parto de maio

o grito dela emocionava.

o trabalho de parto vinha rápido, a galope, atropelando.
as vezes cedia o passo, mas continuava firme, intenso.
e aí, de repente começou a afirmar:
eu preciso.
eu preciso de algo.
de quê eu preciso?
…..
não sei. eu não sei de nada.
não sei a resposta, meu filho.
…..
as frases pareciam aleatórias… desavisados poderiam pensar que era delírio.
mas eu não,
eu sabia que elas vinham de um lugar muito profundo.
o significado estava além do que poderíamos entender em palavras.
era apenas sentir. e veio.
o sentimento bateu no peito e refletiu os olhos marejados.
era a beleza em si.
crua. nua.
era a condição humana revelando-se em fragilidade e força.
era o encontro inevitável de si mesmo, sem fugas, sem máscaras.
era apenas a verdade.

“por que você se tornou doula?”

Esse texto-desabafo eu escrevi no começo de julho e fiquei adiando a publicação… por falta de tempo e por não ter certeza se seria entendida, mas enfim… ei-lo aí

………….

Sexta-feira saí para fotografar uma gestante, mas a chuva nos apanhou no momento em que fiz o primeiro clique. Resolvemos esperar um pouco e enquanto a chuva não cedia,  a gestante, sua mãe e eu conversávamos qualquer coisa para passar o tempo. No meio da conversa a mãe disparou: já que não estamos fazendo nada, me conte aí: afinal, por que você resolveu ser doula?

Hã? Oi?

Sou doula há mais de um ano e já respondi essa pergunta algumas vezes. Mas, para minha própria surpresa, titubeei e a primeira coisa que consegui responder foi:
Pois é, boa pergunta. Afinal por que resolvi ser doula? 
As palavras saíam da minha boca à medida que eu procurava alguma resposta sincera, que dissesse a verdade, o motivo fundamental e certeiro de eu ter me tornado doula.
Tão assim de supetão não encontrei outra forma de responder a não ser o “velho texto batido”:
“para ajudar outras mulheres e proporcionar a elas o que eu recebi no parto do meu filho.”
Mais uma vez as palavras saíam e eu me arrependia delas, não pude frear a autocrítica: afinal quem sou eu para pretender “ajudar” uma mulher e lhe “proporcionar” algo que ela não pudesse criar por si mesma? Como se eu pudesse ter uma chave, uma sabedoria mágica ou qualquer coisa que fosse salvadora e importante?
Sei lá, de repente tudo aquilo me soou estranho porque me dei conta que eu não ajudo mulheres (sim, eu ajudo, claro! mas essencialmente EU não faço nada além do que ela própria conseguiria fazer ou acessar). O trabalho de doula não vem de mim, do meu intelecto, não é algo que eu produzo. Não tenho expectativas de carreira profissional, não tenho planos nem metas quanto a isso. As vezes eu realmente me pergunto: como se deu essa escolha? Em que momento eu decidi?
Sinceramente, conscientemente eu não decidi nada. Nunca desejei, nem grávida, nem após o parto, conscientemente ser doula. As coisas foram acontecendo e, isto sim é verdade, decidi me levar por elas. E bom, não sei onde li a frase, mas me apego a ela: o caminho se faz caminhando. 
desenho-lindo-de-doula

 

Recentemente muitas pessoas vieram me perguntar sobre o trabalho de doula, como é, se é bom, se é bem remunerado, se vale a pena o investimento, etc. Se eu fosse responder com a razão, moldada culturalmente nessa sociedade ocidental, eu diria: é uma merda.  Afinal, fisicamente é muito cansativo, a equação tempo e disponibilidade versus remuneração não bate, além do não reconhecimento e situações de stress que enfrentamos. 

