Relato de Parto de Jucilene e Adriano, nascimento de Samuel

Conheci a Jucilene pela internet. Na época ela morava em Fortaleza e em um grupo de apoio ao parto no Facebook pediu orientações para parto natural em João Pessoa. Começamos a conversar e ela me contou toda a história da primeira gestação. Havia muitos traumas a serem superados: a cesariana sem indicação, a recuperação difícil, a alergia que o primeiro filho desenvolveu, e depois o terrorismo que sofreu por ter engravidado pouco tempo depois da cesárea. Ela conta que logo após o nascimento de João Gabriel realmente já queria engravidar de novo, mas dessa vez para parir, e trazer ao mundo com suas forças, o próximo filho.

E assim foi…

Nos falávamos muito pela internet e nos conhecemos pessoalmente no início de março. No final de abril ela finalmente se mudou para João Pessoa. Jucilene é uma mulher devotada à família, me encantou sua simplicidade que se confunde com algo parecido com a ingenuidade das pessoas bondosas de coração… outro traço marcante de sua personalidade é que ela é ligada no 220v, dá conta de várias coisas ao mesmo tempo ou como diria meu avô: é uma mulher avexada! Mas pudera: mãe dedicada está atenta aos mínimos detalhes da alimentação do João Gabriel que tem alergia à proteína do leite de vaca, tudo tem que ser preparado impecavelmente de modo a eliminar os traços da proteína, teve que de lidar com uma mudança de cidade no final da gestação, com as incertezas do trabalho do marido e de seu próprio, comprar mobília para o apartamento novo… e em meio a tudo isso ainda encontrar um obstetra que topasse um parto natural depois de uma cesárea com intervalo menor que dois anos. Do nosso primeiro encontro ficou a impressão de que era uma mulher com muitas questões  a superar. Eu tinha medo de que sua bagagem emocional a assustasse durante o processo do trabalho de parto, mas confiava e acreditava muito na sua determinação e vontade de parir.

à espera de Samuelzinho

à espera de Samuel

O Samuel começou a dar sinal de queria nascer assim que saiu a nomeação do pai. A nomeação deveria ter saído semanas antes e essa pendência era motivo de aflição na família… bastou se resolver para o parto se desenhar.

Na madrugada do dia 16 ela me fala muito emocionada que estava com contrações ainda irregulares, mas cada vez mais fortes… fomos nos falando ao longo do dia e já eram quase 23h quando cheguei na sua casa. Ela me deu um longo abraço e muito emocionada me dizia o quanto tinha esperado por aquele dia para sentir aquelas dores… ficamos só eu e ela no quarto. O marido tentava dormir na sala e o João Gabriel dormia no seu quartinho.

Foi maravilhoso ver a transformação daquela mulher ansiosa em mulher ativa e determinada. Tudo o que fosse bom para o andamento do parto ela topava. Claro que a ansiedade nos rodeava, mas ela ia contornando, lidando com as contrações a cada vez, procurando uma posição mais confortável sempre. Assim que a contração passava ela voltava a falar sobre seus traumas no parto anterior, sobre como estava feliz naquele dia, procurava resolver alguma pendência (quem ficaria com o João Gabriel quando fôssemos para a maternidade?),  mas era só sorrisos e felicidade. Durante as contrações ela foi aprendendo a se concentrar, a ouvir seu corpo… se remexia procurando alívio e inventava posições para ficar mais confortável. Naquela madrugada meu coração se encheu de uma alegria imensa. Alegria por estar ali com ela, acompanhando aquele parto que era tão desejado. Nunca me senti tão útil e tão feliz em servir alguém… uma alegria que vinha da gratidão pela confiança que ela depositou em mim para estar ali naquele momento. Eu via o passado sendo superado naquelas horas: cada contração era a prova de si mesma, era a certeza que ela conseguiria, que seu corpo podia parir, que seu útero não romperia.

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

alívio no chuveiro quente

alívio no chuveiro quente

Ligamos para a médica por volta das 4 horas da manhã e chegamos ao hospital por volta das 5. Chegando lá a médica fez o toque e constatou 8cm de dilatação, bebê um pouco alto ainda. Descemos para o bloco cirúrgico, onde ia acontecer o parto. Para o bebê descer propus o “andar de pato”e ela prontamente se agachou e começou a caminhar de cócoras pelo corredor do bloco. Antes daquela cena eu pensava que nenhuma mulher ia se prontificar a fazer isso no auge da dilatação quando a dor é de ver estrelas. Mas naqueles minutos eu vi a diferença que faz a determinação e a vontade de parir em mulher! Houve um momento durante esse exercício em que ela agarrou meus braços e olhou bem nos meus olhos com um sorriso feliz no rosto. Nos encaramos por uns segundos…  o olhar embriagado de dor, emoção e ocitocina me dizia apenas: eu vou conseguir.

