pequena história de parto: a saudade

No corredor havia alguns janelões por onde entrava uma luz clara e suave. Aquela luz mansa que atrai os passarinhos pela manhã. Caminhávamos para lá e pra cá e numa das voltas, passando pela janela, ela se apressou para a  curva do corredor, num cantinho onde elegemos ter mais privacidade para os agachamentos durante as contrações. Ali soltou um “está me dando vontade de chorar” já desabando no choro.

“Sempre que ouço o canto do bem-te-vi lembro do meu pai que amava passarinhos. Lembro especialmente de uma cena quando ele atravessou o portão e um bem-te-vi começou a cantar. Por isso sempre lembro dele quando ouço esse canto. E é como se ele estivesse comigo nessa hora.”

Me contou que seu pai falecera há dois anos depois de uma intensa luta contra o câncer. Disse várias vezes que ele morreu em casa, ao lado dos seus e ela estava lá quando ele partiu.

Todo aquele relato encheu meu coração. E sentindo a sinceridade daqueles sentimentos, toda aquela saudade… também comecei a chorar.

Prosseguimos no caminhar de um trabalho de parto sofrido e que se arrastava. Tantos bloqueios, tanta preocupação lhe vinha à tona, o ambiente não ajudava, a cabeça não conseguia relaxar. Volta e meia falava do pai.

Em certo momento lembrei de algo que li e lhe disse: “Querida, a dor do parto é a dor da vida”. 

Me lançou um olhar tentando achar aquilo bonito, como se  “vida” nesta frase se referisse àquele ser que iria chegar.

“Não. É a dor da nossa vida, nossa bagagem emocional.”

Soltou o choro.

“É que estou sentindo muita falta do meu pai hoje, sabe? Estou lembrando tanto dele. Ele sofreu muito… Queria tanto que ele estivesse aqui comigo.”

“Sim, eu sei.” – disse eu, mais uma vez chorando ao compartilhar daquela tristeza.

O parto aconteceria em uma maternidade pública onde os maridos só podem entrar na sala de parto no momento do expulsivo. Ainda assim pedi para chamá-lo para que se vissem naquele corredor mesmo, por um instante que fosse. Ela precisava da presença dele mais do que nunca.

Ele chegou, se abraçaram e foram caminhar juntos. Ele a fazia rir, lhe dava força, lhe passava segurança. Outras questões foram sendo desatadas… Tudo parecia ir bem, eu confiava que aquilo fizesse o trabalho de parto evoluir. Então uma enfermeira chegou e pediu que o marido saísse dali e que ela entrasse para o quarto onde as outras mulheres estavam.

Foi o momento de crise.

E no meio daquele caos, ela finalmente conseguiu desabafar e dizer que não queria ficar naquele lugar, que se irritava com a ligação da família querendo saber em que ponto estava aquele parto ou aconselhando a fazer uma cesárea afinal; que não aguentava mais ver e ouvir outras mulheres recebendo seus bebês enquanto ela estava ali, travada naquela luta.

O caos. Aquele momento único, o lampejo de desordem onde tudo pode voltar para o lugar.

E voltou.

E então saímos dali finalmente, procuramos a tranquilidade de outra estrutura, o alívio de outra forma. E então ela pode receber sua filha, encontrando uma força que jamais pensou que teria. A pequena chegou no raiar do dia.

Naquela hora da luz suave quando cantam os passarinhos.

 

 

Relato de parto de Clarisse, nascimento de Camila

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender 

(Sol de primavera – Beto Guedes)

 

Bom, esse relato de parto é especial. Primeiramente porque a própria Clarisse me pediu que eu o escrevesse para ajudá-la a lembrar daquele dia e segundo porque esse parto é especial por si só como vocês poderão ver…

Na manhã do dia 31 de agosto recebo o telefonema de uma mulher ofegante perguntando sobre meu trabalho e se eu estaria disponível para aquele dia mesmo. Eu estava preparando o material para um ensaio que eu ia fotografar naquela tarde, então tendo isso em mente perguntei: é para fotografar? E ela disse: não, para me acompanhar como doula.

Oi?

Parei um segundo e pensei: gente, como assim ela tá procurando uma doula em pleno trabalho de parto? Por que não procurou antes?

E então ela me contou a história. Sua bebê estava em posição pélvica* dias antes de entrar em trabalho de parto e por esse motivo ela não se animou de ir atrás de nada sobre o parto… disse que estava sentindo umas cólicas e que ao ser atendida pelo plantonista ele reforçou que ela tentasse ter o bebê de parto normal mesmo e que procurasse uma doula para ajudá-la.

E então ela estava ali, inciando o trabalho de parto, me perguntando se eu poderia acompanhá-la.