Eu nunca responderia assim tão diretamente “é uma merda” porque sei (pois vivencio) que ser doula contempla uma satisfação em si que não pode ser mensurada pelo que se espera de um trabalho/carreira de sucesso.
No entanto, urge em mim a necessidade de dizer: ser doula não é nadar num mar de rosas cheios de bebês fofinhos e mulheres iluminadas e relatos de partos emocionantes. Não é.
Para além de tudo ser doula é se confrontar diariamente. É resgatar um feminino esquecido, machucado. É mergulhar em suas próprias águas para conseguir entender as águas turbulentas de uma mulher parindo. E mergulhar em si. E rever nossos naufrágios e tesouros submarinos não é fácil. É lidar com muitas expectativas e consequentemente decepções, é trabalhar minuto a minuto o ego, a vaidade, a humildade.
E então, por que eu me tornei doula, afinal? – continuava martelando…

doula avançado

 

Essas reflexões me levaram a concluir que eu “resolvi” ser doula porque eu tenho um chamado. Não é algo que se escolhe racionalmente. Esse chamado que me leva a estar em círculo com as mulheres, compartilhando com elas desse momento sagrado do parto e do ser-mãe. Me reconectando a tudo que vivi e acessei na sacralidade do parto de Vinícius, resgatando minha ancestralidade, minhas origens. Minhas e de todas as mulheres que vieram antes de mim. Ah, isto sim é claro como água… E aí eu tenho certeza que elas é que me ajudam iluminando o caminho pelo qual percorro para encontrar quem eu sou, quem eu fui e o que eu vim fazer aqui. Em cada parto, em cada grito de dor, nos olhares em transe que elas devolvem, nos corpos se contorcendo eu me reconheço enquanto fêmea, mulher-selvagem, e acessar essa memória produz o maior sentimento de pertencimento que eu jamais senti: nesse momento miraculoso eu reencontro minha manada, minhas irmãs. Quem proporciona o que a quem afinal?

Eu resolvi ser doula porque eu estive lá uma vez e não consegui mais sair. 

E aí se eu fosse responder com base na minha emoção, levando em conta tudo o que eu vivencio sendo doula, eu diria: ser doula é uma reinvenção da própria vida. 
E para terminar este texto  volto à conversa que lhe deu início e que por sua vez terminou com um lindo relato: a mulher que me fez a pergunta, no momento seguinte começou a me contar um pouco de sua história. Era neta de parteira, vivia no interior de Minas Gerais, nasceu em casa, assim como todos os seus irmãos, pelas mãos da avó. Relatou como era quando a mãe entrava em trabalho de parto, sendo acompanhada apenas por sua própria mãe e pelo marido, que renovava a água quente da bacia. O bebê nascia e os irmãos sabiam pelo choro que se ouvia ecoando pela casa. A mãe cumpria rigorosamente o resguardo de 40 dias dentro do quarto e ao sair apresentava o bebê à natureza do sítio onde moravam.
Minha amiga gestante, perguntou: apresentava o bebê à natureza ou a natureza ao bebê? 
– O bebê à natureza,
– Como uma oferenda?
– É, como uma oferenda. Levava o bebê no colo e abria os braços assim, mostrando o tudo em sua volta. 
À medida que ela falava a imagem se formava na minha cabeça. Me emocionei. Que coisa mais linda, apresentar o bebê à natureza, harmonizando essas duas forças que são parte de um todo…
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Relato de Parto de Jucilene e Adriano, nascimento de Samuel

Conheci a Jucilene pela internet. Na época ela morava em Fortaleza e em um grupo de apoio ao parto no Facebook pediu orientações para parto natural em João Pessoa. Começamos a conversar e ela me contou toda a história da primeira gestação. Havia muitos traumas a serem superados: a cesariana sem indicação, a recuperação difícil, a alergia que o primeiro filho desenvolveu, e depois o terrorismo que sofreu por ter engravidado pouco tempo depois da cesárea. Ela conta que logo após o nascimento de João Gabriel realmente já queria engravidar de novo, mas dessa vez para parir, e trazer ao mundo com suas forças, o próximo filho.

E assim foi…

Nos falávamos muito pela internet e nos conhecemos pessoalmente no início de março. No final de abril ela finalmente se mudou para João Pessoa. Jucilene é uma mulher devotada à família, me encantou sua simplicidade que se confunde com algo parecido com a ingenuidade das pessoas bondosas de coração… outro traço marcante de sua personalidade é que ela é ligada no 220v, dá conta de várias coisas ao mesmo tempo ou como diria meu avô: é uma mulher avexada! Mas pudera: mãe dedicada está atenta aos mínimos detalhes da alimentação do João Gabriel que tem alergia à proteína do leite de vaca, tudo tem que ser preparado impecavelmente de modo a eliminar os traços da proteína, teve que de lidar com uma mudança de cidade no final da gestação, com as incertezas do trabalho do marido e de seu próprio, comprar mobília para o apartamento novo… e em meio a tudo isso ainda encontrar um obstetra que topasse um parto natural depois de uma cesárea com intervalo menor que dois anos. Do nosso primeiro encontro ficou a impressão de que era uma mulher com muitas questões  a superar. Eu tinha medo de que sua bagagem emocional a assustasse durante o processo do trabalho de parto, mas confiava e acreditava muito na sua determinação e vontade de parir.

à espera de Samuelzinho

à espera de Samuel

O Samuel começou a dar sinal de queria nascer assim que saiu a nomeação do pai. A nomeação deveria ter saído semanas antes e essa pendência era motivo de aflição na família… bastou se resolver para o parto se desenhar.

Na madrugada do dia 16 ela me fala muito emocionada que estava com contrações ainda irregulares, mas cada vez mais fortes… fomos nos falando ao longo do dia e já eram quase 23h quando cheguei na sua casa. Ela me deu um longo abraço e muito emocionada me dizia o quanto tinha esperado por aquele dia para sentir aquelas dores… ficamos só eu e ela no quarto. O marido tentava dormir na sala e o João Gabriel dormia no seu quartinho.

Foi maravilhoso ver a transformação daquela mulher ansiosa em mulher ativa e determinada. Tudo o que fosse bom para o andamento do parto ela topava. Claro que a ansiedade nos rodeava, mas ela ia contornando, lidando com as contrações a cada vez, procurando uma posição mais confortável sempre. Assim que a contração passava ela voltava a falar sobre seus traumas no parto anterior, sobre como estava feliz naquele dia, procurava resolver alguma pendência (quem ficaria com o João Gabriel quando fôssemos para a maternidade?),  mas era só sorrisos e felicidade. Durante as contrações ela foi aprendendo a se concentrar, a ouvir seu corpo… se remexia procurando alívio e inventava posições para ficar mais confortável. Naquela madrugada meu coração se encheu de uma alegria imensa. Alegria por estar ali com ela, acompanhando aquele parto que era tão desejado. Nunca me senti tão útil e tão feliz em servir alguém… uma alegria que vinha da gratidão pela confiança que ela depositou em mim para estar ali naquele momento. Eu via o passado sendo superado naquelas horas: cada contração era a prova de si mesma, era a certeza que ela conseguiria, que seu corpo podia parir, que seu útero não romperia.

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

alívio no chuveiro quente

alívio no chuveiro quente

Ligamos para a médica por volta das 4 horas da manhã e chegamos ao hospital por volta das 5. Chegando lá a médica fez o toque e constatou 8cm de dilatação, bebê um pouco alto ainda. Descemos para o bloco cirúrgico, onde ia acontecer o parto. Para o bebê descer propus o “andar de pato”e ela prontamente se agachou e começou a caminhar de cócoras pelo corredor do bloco. Antes daquela cena eu pensava que nenhuma mulher ia se prontificar a fazer isso no auge da dilatação quando a dor é de ver estrelas. Mas naqueles minutos eu vi a diferença que faz a determinação e a vontade de parir em mulher! Houve um momento durante esse exercício em que ela agarrou meus braços e olhou bem nos meus olhos com um sorriso feliz no rosto. Nos encaramos por uns segundos…  o olhar embriagado de dor, emoção e ocitocina me dizia apenas: eu vou conseguir.