Sentou-se um pouco na banqueta, a neonatologista chegou e ela em lágrimas pediu para ficar com o filho assim que ele nascesse e que não fosse ofertado leite artificial (diferente do que aconteceu com o primeiro). A incredulidade do que estava prestes a acontecer a deixava muito emocionada.

minutos antes de o Samuel nascer

minutos antes de o Samuel nascer

As contrações ficaram um pouco mais espaçadas e a médica resolveu conduzir o expulsivo, pois não podia usar ocitocina em virtude da cesárea prévia. Às 5:55  Samuel nasceu curando sua mãe por dentro e enchendo de orgulho o pai e esta doula que aqui escreve.  Alguém mencionou que ele teria nascido às 6 na hora da Virgem Maria e foi linda a consagração que a mãe proferiu naquele momento.

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

emoção

“Realizei um sonho”, ela me disse logo após o parto.

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

Ju, minha querida… que deusa era você naquelas horas? Tão determinada e dona de si. Superando cada contração como um degrau a ser escalado… contra tudo o que você ouviu na gestação de João Gabriel, contra todo o terrorismo que te fizeram na gestação do Samuel você pariu, seu útero não rompeu como te disseram que aconteceria. Você com a sua história quebrou mitos e provou para si e para todos do que o corpo de uma mulher é capaz. Agora és além de uma mulher ligada no 220v (rsrsrs) uma inspiração para vida e o sonho de tantas outras mulheres. Gratidão!!!

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

reconhecendo a mamãe

reconhecendo a mamãe

a família está completa agora!

a família está completa agora!

 

 

a saudade de todo dia

Quando eu era criança passava as férias na casa dos meus avós maternos. Por muito tempo também moramos perto deles, quase vizinhos mesmo e era comum passar as manhãs ou tardes por lá… sabe como é casa de vó, sempre um terreno fértil para brincar e ser paparicada!

No fim da tarde meus avós tinham o costume de colocar as cadeiras no terraço e ficar lá curtindo a brisa do entardecer. Minha Vó ficava lendo a Bíblia dela, um livro enorme de capa preta e com umas figuras um tanto assustadoras para uma criança de 5 anos, como eu rsrsrs. Nesses momentos ela também costurava, fazia crochê, bonecas de pano (não me perdoo por ter perdido a minha) e sobretudo fuxico! Só de lembrar me vem lágrimas aos olhos… ela me ensinava a alinhar aquelas bolinhas de retalho, lembro tão bem das suas mãos fazendo o movimento sinuoso da agulha no tecido… E dentro de sacos e mais sacos de plástico ela guardava retalhos, linhas, agulhas e uma tesoura enorme, que hoje eu guardo de recordação.

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uma das almofadas de fuxico que Vó fez

Tenho em casa almofadas de fuxico que Vó fez…  os meus fuxicos nunca ficaram tão bem feitinhos quanto os de Vó, bem franzidinhos e planos… as estampas combinadas sem nenhum planejamento, mas ainda assim num resultado tão harmonioso…

Lamento tanto não ter tido mais tempo para conversar com Vó sobre parto, queria tanto ter ouvido as histórias… ela faleceu quando eu estava com 3 meses de gestação e nem sonhava ainda com esse mundo dos partos naturais… mas sei que ela está comigo sempre, no meu sangue, nas minhas células. Na minha força. Minha avó veio em pensamento durante meu trabalho de parto para me dizer que conseguiria, assim como ela. Sua imagem me mostrou que eu seria forte… Penso muito como seria legal se ela tivesse conhecido Vinícius, posso imaginá-la sorrindo feliz, com Vini no colo e orgulhosa de ter um bisneto tão lindo e gordinho.

Mas eu iniciei esse post para falar de outra saudade que consegui “materializar” recentemente: o pão que meu avô fazia. Ele faleceu há 14 anos. E durante todo esse tempo além da saudade da presença dele – sempre tão bondoso- eu sentia muita saudade desse pão. Principalmente porque ele fazia quando eu ia lá e ainda fazia mais um para eu levar para casa. Demorei para encontrar a receita, apesar dela ser nada sofisticada. Um pão tão simples quanto meu avô, homem da roça e com quem eu também queria ter tido mais tempo para apreender o saber das coisas naturais…

No primeiro dia que fiz esse pão e deu certo eu não cabia em mim de felicidade, o cheiro, a textura, tudo igual ao que eu venerava durante a minha infância. E como é bom matar a saudade! Pena que só pude matar a saudade do pão…

o pão de Vô :D

o pão de Vô :D

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio