naqueles cantos, tentando reproduzir um pouco de suas origens, matando as saudades de suas terras, curando as feridas no coração e na carne que aquela extração selvagem lhes trouxera. Tive compaixão por aquelas almas que não conheci, mas que estão no meu sangue, na minha descendência, certamente. E é por eles, pela resistência deles, que todo dia eu me provoco a romper um pouco mais da minha ignorância, do meu preconceito ridículo e tento me aproximar e conhecer mais a cultura dos negros no Brasil.
Fiz esse post na esperança de que toque algum coração, para quem queira desmistificar essa religião de matriz africana e tão nossa!
Vamos viver na paz do amor de Deus. Axé!
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pequena história de parto: a saudade

No corredor havia alguns janelões por onde entrava uma luz clara e suave. Aquela luz mansa que atrai os passarinhos pela manhã. Caminhávamos para lá e pra cá e numa das voltas, passando pela janela, ela se apressou para a  curva do corredor, num cantinho onde elegemos ter mais privacidade para os agachamentos durante as contrações. Ali soltou um “está me dando vontade de chorar” já desabando no choro.

“Sempre que ouço o canto do bem-te-vi lembro do meu pai que amava passarinhos. Lembro especialmente de uma cena quando ele atravessou o portão e um bem-te-vi começou a cantar. Por isso sempre lembro dele quando ouço esse canto. E é como se ele estivesse comigo nessa hora.”

Me contou que seu pai falecera há dois anos depois de uma intensa luta contra o câncer. Disse várias vezes que ele morreu em casa, ao lado dos seus e ela estava lá quando ele partiu.

Todo aquele relato encheu meu coração. E sentindo a sinceridade daqueles sentimentos, toda aquela saudade… também comecei a chorar.

Prosseguimos no caminhar de um trabalho de parto sofrido e que se arrastava. Tantos bloqueios, tanta preocupação lhe vinha à tona, o ambiente não ajudava, a cabeça não conseguia relaxar. Volta e meia falava do pai.

Em certo momento lembrei de algo que li e lhe disse: “Querida, a dor do parto é a dor da vida”. 

Me lançou um olhar tentando achar aquilo bonito, como se  “vida” nesta frase se referisse àquele ser que iria chegar.

“Não. É a dor da nossa vida, nossa bagagem emocional.”

Soltou o choro.

“É que estou sentindo muita falta do meu pai hoje, sabe? Estou lembrando tanto dele. Ele sofreu muito… Queria tanto que ele estivesse aqui comigo.”

“Sim, eu sei.” – disse eu, mais uma vez chorando ao compartilhar daquela tristeza.

O parto aconteceria em uma maternidade pública onde os maridos só podem entrar na sala de parto no momento do expulsivo. Ainda assim pedi para chamá-lo para que se vissem naquele corredor mesmo, por um instante que fosse. Ela precisava da presença dele mais do que nunca.

Ele chegou, se abraçaram e foram caminhar juntos. Ele a fazia rir, lhe dava força, lhe passava segurança. Outras questões foram sendo desatadas… Tudo parecia ir bem, eu confiava que aquilo fizesse o trabalho de parto evoluir. Então uma enfermeira chegou e pediu que o marido saísse dali e que ela entrasse para o quarto onde as outras mulheres estavam.

Foi o momento de crise.

E no meio daquele caos, ela finalmente conseguiu desabafar e dizer que não queria ficar naquele lugar, que se irritava com a ligação da família querendo saber em que ponto estava aquele parto ou aconselhando a fazer uma cesárea afinal; que não aguentava mais ver e ouvir outras mulheres recebendo seus bebês enquanto ela estava ali, travada naquela luta.

O caos. Aquele momento único, o lampejo de desordem onde tudo pode voltar para o lugar.

E voltou.

E então saímos dali finalmente, procuramos a tranquilidade de outra estrutura, o alívio de outra forma. E então ela pode receber sua filha, encontrando uma força que jamais pensou que teria. A pequena chegou no raiar do dia.

Naquela hora da luz suave quando cantam os passarinhos.