Sentou-se um pouco na banqueta, a neonatologista chegou e ela em lágrimas pediu para ficar com o filho assim que ele nascesse e que não fosse ofertado leite artificial (diferente do que aconteceu com o primeiro). A incredulidade do que estava prestes a acontecer a deixava muito emocionada.

minutos antes de o Samuel nascer

minutos antes de o Samuel nascer

As contrações ficaram um pouco mais espaçadas e a médica resolveu conduzir o expulsivo, pois não podia usar ocitocina em virtude da cesárea prévia. Às 5:55  Samuel nasceu curando sua mãe por dentro e enchendo de orgulho o pai e esta doula que aqui escreve.  Alguém mencionou que ele teria nascido às 6 na hora da Virgem Maria e foi linda a consagração que a mãe proferiu naquele momento.

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

emoção

“Realizei um sonho”, ela me disse logo após o parto.

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

Ju, minha querida… que deusa era você naquelas horas? Tão determinada e dona de si. Superando cada contração como um degrau a ser escalado… contra tudo o que você ouviu na gestação de João Gabriel, contra todo o terrorismo que te fizeram na gestação do Samuel você pariu, seu útero não rompeu como te disseram que aconteceria. Você com a sua história quebrou mitos e provou para si e para todos do que o corpo de uma mulher é capaz. Agora és além de uma mulher ligada no 220v (rsrsrs) uma inspiração para vida e o sonho de tantas outras mulheres. Gratidão!!!

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

reconhecendo a mamãe

reconhecendo a mamãe

a família está completa agora!

a família está completa agora!

 

 

O parto da Carol – parte 1

Pensei muito antes de iniciar esse post. Primeiramente porque eu já sabia que não encontraria palavras para descrever a emoção e tudo o que significa esse parto. Segundo porque não quero estragar com as minhas palavras o que Carol está tecendo desde antes do nascimento de Daniel: um relato que certamente inspirará outras mulheres a realizarem tudo o que seus corações desejarem. Quando ela terminar vou pedir autorização para postá-lo aqui. :)

Mas, ontem começou uma manifestação nacional (e internacional também!) contra o caso ocorrido em Torres-RS, onde uma mulher (Adelir Guimarães) foi levada presa para ser submetida a uma cesariana sob alegação de que estava pondo em risco a vida do filho. Esse caso já foi amplamente noticiado e debatido e quem quiser saber mais pode encontrar detalhes aqui, aqui e aqui. Esse episódio dramático mexeu muito com todos que lutam e acreditam na humanização do parto. Cada vez que penso sobre ele, me revolta e me choca o abuso de direito do Estado e a violação dos direitos mais básicos do ser humano, dentre eles a integridade do próprio corpo e a liberdade de suas escolhas.

E então, resolvi fazer esse post não para relatar o parto de Carol, mas para, através da fotografia, contestar e levantar bandeira: por que é negado às mulheres receberem seus bebês assim? Na tranquilidade do local que escolherem, acompanhadas das pessoas que escolherem, pela via de nascimento que escolherem?

Assim como Adelir, Carol tinha duas cesáreas prévias. E seu útero não rompeu. Existia o risco de uma ruptura uterina? Sim, existia. O que os médicos não falam é que este risco existe desde a primeira gestação para qualquer mulher no planeta, mas ele é baixíssimo e por outro lado aumenta à medida que mais incisões cirúrgicas vão sendo feitas no útero. Assim, cesarianas sucessivas envolve mais riscos que a tentativa de um parto normal após cesárea.

O parto de Carol não deveria ser  exceção. Não deveria ser uma realidade distante para a maioria das brasileiras. Todas merecemos parir em paz, com respeito, cercadas de amor. Da forma como escolhemos. São direitos básicos.E é por isto que lutamos, por todas nós, da rede privada, da rede pública, seja como for. Parir é  um evento familiar, é uma aliança com a humanidade. O parto precisa retomar seu lugar de sagrado.

**

Carol pariu em casa, numa tranquilidade que jamais vi. Serena, consciente do seu corpo. O bebê nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo. Não houve pressa.

Durante a gestação eu vibrava nas nossas conversas pela Facebook a cada “reviravolta” desse parto: ia ser hospitalar, podia aparecer uma pré-eclâmpsia, ia ser a última tentativa; ia ser pelo menos uma indução; vai ser domiciliar, o bebê que estava pélvico virou (mas isto não era um problema!), apareceu uma parteira perfeita para o plano, a médica topou ficar de backup, pródromos prolongados… as semanas passaram em ansiedade no desejo de um parto que floresceu em muitos corações…

E então, aquela mulher negada ao direito de parir há 4 anos atrás, finalmente realizava o desejo do corpo e do coração, numa facilidade, tranquilidade e simplicidade… que atestava claramente: sim, nós mulheres sabemos parir. Nós, mulheres, gostamos de parir.

 

O pai que esperava ansioso a hora do parto

O pai que esperava ansioso a hora do parto

detalhes do parto em casa: Reparir é o nome do blog de Juliana e este mimo foi presente de Carol. Estava lá pendurado de frente para cama, ao lado do quadro com versículos da Bíblia em romeno.

detalhes do parto em casa: Reparir é o nome do blog de Juliana e este mimo foi presente de Carol. Estava lá pendurado de frente para cama, ao lado do quadro com versículos da Bíblia em romeno.

"Vou descansar um pouco e depois quando eu acordar vamos nos mexer para esse parto acontecer hoje."

“Vou descansar um pouco e depois quando eu acordar vamos nos mexer para esse parto acontecer hoje.”

escalda-pés para relaxar...

escalda-pés para relaxar…

cenas do parto em casa: conversa com a parteira, amiga amamentando na rede...

cenas do parto em casa: conversa com a parteira, amiga amamentando na rede…

Carol com 6,5cm de dilatação.

Carol com 6,5cm de dilatação.

saímos para caminhar na pracinha ao lado... este é o céu daquele tarde.

saímos para caminhar na pracinha ao lado… este é o céu daquele tarde

cenas do parto em casa: nosso jantar!

cenas do parto em casa: nosso jantar!

só o universo explica um encontro de almas como esse!

só o universo explica um encontro de almas como esse!

Carol, aos NOVE cm de dilatação. Isso mesmo!

Carol, aos NOVE cm de dilatação. Isso mesmo!

Daniel saiu lentamente e foi tranquilamente aparado por Regine, a parteira.

Daniel saiu lentamente e foi tranquilamente aparado por Regine, a parteira

o momento em que descobriram o sexo do bebê

o momento em que descobriram o sexo do bebê

papai orgulhoso!

papai orgulhoso!

a querida tia Marli, que tinha viagem marcada para a madrugada, mas conseguiu assistir ao parto

a querida tia Marli, que tinha viagem marcada para a madrugada, mas conseguiu assistir ao parto

Daniel foi parido em casa, depois de duas cesáreas. Nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo, o útero não rompeu. Nós mulheres sabemos parir! :)

Daniel foi parido em casa, depois de duas cesáreas. Nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo, o útero não rompeu. Nós mulheres sabemos parir! :)

 

Gratidão! :)

Relato da doula: parto de Danielly e Matheus, nascimento de Raul

Conheci Dani através de um grupo de apoio ao parto normal no Facebook. Ela procurava indicações de médicos que atendessem ao parto em Campina Grande e logo começamos a conversar e procurar as opções (bem escassas! rsrs)

Ela é pernambucana e mora em Santa Cruz, e como em sua cidade não há uma boa estrutura hospitalar, o plano era ter o bebê em Campina Grande, ficando então, hospedada na casa dos sogros.

