Relato da Doula: Parto de Adrieny e Emmanuel, nascimento de Amélie

[Antes de iniciar este relato quero agradecer à Adrieny e Emmanuel pela confiança. Por me escolherem para estar presente no dia mais importante de suas vidas. Pela amizade, carinho e por tudo o que pude vivenciar neste parto maravilhoso.]

Conheci Adrieny por intermédio de Juliana quando ela estava com 6 meses de gestação. Marcamos um encontro na casa de Ju, nos conhecemos pessoalmente e partir dali fomos conversando sobre meus serviços como doula.

Eu já tinha fechado contrato com outras pessoas, mas pelas datas prováveis dos partos (DPP) o de Adrieny seria a minha primeira doulagem. Antes, eu acompanharia o parto de May, mas como fotógrafa.

Eu e ela temos um jeito parecido. Um pouco reservadas no início, fomos nos conhecendo aos pouquinhos… A gestação de Amélie foi tranquila, sem intercorrências. Adrieny é o tipo de mulher decidida, que sabe o que quer e corre atrás: leu livros sobre parto e maternagem, se informou, frequentou as rodas de gestantes, trocou de médica várias vezes até encontrar uma que lhe passasse a segurança necessária para o parto tão desejado.

No caminho que ela trilhava para realizar esse desejo eu via a mim mesma, há mais de 1 ano atrás, quando  iniciei meu caminho de descoberta e resgate que culminou no parto de Vinícius.

Quando ela completou 37 semanas, nos reunimos em sua casa para tirar dúvidas quanto ao trabalho de parto, passei algumas orientações. Pintamos sua barriga (eu desenhei e o marido pintou) e foi uma tarde realmente muito agradável. Lembro com muito carinho desse momento, pois neste dia pude descobrir outras afinidades com o casal. Novas e lindas amizades floresceram em minha vida.

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Pintura de barriga. Amélie envolta em céu, noite, dia e natureza.

O tempo foi passando com calma e tranquilidade, perto de completar 40 semanas, Adrieny começou a sentir contrações cada dia mais intensas, mas ainda bem espaçadas. O final da gestação que já é marcado de ansiedade e espera, começa a virar cobrança dos amigos e familiares à medida que o tempo vai passando. Na véspera de completar 41 semanas, ela foi para uma consulta de rotina com a GO. Fez mais alguns exames e um toque que revelou o colo desfavorável para o início do trabalho de parto, apesar das contrações das semanas anteriores. Nesta mesma noite, insisti para que ela fosse até a casa de Juliana onde estávamos reunidas com outras gestantes, para que nesse clima descontraído, ela pudesse relaxar um pouco, desabafar, encontrar com outras mulheres que estavam na mesma espera e ansiedade que ela… Conversamos e fizemos o chá da Naoli novamente (ela tinha tomado  também na noite anterior), era quarta-feira de noite.

Na quinta de manhã (dia 20 de fevereiro) ela me liga dizendo que passou a noite em claro, com contrações ritmadas. Ainda estavam um pouco espaçadas, então o telefonema era para me deixar de sobreaviso. Duas horas depois ela liga, deixando transparecer na voz um certo cansaço e impaciência, pedindo que eu fosse lá. Eu estava comprando umas frutas no mercado, corri para casa, abasteci Vini com leitinho, peguei minha bolsa de doula e fui. No meio do caminho falei para ela aplicar compressas quentes, pois as dores se concentravam apenas no pé da barriga.

Quando eu cheguei (12:45 mais ou menos) Emmanuel estava com ela, firme e fiel na sua função de “maridoulo”, passando à ferro os panos da compressa. Eu me preocupava em fazê-la descansar entre as contrações, pois sabia que não havia dormido nada na noite anterior. Fiz um escalda pés para que ela relaxasse e sugeri uma posição que facilitasse esse descanso. Permanecemos assim por um tempo, apenas aplicando as compressas. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam 50 segundos, mas percebi que a fase ativa do trabalho de parto havia apenas começado. No meio da tarde ela conseguiu relaxar e até cochilar entre uma contração e outra. Tentei segurá-la em casa o máximo possível, mas ela começava a se aperrear com as dores e o cansaço. Resolvemos então que ela tomaria um banho e iríamos no consultório da GO avaliar o colo.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