 

 

Relato de parto de Clarisse, nascimento de Camila

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender 

(Sol de primavera – Beto Guedes)

 

Bom, esse relato de parto é especial. Primeiramente porque a própria Clarisse me pediu que eu o escrevesse para ajudá-la a lembrar daquele dia e segundo porque esse parto é especial por si só como vocês poderão ver…

Na manhã do dia 31 de agosto recebo o telefonema de uma mulher ofegante perguntando sobre meu trabalho e se eu estaria disponível para aquele dia mesmo. Eu estava preparando o material para um ensaio que eu ia fotografar naquela tarde, então tendo isso em mente perguntei: é para fotografar? E ela disse: não, para me acompanhar como doula.

Oi?

Parei um segundo e pensei: gente, como assim ela tá procurando uma doula em pleno trabalho de parto? Por que não procurou antes?

E então ela me contou a história. Sua bebê estava em posição pélvica* dias antes de entrar em trabalho de parto e por esse motivo ela não se animou de ir atrás de nada sobre o parto… disse que estava sentindo umas cólicas e que ao ser atendida pelo plantonista ele reforçou que ela tentasse ter o bebê de parto normal mesmo e que procurasse uma doula para ajudá-la.

E então ela estava ali, inciando o trabalho de parto, me perguntando se eu poderia acompanhá-la.

Nós, doulas, preferimos conhecer a gestante ao longo da gestação para criarmos um vínculo, entendermos a dinâmica da família, conhecermos os planos e expectativas para o parto. Mas enquanto estava ali falando com Clarisse senti que deveria atender seu chamado, que deveria estar com ela. Combinamos de nos falarmos ao longo do dia e eu passaria para visitá-la no final da tarde.

 

primavera

Fonte: the mandala journey

 

Depois do ensaio fomos fazer um lanche e quando voltei a falar com Clarisse ela tinha resolvido ir ao hospital avaliar o andamento do trabalho de parto. Cheguei lá por volta de 19:30h.  A dinâmica das contrações estava boa, 3 cm de dilatação e colo quase apagado. Nos conhecemos, fomos conversando e em nenhuma momento senti estranheza ou desconforto. Ficava feliz quando ela dizia que as massagens estavam ajudando a suportar a dor. Ela tinha chegado com os ombros muito tensos e com as massagens percebi seu corpo relaxando… Clarisse tem o jeito de mulher forte, prática, determinada. Seu trabalho de parto tinha bem essa característica: como se ela mirasse em um objetivo, estava disposta a atingi-lo. Ficou na bola muito tempo. As massagens na lombar e nos ombros a ajudavam a relaxar…

Martin, seu marido, estava sempre ali solícito em atendê-la quando ela pedia, mas nos deixava bem a vontade para fazermos o nosso trabalho, eu massageando e ela trazendo Camila ao mundo.

Por volta de 23h ela quis descansar um pouco e deitou-se de lado. Nos intervalos das contrações chegou a cochilar, quando a contração vinha tudo o que ela me pedia era a massagem.  O médico veio avaliá-la de meia-noite e pediu para o chamarmos novamente às 2h. As contrações estavam bem fortes a essa altura, não sei nem como ela conseguia suportá-las deitada. Mas estava funcionando tão bem que cochilamos os três (nos intervalos das contrações) até umas 02:10 da manhã quando depois de uma contração ela levantou-se para ir ao banheiro. Bastou sentar no sanitário para ouvirmos o  “chuááá…” da bolsa que acabara de estourar.

A próxima contração veio com uma leve vontade de fazer força, esperei mais uma para ter certeza. Ela colocava a mão como se estivesse segurando a cabeça da bebê e eu perguntava se ela sentia algo ali embaixo. Ela dizia que não, mas a mão continuava lá. Vi medo nos seus olhos, tentei dizer que não tivesse medo, que era Camila chegando, que estava tudo bem. Não sei se ela ouviu, seu olhar variava entre amedrontado e animalesco, orbitando em outro planeta. Pedi a Martin para chamar o médico, a enfermeira veio olhar como quem não tava entendendo que a bebê ia nascer dali a pouco. Depois da terceira contração Clarisse levantou, se posicionou na cama, o médico chegou e confirmou que a bebê já estava nascendo mesmo. Em mais três contrações Camila veio ao mundo, num expulsivo rápido e forte que me lembrou o nascimento do meu Vini. Eu vi no momento que Clarisse jogou o olhar para cima, surpreendida pela dor, pela força e ainda assim tão entregue e determinada àquilo. Eu vi naquela cena um olhar incrédulo e lampejante mirando para o alto e quase pude ler seus pensamentos naquele instante (se é que se consegue pensar em algo numa hora dessas). Imagino que ela ali ela encontrou a maior força que ela jamais imaginou que pudesse ter, que por um momento ela duvidou que a bebê ia sair e que por fim ela ela se maravilhou sem acreditar que então Camila estava do lado de fora, tendo passado por dentro dela… foi colocada diretamente em seus braços, quentinha e chorando a plenos pulmões.

Rosada, sem sangue nem vérnix (e isso parece tanto com a chegada de Vini!) recebida com as palavras da mãe, assim nasceu Camila na madrugada do primeiro dia de setembro, aniversário do seu avô materno. Lembro especialmente de Clarisse dizer:

“Você é a irmã do Nick”…

meus olhos ficaram marejados… o primeiro filho certamente a uma grande motivação para que o segundo parto fosse natural. O pai emocionado registrava algumas fotos…

Foi simplesmente lindo, exato, intenso. Indescritivelmente a experiência mexeu comigo, me confirmou o destino, me encheu de ocitocina e gratidão ao universo por me colocar no lugar certo, nas horas certas. :)

Clarisse, Martin, Camila e Nick (que ainda não conheço): obrigada pelo aprendizado! Por se abrirem a mim, por se permitirem viver esse parto e por terem me ligado tão em cima da hora para estar junto!

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*bebês em posição pélvica NÃO é indicação de cesariana. Mas a mãe em questão, além de não encontrar na cidade um profissional que topasse assistir um parto pélvico, tinha seus próprios receios.

Relato de Parto de Luedva e Luís, nascimento de Laura

Luedva entrou em contato comigo pelo Facebook, já estava sendo acompanhada por uma obstetra humanizada, mas procurava uma doula. Marcamos de nos encontrar, mas esse encontro só veio acontecer muito depois.
Nos conhecemos pessoalmente em sua casa, ela e o marido me receberam de forma muito simpática… conversamos bastante e saí daquele encontro feliz por ter sido escolhida para acompanhá-los no nascimento de Laura. Luedva me contou um pouco a história de sua família e entre acontecimentos tristes e pesados ficou claro para mim que ela vinha de uma linhagem de mulheres fortes. Saí de lá certa de que começaria este relato dizendo isso: Luedva vem de uma linhagem de mulheres fortes.
Fomos nos falando ao longo das semanas.

No dia 19 de junho ela me ligou por volta das 20h dizendo que estava com contrações ritmadas, tinha ido caminhar na praia com o marido e depois iria para casar cronometrar as contrações, descansar e me dar um retorno. Por volta das 23h falei com ela pelo Facebook, ela me falava que as dores estavam fortes, mas suportáveis. Deixamos combinado que ela me ligaria se sentisse que a dinâmica havia mudado. Luedva e Luís são um casal tranquilo e reservado. Quis deixá-la a vontade para me ligar quando sentisse necessidade.

Eis que à 1:20 da manhã Luís me liga dizendo que ela estava com muita dor e ele não sabia mais o que fazer. Me ajeitei para ir ao encontro deles, tomei um açaí reforçado crente que ia passar a madrugada e quem sabe a manhã seguinte entre contrações muito intensas. Pois qual não foi a minha surpresa ao chegar na casa deles e me deparar com Luedva com sinais de quem estava numa fase muito ativa do trabalho de parto! Contrações a cada 2 minutos, durando 50 segundos, ela concentradíssima. Dei uma olhada na linha púrpura que estava bem proeminente. Mas por não ter um parâmetro do comportamento dela, resolvi observar por mais um tempinho. Ficou na bola todo o tempo e depois aceitou ir para o chuveiro. Lá as contrações pegaram forte. Ok, não havia mais dúvidas, era o final da dilatação mesmo.

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um pouco antes de ir para o hospital

Luedva sentou-se na banqueta, vieram mais duas contrações e a bolsa estourou. Liguei para a GO avisando e nos encaminhamos para o hospital. Era 3h da manhã.