Dani foi a primeira pessoa que me contratou como doula e por isso lhe tenho um grande carinho e gratidão.
A afinidade entre nós foi acontecendo facilmente… Nos conhecemos pessoalmente em novembro de 2013 no primeiro encontro da Gestar e Maternar em Campina Grande e prosseguimos com nossa conversa online. Enquanto isso, Dani seguia buscando um obstetra que atendesse seu desejo de um parto natural, sem intervenções.
Em janeiro de 2014 nos encontramos em João Pessoa para fazermos as fotos de Raul. Foi uma tarde muito agradável. Eu e Flávio saímos da sessão com aquela impressão de que neles víamos a nós mesmo meses atrás: um casal jovem, primeiro filho, em busca de um parto, com sede de informação.
Essa afinidade com os casais que tenho acompanhado é algo que me dá certeza desse destino de ser doula. Agradeço a Deus por todas essas belas amizades que tem surgido em minha vida!
Dani e Matheus à espera de Raul.

Dani e Matheus à espera de Raul.

Enfim Dani encontrou uma obstetra que topou seu parto e lhe transmitiu a segurança necessária. Respiramos aliviadas! Agora era só esperar a hora de Raul nascer.
Na quarta-feira, dia 12 de março, Dani me liga pela manhã dizendo que estava sentindo contrações dolorosas  a ponto de nem conseguir descansar, mas ainda sem ritmo. Conversamos sobre a iminência do parto e frisei que ela procurasse descansar e que me ligasse se sentisse qualquer mudança nessa dinâmica, enquanto isso eu arrumaria minha bagagem para viajar. Assim que desliguei, liguei para Maria Rosa, que estaria conosco como doula também. Avisei da iminência do parto.
Ao longo do dia nenhuma mudança. No fim da tarde Dani resolveu fazer uma avaliação com a obstetra e no toque o colo estava alto e grosso. Resolvi ficar por João Pessoa, pois estava esperando outro parto que poderia acontecer a qualquer momento também. Na madrugada Matheus me liga dizendo que ela estava vomitando muito, sem conseguir dormir e as contrações estavam mais regulares. Pedi a ele que procurasse fazê-la descansar para o trabalho de parto que, sim, estava começando.
Ao raiar o dia, organizei minhas coisas, super animada com mais esse parto. A semana já estava bem ocitocinada para mim que havia fotografado um parto na terça! Tinha combinado com uma diarista nova uma faxina praquele dia, esperei ela chegar e peguei a estrada.
Na saída Matheus me liga e fala que as contrações estavam mais ou menos de 5 em 5 minutos, era 09:30 mais ou menos. Liguei para Maria Rosa e pedi que ela fosse ao encontro deles. Nisso, Juliana me liga dizendo que o outro parto que eu acompanharia como doula estava dando sinais claros de início. Haja emoção!!!
Como Dani estava com uma dinâmica mais avançada, segui viagem confiando que daria tempo de atender aos dois partos. (E sim, deu! Uhuu!)
A decoração do quartinho de Raul foi feita pela mamãe habilidosa.

A decoração do quartinho de Raul foi feita pela mamãe habilidosa.

Cheguei na casa às 11:30 mais ou menos. Ela estava cansada das noites mal dormidas, não conseguia comer e o que comia vomitava. Me preocupei com seu estado físico. Tentamos fazê-la descansar, mas as dores eram muito fortes.
Maria Rosa veio me dizer que as contrações não tinham um padrão de tempo e duração e que Dani se preocupava com isso. Lembro que assim que entrei no quarto Dani me olhou e disse: “mulher, tu acha que isso é trabalho de parto mesmo?” Achei graça. “É sim, Dani!” Conversamos e resolvemos não cronometrar as contrações então para que ela se entregasse ao processo.
A mão da mãe ansiava diminuir as dores da filha.