Nós, doulas, preferimos conhecer a gestante ao longo da gestação para criarmos um vínculo, entendermos a dinâmica da família, conhecermos os planos e expectativas para o parto. Mas enquanto estava ali falando com Clarisse senti que deveria atender seu chamado, que deveria estar com ela. Combinamos de nos falarmos ao longo do dia e eu passaria para visitá-la no final da tarde.

 

primavera

Fonte: the mandala journey

 

Depois do ensaio fomos fazer um lanche e quando voltei a falar com Clarisse ela tinha resolvido ir ao hospital avaliar o andamento do trabalho de parto. Cheguei lá por volta de 19:30h.  A dinâmica das contrações estava boa, 3 cm de dilatação e colo quase apagado. Nos conhecemos, fomos conversando e em nenhuma momento senti estranheza ou desconforto. Ficava feliz quando ela dizia que as massagens estavam ajudando a suportar a dor. Ela tinha chegado com os ombros muito tensos e com as massagens percebi seu corpo relaxando… Clarisse tem o jeito de mulher forte, prática, determinada. Seu trabalho de parto tinha bem essa característica: como se ela mirasse em um objetivo, estava disposta a atingi-lo. Ficou na bola muito tempo. As massagens na lombar e nos ombros a ajudavam a relaxar…

Martin, seu marido, estava sempre ali solícito em atendê-la quando ela pedia, mas nos deixava bem a vontade para fazermos o nosso trabalho, eu massageando e ela trazendo Camila ao mundo.

Por volta de 23h ela quis descansar um pouco e deitou-se de lado. Nos intervalos das contrações chegou a cochilar, quando a contração vinha tudo o que ela me pedia era a massagem.  O médico veio avaliá-la de meia-noite e pediu para o chamarmos novamente às 2h. As contrações estavam bem fortes a essa altura, não sei nem como ela conseguia suportá-las deitada. Mas estava funcionando tão bem que cochilamos os três (nos intervalos das contrações) até umas 02:10 da manhã quando depois de uma contração ela levantou-se para ir ao banheiro. Bastou sentar no sanitário para ouvirmos o  “chuááá…” da bolsa que acabara de estourar.

A próxima contração veio com uma leve vontade de fazer força, esperei mais uma para ter certeza. Ela colocava a mão como se estivesse segurando a cabeça da bebê e eu perguntava se ela sentia algo ali embaixo. Ela dizia que não, mas a mão continuava lá. Vi medo nos seus olhos, tentei dizer que não tivesse medo, que era Camila chegando, que estava tudo bem. Não sei se ela ouviu, seu olhar variava entre amedrontado e animalesco, orbitando em outro planeta. Pedi a Martin para chamar o médico, a enfermeira veio olhar como quem não tava entendendo que a bebê ia nascer dali a pouco. Depois da terceira contração Clarisse levantou, se posicionou na cama, o médico chegou e confirmou que a bebê já estava nascendo mesmo. Em mais três contrações Camila veio ao mundo, num expulsivo rápido e forte que me lembrou o nascimento do meu Vini. Eu vi no momento que Clarisse jogou o olhar para cima, surpreendida pela dor, pela força e ainda assim tão entregue e determinada àquilo. Eu vi naquela cena um olhar incrédulo e lampejante mirando para o alto e quase pude ler seus pensamentos naquele instante (se é que se consegue pensar em algo numa hora dessas). Imagino que ela ali ela encontrou a maior força que ela jamais imaginou que pudesse ter, que por um momento ela duvidou que a bebê ia sair e que por fim ela ela se maravilhou sem acreditar que então Camila estava do lado de fora, tendo passado por dentro dela… foi colocada diretamente em seus braços, quentinha e chorando a plenos pulmões.

Rosada, sem sangue nem vérnix (e isso parece tanto com a chegada de Vini!) recebida com as palavras da mãe, assim nasceu Camila na madrugada do primeiro dia de setembro, aniversário do seu avô materno. Lembro especialmente de Clarisse dizer:

“Você é a irmã do Nick”…

meus olhos ficaram marejados… o primeiro filho certamente a uma grande motivação para que o segundo parto fosse natural. O pai emocionado registrava algumas fotos…

Foi simplesmente lindo, exato, intenso. Indescritivelmente a experiência mexeu comigo, me confirmou o destino, me encheu de ocitocina e gratidão ao universo por me colocar no lugar certo, nas horas certas. :)

Clarisse, Martin, Camila e Nick (que ainda não conheço): obrigada pelo aprendizado! Por se abrirem a mim, por se permitirem viver esse parto e por terem me ligado tão em cima da hora para estar junto!

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*bebês em posição pélvica NÃO é indicação de cesariana. Mas a mãe em questão, além de não encontrar na cidade um profissional que topasse assistir um parto pélvico, tinha seus próprios receios.