Fui dirigindo e no banco de atrás Adrieny era amparada por Emmanuel, estava claro que o suporte emocional que ela precisava era apenas a presença dele. Peguei um caminho mais longo, o que certamente a deixou irritada, mas com isso eu esperava ganhar um tempinho a mais. Temia que a avaliação da GO detectasse um colo com pouca dilatação, pois isto certamente seria um balde de água fria em todos. Na metade do caminho seu comportamento demonstrava que o trabalho de parto estava sim avançado, e com isso me tranquilizei, certa que saímos de casa no momento certo, era 16h.

O colo, que no dia anterior estava alto e grosso, estava completamente apagado e dilatado em 7 cm, o que deixou a GO (que estava apostando mais alguns dias de gestação) bastante surpresa. Este é um ótimo exemplo de como os processos que regem o parto são misteriosos. Respiramos aliviados e felizes rumo ao hospital!

Esperamos um pouco na entrada, subimos para o quarto. Avisei a Juliana e a Rafaela que estávamos ali, e que se elas quisessem poderiam se juntar a nós. Por volta de 18:30h Rafa chegou. A bolsa havia estourado às 18h e liguei para a GO avisando. Continuamos revezando as posições. Ela sempre encontrava alívio nas compressas (lembrei de levar o ferro para o hospital! Rsrs) e na banqueta. Quando a GO chegou e avaliou, a dilatação estava quase completa, mas a bebê no primeiro plano ainda.

A cumplicidade e sintonia entre o casal.

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momentos de relaxamento entre as contrações

Adrieny e Emmanuel ficaram um tempo no chuveiro, luz apagada… era linda a cumplicidade entre eles. Quando saíram, chamamos a GO, pois Adrieny dizia que sentia vontade de fazer força. Avaliação: bebê no 2º plano. Sugerimos, então, que ela se agachasse e puxasse um lençol quando sentisse vontade de fazer força. A força dos seus braços era algo incrível! Estava ali já exausta, sem dormir, mas determinada, focada em trazer Amélie. Dizia que estava cansada, lhe dávamos água e chocolate para repor as energias, mas em nenhum momento reclamou da dor. Emmanuel era seu apoio, seu encosto, o carinho e a fonte onde ela renovava suas forças.

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

Juliana chegou por volta de 20:00h (eu acho! a essa altura eu já havia perdido a noção do tempo). E continuamos ali, nos revezando para encorajá-la, torcendo que Amélie descesse. A ausculta do coração da bebê era perfeita todo o tempo. Talvez seu modo de dizer que estava vindo lentamente mesmo, no seu tempo. Adrieny sentia-se confortável quando ficava de cócoras ou em quatro apoios e entre forças e puxos, o expulsivo durou 2:30h.

Quando a cabecinha de Amélie se insinuou me emocionei ao ver que Emmanuel tinha lágrimas nos olhos. Fotografei. Enfim, ela nasceria. Adrieny tocou a cabeça da filha, brincamos dizendo que os cabelos de Amélie eram longos. Ela sorriu. Em meio a todo o cansaço e exaustão Adrieny conseguia sorrir das besteiras que falávamos… A GO perguntou qual o cantor preferido de Adrieny e achou no Youtube a trilha perfeita para o nascimento: o disco Into the Wild, de Eddie Vader.

Emmanuel emocionado com iminência do nascimento. Adrieny sorria ao tocar a cabecinha da bebê.

Emoção com a iminência do parto.

Amélie, escaladora como seus pais, atravessou longamente o canal do parto, ia e vinha. Despediu-se de cada milímetro de sua mãe por dentro. Adrieny encontrou sua posição para parir, a cabeça então coroou no períneo e saiu lentamente. O pai cortou o cordão umbilical. Amélie nasceu bem às 22:30 aproximadamente, precisou ser aspirada com a pêra, recebeu os cuidados médicos e foi para os braços da mãe, onde dormiu a noite toda.

bienvenue, Amélie!

bienvenue, Amélie!