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proteção

Ao chegar no hospital, foi avaliada pela plantonista: dilatação completa, a bolsa tinha um mecônio fluido. A obstetra chegou logo e fomos para o bloco. E ali eu reconheci a força que eu havia vislumbrado desde o nosso primeiro encontro. Determinada em trazer Laura ao mundo, Luedva fazia força durante as contrações, fechava os olhos e se concentrava.

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entre as contrações do expulsivo

 

vem, Laura! :)

vem, Laura! :)

Luís estava ao seu lado, atento. Não era preciso nada. Todos apenas assistiram àquele espetáculo da natureza: uma mulher dando à luz em toda  sua força e poder.

concentração e força

concentração e força

Laura nasceu às 4:26 e foi direto para o colo da mãe que a recebeu com um lindo olhar amoroso e emocionado.
És bem vinda, Laurinha!

És bem vinda, Laurinha!

Por causa do mecônio (que era fluido!) a neonatologista resolveu realizar alguns procedimentos, mas logo mãe e filha se reencontraram.
Já pude agradecer pessoalmente à família pelo parto lindo presenciei. Mas quero aqui reiterar: gratidão pela confiança! Estar no nascimento de Laura renovou minhas energias em um momento crítico da minha vida. Foi lindo, simples, preciso. Foi forte!
família completa! :)

o grande encontro dos 3! :)

Achei lindo quando depois uma contração muito dolorida ela se virou para a irmã que a acompanhava e disse algo como: “Luana, nossa mãe passou por isso três vezes!”
Era Luedva acessando a força ancestral que a move. E força é a palavra de ordem desse relato, é a palavra de ordem do clã das mulheres como Laura e Luedva.

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amor sublime

Relato de Parto de Jucilene e Adriano, nascimento de Samuel

Conheci a Jucilene pela internet. Na época ela morava em Fortaleza e em um grupo de apoio ao parto no Facebook pediu orientações para parto natural em João Pessoa. Começamos a conversar e ela me contou toda a história da primeira gestação. Havia muitos traumas a serem superados: a cesariana sem indicação, a recuperação difícil, a alergia que o primeiro filho desenvolveu, e depois o terrorismo que sofreu por ter engravidado pouco tempo depois da cesárea. Ela conta que logo após o nascimento de João Gabriel realmente já queria engravidar de novo, mas dessa vez para parir, e trazer ao mundo com suas forças, o próximo filho.

E assim foi…

Nos falávamos muito pela internet e nos conhecemos pessoalmente no início de março. No final de abril ela finalmente se mudou para João Pessoa. Jucilene é uma mulher devotada à família, me encantou sua simplicidade que se confunde com algo parecido com a ingenuidade das pessoas bondosas de coração… outro traço marcante de sua personalidade é que ela é ligada no 220v, dá conta de várias coisas ao mesmo tempo ou como diria meu avô: é uma mulher avexada! Mas pudera: mãe dedicada está atenta aos mínimos detalhes da alimentação do João Gabriel que tem alergia à proteína do leite de vaca, tudo tem que ser preparado impecavelmente de modo a eliminar os traços da proteína, teve que de lidar com uma mudança de cidade no final da gestação, com as incertezas do trabalho do marido e de seu próprio, comprar mobília para o apartamento novo… e em meio a tudo isso ainda encontrar um obstetra que topasse um parto natural depois de uma cesárea com intervalo menor que dois anos. Do nosso primeiro encontro ficou a impressão de que era uma mulher com muitas questões  a superar. Eu tinha medo de que sua bagagem emocional a assustasse durante o processo do trabalho de parto, mas confiava e acreditava muito na sua determinação e vontade de parir.

à espera de Samuelzinho

à espera de Samuel

O Samuel começou a dar sinal de queria nascer assim que saiu a nomeação do pai. A nomeação deveria ter saído semanas antes e essa pendência era motivo de aflição na família… bastou se resolver para o parto se desenhar.

Na madrugada do dia 16 ela me fala muito emocionada que estava com contrações ainda irregulares, mas cada vez mais fortes… fomos nos falando ao longo do dia e já eram quase 23h quando cheguei na sua casa. Ela me deu um longo abraço e muito emocionada me dizia o quanto tinha esperado por aquele dia para sentir aquelas dores… ficamos só eu e ela no quarto. O marido tentava dormir na sala e o João Gabriel dormia no seu quartinho.

Foi maravilhoso ver a transformação daquela mulher ansiosa em mulher ativa e determinada. Tudo o que fosse bom para o andamento do parto ela topava. Claro que a ansiedade nos rodeava, mas ela ia contornando, lidando com as contrações a cada vez, procurando uma posição mais confortável sempre. Assim que a contração passava ela voltava a falar sobre seus traumas no parto anterior, sobre como estava feliz naquele dia, procurava resolver alguma pendência (quem ficaria com o João Gabriel quando fôssemos para a maternidade?),  mas era só sorrisos e felicidade. Durante as contrações ela foi aprendendo a se concentrar, a ouvir seu corpo… se remexia procurando alívio e inventava posições para ficar mais confortável. Naquela madrugada meu coração se encheu de uma alegria imensa. Alegria por estar ali com ela, acompanhando aquele parto que era tão desejado. Nunca me senti tão útil e tão feliz em servir alguém… uma alegria que vinha da gratidão pela confiança que ela depositou em mim para estar ali naquele momento. Eu via o passado sendo superado naquelas horas: cada contração era a prova de si mesma, era a certeza que ela conseguiria, que seu corpo podia parir, que seu útero não romperia.

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

alívio no chuveiro quente

alívio no chuveiro quente

Ligamos para a médica por volta das 4 horas da manhã e chegamos ao hospital por volta das 5. Chegando lá a médica fez o toque e constatou 8cm de dilatação, bebê um pouco alto ainda. Descemos para o bloco cirúrgico, onde ia acontecer o parto. Para o bebê descer propus o “andar de pato”e ela prontamente se agachou e começou a caminhar de cócoras pelo corredor do bloco. Antes daquela cena eu pensava que nenhuma mulher ia se prontificar a fazer isso no auge da dilatação quando a dor é de ver estrelas. Mas naqueles minutos eu vi a diferença que faz a determinação e a vontade de parir em mulher! Houve um momento durante esse exercício em que ela agarrou meus braços e olhou bem nos meus olhos com um sorriso feliz no rosto. Nos encaramos por uns segundos…  o olhar embriagado de dor, emoção e ocitocina me dizia apenas: eu vou conseguir.

Sentou-se um pouco na banqueta, a neonatologista chegou e ela em lágrimas pediu para ficar com o filho assim que ele nascesse e que não fosse ofertado leite artificial (diferente do que aconteceu com o primeiro). A incredulidade do que estava prestes a acontecer a deixava muito emocionada.

minutos antes de o Samuel nascer

minutos antes de o Samuel nascer

As contrações ficaram um pouco mais espaçadas e a médica resolveu conduzir o expulsivo, pois não podia usar ocitocina em virtude da cesárea prévia. Às 5:55  Samuel nasceu curando sua mãe por dentro e enchendo de orgulho o pai e esta doula que aqui escreve.  Alguém mencionou que ele teria nascido às 6 na hora da Virgem Maria e foi linda a consagração que a mãe proferiu naquele momento.

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

emoção

“Realizei um sonho”, ela me disse logo após o parto.

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

Ju, minha querida… que deusa era você naquelas horas? Tão determinada e dona de si. Superando cada contração como um degrau a ser escalado… contra tudo o que você ouviu na gestação de João Gabriel, contra todo o terrorismo que te fizeram na gestação do Samuel você pariu, seu útero não rompeu como te disseram que aconteceria. Você com a sua história quebrou mitos e provou para si e para todos do que o corpo de uma mulher é capaz. Agora és além de uma mulher ligada no 220v (rsrsrs) uma inspiração para vida e o sonho de tantas outras mulheres. Gratidão!!!

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

reconhecendo a mamãe

reconhecendo a mamãe

a família está completa agora!

a família está completa agora!

 

 

a saudade de todo dia

Quando eu era criança passava as férias na casa dos meus avós maternos. Por muito tempo também moramos perto deles, quase vizinhos mesmo e era comum passar as manhãs ou tardes por lá… sabe como é casa de vó, sempre um terreno fértil para brincar e ser paparicada!

No fim da tarde meus avós tinham o costume de colocar as cadeiras no terraço e ficar lá curtindo a brisa do entardecer. Minha Vó ficava lendo a Bíblia dela, um livro enorme de capa preta e com umas figuras um tanto assustadoras para uma criança de 5 anos, como eu rsrsrs. Nesses momentos ela também costurava, fazia crochê, bonecas de pano (não me perdoo por ter perdido a minha) e sobretudo fuxico! Só de lembrar me vem lágrimas aos olhos… ela me ensinava a alinhar aquelas bolinhas de retalho, lembro tão bem das suas mãos fazendo o movimento sinuoso da agulha no tecido… E dentro de sacos e mais sacos de plástico ela guardava retalhos, linhas, agulhas e uma tesoura enorme, que hoje eu guardo de recordação.

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uma das almofadas de fuxico que Vó fez

Tenho em casa almofadas de fuxico que Vó fez…  os meus fuxicos nunca ficaram tão bem feitinhos quanto os de Vó, bem franzidinhos e planos… as estampas combinadas sem nenhum planejamento, mas ainda assim num resultado tão harmonioso…

Lamento tanto não ter tido mais tempo para conversar com Vó sobre parto, queria tanto ter ouvido as histórias… ela faleceu quando eu estava com 3 meses de gestação e nem sonhava ainda com esse mundo dos partos naturais… mas sei que ela está comigo sempre, no meu sangue, nas minhas células. Na minha força. Minha avó veio em pensamento durante meu trabalho de parto para me dizer que conseguiria, assim como ela. Sua imagem me mostrou que eu seria forte… Penso muito como seria legal se ela tivesse conhecido Vinícius, posso imaginá-la sorrindo feliz, com Vini no colo e orgulhosa de ter um bisneto tão lindo e gordinho.

Mas eu iniciei esse post para falar de outra saudade que consegui “materializar” recentemente: o pão que meu avô fazia. Ele faleceu há 14 anos. E durante todo esse tempo além da saudade da presença dele – sempre tão bondoso- eu sentia muita saudade desse pão. Principalmente porque ele fazia quando eu ia lá e ainda fazia mais um para eu levar para casa. Demorei para encontrar a receita, apesar dela ser nada sofisticada. Um pão tão simples quanto meu avô, homem da roça e com quem eu também queria ter tido mais tempo para apreender o saber das coisas naturais…

No primeiro dia que fiz esse pão e deu certo eu não cabia em mim de felicidade, o cheiro, a textura, tudo igual ao que eu venerava durante a minha infância. E como é bom matar a saudade! Pena que só pude matar a saudade do pão…

o pão de Vô :D

o pão de Vô :D

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

O parto da Carol – parte 1

Pensei muito antes de iniciar esse post. Primeiramente porque eu já sabia que não encontraria palavras para descrever a emoção e tudo o que significa esse parto. Segundo porque não quero estragar com as minhas palavras o que Carol está tecendo desde antes do nascimento de Daniel: um relato que certamente inspirará outras mulheres a realizarem tudo o que seus corações desejarem. Quando ela terminar vou pedir autorização para postá-lo aqui. :)

Mas, ontem começou uma manifestação nacional (e internacional também!) contra o caso ocorrido em Torres-RS, onde uma mulher (Adelir Guimarães) foi levada presa para ser submetida a uma cesariana sob alegação de que estava pondo em risco a vida do filho. Esse caso já foi amplamente noticiado e debatido e quem quiser saber mais pode encontrar detalhes aqui, aqui e aqui. Esse episódio dramático mexeu muito com todos que lutam e acreditam na humanização do parto. Cada vez que penso sobre ele, me revolta e me choca o abuso de direito do Estado e a violação dos direitos mais básicos do ser humano, dentre eles a integridade do próprio corpo e a liberdade de suas escolhas.

E então, resolvi fazer esse post não para relatar o parto de Carol, mas para, através da fotografia, contestar e levantar bandeira: por que é negado às mulheres receberem seus bebês assim? Na tranquilidade do local que escolherem, acompanhadas das pessoas que escolherem, pela via de nascimento que escolherem?

