a saudade de todo dia

Quando eu era criança passava as férias na casa dos meus avós maternos. Por muito tempo também moramos perto deles, quase vizinhos mesmo e era comum passar as manhãs ou tardes por lá… sabe como é casa de vó, sempre um terreno fértil para brincar e ser paparicada!

No fim da tarde meus avós tinham o costume de colocar as cadeiras no terraço e ficar lá curtindo a brisa do entardecer. Minha Vó ficava lendo a Bíblia dela, um livro enorme de capa preta e com umas figuras um tanto assustadoras para uma criança de 5 anos, como eu rsrsrs. Nesses momentos ela também costurava, fazia crochê, bonecas de pano (não me perdoo por ter perdido a minha) e sobretudo fuxico! Só de lembrar me vem lágrimas aos olhos… ela me ensinava a alinhar aquelas bolinhas de retalho, lembro tão bem das suas mãos fazendo o movimento sinuoso da agulha no tecido… E dentro de sacos e mais sacos de plástico ela guardava retalhos, linhas, agulhas e uma tesoura enorme, que hoje eu guardo de recordação.

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uma das almofadas de fuxico que Vó fez

Tenho em casa almofadas de fuxico que Vó fez…  os meus fuxicos nunca ficaram tão bem feitinhos quanto os de Vó, bem franzidinhos e planos… as estampas combinadas sem nenhum planejamento, mas ainda assim num resultado tão harmonioso…

Lamento tanto não ter tido mais tempo para conversar com Vó sobre parto, queria tanto ter ouvido as histórias… ela faleceu quando eu estava com 3 meses de gestação e nem sonhava ainda com esse mundo dos partos naturais… mas sei que ela está comigo sempre, no meu sangue, nas minhas células. Na minha força. Minha avó veio em pensamento durante meu trabalho de parto para me dizer que conseguiria, assim como ela. Sua imagem me mostrou que eu seria forte… Penso muito como seria legal se ela tivesse conhecido Vinícius, posso imaginá-la sorrindo feliz, com Vini no colo e orgulhosa de ter um bisneto tão lindo e gordinho.

Mas eu iniciei esse post para falar de outra saudade que consegui “materializar” recentemente: o pão que meu avô fazia. Ele faleceu há 14 anos. E durante todo esse tempo além da saudade da presença dele – sempre tão bondoso- eu sentia muita saudade desse pão. Principalmente porque ele fazia quando eu ia lá e ainda fazia mais um para eu levar para casa. Demorei para encontrar a receita, apesar dela ser nada sofisticada. Um pão tão simples quanto meu avô, homem da roça e com quem eu também queria ter tido mais tempo para apreender o saber das coisas naturais…

No primeiro dia que fiz esse pão e deu certo eu não cabia em mim de felicidade, o cheiro, a textura, tudo igual ao que eu venerava durante a minha infância. E como é bom matar a saudade! Pena que só pude matar a saudade do pão…

o pão de Vô :D

o pão de Vô :D

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

  • Suzane

    Saudades é ruim mesmo! Até hoje sinto muitas saudades da minha bizavó ela que ficava comigo quando eu era pequenininha até mais velha, morreu quando eu tinha uns 10 anos, mas eu lembro dela como se fosse hoje, me acolhendo, me acalmando, me dando amor…