Uma cena foi especialmente marcante para mim: Adrieny, em quatro apoios, apoiava as mãos na cama e jogava o corpo para frente durante a contração. Eu estava entre ela e o armário do quarto. De frente para seu rosto. Ela estava de olhos fechados numa expressão insondável. Eu não saberia descrever sua expressão concentrada de dor, cansaço, determinação e algo mais. O algo – mistério e encantamento – que envolve uma mulher parindo. Naquele átimo de segundo lembrei da crônica de Ric Jones, e imaginei que sentir-se como vidro era algo assim. Eu estava ali em sua frente, mas não importava. Tive medo que ela abrisse os olhos e encontrasse os meus. O impacto daquele olhar me marcaria certamente. Mas não foi preciso que ela abrisse. Estar ali, no pequeno espaço entre um armário e uma mulher parindo, foi algo surreal, de grande força e sutileza. Uma cena única e inesquecível.

muito amor em uma foto só

muito amor em uma foto só

E esta foi minha estreia como doula. Emocionante e inesquecível como todas as estreias, e cheia de aprendizado. Talvez o maior de todos: entender que não basta informação, não basta empoderamento, tudo isso é necessário frente ao modelo obstétrico atual, mas (e nova referência a Ric Jones) o parto acontece mesmo entre as orelhas, nas curvas da memória, nas emoções mais recônditas, acontece apesar do medo, apesar de nós mesmo. Duas horas e meia de expulsivo me relembraram o que eu tinha vivido na própria pele, que o parto acontece apesar de nós, superando nossos limites, sublimando nossa bagagem emocional. Forçando ao extremo nossos músculos, tecidos e pele numa explosão de força, amor e renovação.

*Fotos por Heloá Aires  para Ateliê Fotográfico. Todos os direitos reservados.

**Receita para o chá da Naoli aqui.

PS.: Obrigada a Juliana por ter nos apresentado e por estar presente no parto e obrigada a Rafa por também estar presente no parto e ainda ter levado um sanduíche de queijo para mim! rsrsrs Essa rede de mulheres que se apoiam em prol de outras mulheres é coisa linda de se ver! :****

andar em Campina

 

quando eu tinha  de 18 anos e muitos cabelos na cabeça

quando eu tinha de 18 anos e muitos cabelos na cabeça

Ontem fui ao centro da cidade comprar algumas coisas e ao retornar para casa, pelo caminho percorrido milhões de vezes, uma brisa quase fria encheu meu coração de saudade. Fechei os olhos marejados e me transportei mentalmente para o tempo do colégio quando eu fazia este mesmo caminho diariamente. Sob aquele sol de meio-dia, o bafo quente do ar alternava uma brisa agradável vez ou outra, e eu voltava para casa agarrada ao meu fichário, que sempre tinha um livro dentro e era recheado dos bilhetinhos que trocávamos durante as aulas. Voltava com fome, os olhos ardendo de sono. Mas quando eu dobrava a esquina da 13 de Maio e entrava na Frei Caneca, a sensação era de paz, de alívio…

Lembro das vezes que envolvida pelo calor e suor do meio-dia, olhava a rua, avistava minha casa no final e me sentia feliz.  Lembrei com carinho dos meus amigos, das tardes que passávamos lá em casa, da vez que andamos com Arthur Felipe vendado pelo centro da cidade (para comemorar seu aniversário). Dos banhos de chuva no meio da rua que eu tomava feliz e liberta pela água que encharcava. Das vezes que eu saía andando sem destino à tarde, e nos meus devaneios românticos, parava numa praça e lia algumas páginas de um livro. Que saudades desse tempo!

Andar pelas ruas de Campina é um prazer inexplicável, que – sei – muitos campinenses entenderão.

Quando eu precisava ir ao colégio à tarde, voltava por outro caminho. Do outro lado, descendo a ladeira eu avisto um serra, prédios, e um céu quase sempre azul ou cinza pálido, o entardecer de Campina. A brisa fria. O silêncio ou o trânsito que compõem a trilha dessa caminhada.
Ontem eu chorei de saudade.