Assim como Adelir, Carol tinha duas cesáreas prévias. E seu útero não rompeu. Existia o risco de uma ruptura uterina? Sim, existia. O que os médicos não falam é que este risco existe desde a primeira gestação para qualquer mulher no planeta, mas ele é baixíssimo e por outro lado aumenta à medida que mais incisões cirúrgicas vão sendo feitas no útero. Assim, cesarianas sucessivas envolve mais riscos que a tentativa de um parto normal após cesárea.

O parto de Carol não deveria ser  exceção. Não deveria ser uma realidade distante para a maioria das brasileiras. Todas merecemos parir em paz, com respeito, cercadas de amor. Da forma como escolhemos. São direitos básicos.E é por isto que lutamos, por todas nós, da rede privada, da rede pública, seja como for. Parir é  um evento familiar, é uma aliança com a humanidade. O parto precisa retomar seu lugar de sagrado.

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Carol pariu em casa, numa tranquilidade que jamais vi. Serena, consciente do seu corpo. O bebê nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo. Não houve pressa.

Durante a gestação eu vibrava nas nossas conversas pela Facebook a cada “reviravolta” desse parto: ia ser hospitalar, podia aparecer uma pré-eclâmpsia, ia ser a última tentativa; ia ser pelo menos uma indução; vai ser domiciliar, o bebê que estava pélvico virou (mas isto não era um problema!), apareceu uma parteira perfeita para o plano, a médica topou ficar de backup, pródromos prolongados… as semanas passaram em ansiedade no desejo de um parto que floresceu em muitos corações…

E então, aquela mulher negada ao direito de parir há 4 anos atrás, finalmente realizava o desejo do corpo e do coração, numa facilidade, tranquilidade e simplicidade… que atestava claramente: sim, nós mulheres sabemos parir. Nós, mulheres, gostamos de parir.

 

O pai que esperava ansioso a hora do parto

O pai que esperava ansioso a hora do parto

detalhes do parto em casa: Reparir é o nome do blog de Juliana e este mimo foi presente de Carol. Estava lá pendurado de frente para cama, ao lado do quadro com versículos da Bíblia em romeno.

detalhes do parto em casa: Reparir é o nome do blog de Juliana e este mimo foi presente de Carol. Estava lá pendurado de frente para cama, ao lado do quadro com versículos da Bíblia em romeno.

"Vou descansar um pouco e depois quando eu acordar vamos nos mexer para esse parto acontecer hoje."

“Vou descansar um pouco e depois quando eu acordar vamos nos mexer para esse parto acontecer hoje.”

escalda-pés para relaxar...

escalda-pés para relaxar…

cenas do parto em casa: conversa com a parteira, amiga amamentando na rede...

cenas do parto em casa: conversa com a parteira, amiga amamentando na rede…

Carol com 6,5cm de dilatação.

Carol com 6,5cm de dilatação.

saímos para caminhar na pracinha ao lado... este é o céu daquele tarde.

saímos para caminhar na pracinha ao lado… este é o céu daquele tarde

cenas do parto em casa: nosso jantar!

cenas do parto em casa: nosso jantar!

só o universo explica um encontro de almas como esse!

só o universo explica um encontro de almas como esse!

Carol, aos NOVE cm de dilatação. Isso mesmo!

Carol, aos NOVE cm de dilatação. Isso mesmo!

Daniel saiu lentamente e foi tranquilamente aparado por Regine, a parteira.

Daniel saiu lentamente e foi tranquilamente aparado por Regine, a parteira

o momento em que descobriram o sexo do bebê

o momento em que descobriram o sexo do bebê

papai orgulhoso!

papai orgulhoso!

a querida tia Marli, que tinha viagem marcada para a madrugada, mas conseguiu assistir ao parto

a querida tia Marli, que tinha viagem marcada para a madrugada, mas conseguiu assistir ao parto

Daniel foi parido em casa, depois de duas cesáreas. Nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo, o útero não rompeu. Nós mulheres sabemos parir! :)

Daniel foi parido em casa, depois de duas cesáreas. Nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo, o útero não rompeu. Nós mulheres sabemos parir! :)

 

Gratidão! :)