A mão da mãe ansiava diminuir as dores da filha.

E assim seguimos. Nos preocupávamos em encontrar uma posição que lhe trouxesse alívio, mas sozinha em pé ou em quatro apoios é que Dani se sentia melhor. Percebíamos que ela ainda se preocupava com coisas externas e alheias ao trabalho de parto, na dor as vezes desesperava. Ficamos a sós com ela, conversamos… mas só quando Matheus deu a boa notícia de que conseguira uma folga no trabalho para ficar até  segunda-feira em Campina, é que ela relaxou e finalmente o trabalho de parto engrenou. E engrenou mesmo! As dores vinham fortes, ela se desinibiu para vocalizar. Fomos para o chuveiro, a água quente nas costas agora lhe trazia alívio. Tentamos fazê-la comer o que quer que fosse. Dani havia me falado que queria ir para o hospital com a dilatação bastante avançada, pois queria passar o menor tempo possível lá, então combinamos de irmos para o consultório da médica avaliar o colo às 16h. Eu queria tardar ao máximo esse momento, mas desde 14:00 ela me perguntava se já não estava na hora. Dizia que queria ir para o hospital e eu lhe dizia: você quer que Raul nasça. Calma, não confunda!
Oferecemos açaí na esperança de repor as energias de Dani.

Oferecemos açaí na esperança de repor as energias de Dani.

Passamos um tempo no chuveiro, todos entregues ao trabalho de parto.

Passamos um tempo no chuveiro, todos entregues ao trabalho de parto.

Eram quase 15h quando ela disse: estou sentindo vontade de fazer força! Me assustei. Olhei para Maria Rosa e ela sugeriu a Dani que mudasse um pouco a posição. A vontade passou. Resolvi cronometrar as contrações então, pois a médica me perguntaria a dinâmica. E ficamos mais meia hora cronometrando. As contrações vinham a cada 2 minutos. E depois a cada 3. E depois a cada 6.
O estado físico e emocional de Dani me falava que o trabalho de parto estava avançado, não podia me orientar apenas pelas contrações. Quando começou a sair pedaços maiores do tampão, ela ficou impaciente novamente e pediu para irmos pro hospital.
Saímos do chuveiro, ela se vestiu, sogra e mãe organizaram o que tinha para levar. A chuva começou a cair. Saímos no meu carro, eu, ela Matheus e Maria Rosa. A família ia depois em outro carro. Era 16h e seguíamos para o consultório da médica.
Entre toalhas e vestidos as contrações continuavam.

Entre toalhas e vestidos as contrações continuavam.

O apoio constante de Matheus trazia tranquilidade à Dani.

O apoio constante de Matheus trazia tranquilidade à Dani.

A chuva que caia para embalar a chegada de Raul.

A chuva que caia para embalar a chegada de Raul.

No banco de trás o casal trocava beijos e carícias, eu e Marrosa comentávamos felizes aquela cena até que na sequencia Dani dá um grito desesperador. Estar sentada lhe trazia grande desconforto, mas era algo mais.
e tudo ali era só amor.

e tudo ali era só amor.

No meu pensamento apenas o pedido de que a dilatação estivesse no final, pois pelo cansaço ela ficaria muito desapontada se ainda houvesse um caminho a percorrer.
Chegando ao consultório, a médica, que estava atendendo uma paciente, ao ouvir um grito de Dani durante uma contração pediu licença para examiná-la e nos veio com a boa notícia: dilatação completa!
Festejamos no consultório e saímos a pé para o hospital que fica na calçada em frente ao consultório.
Chegando ao hospital foi aquele alvoroço de enfermeiras que não sabiam o que fazer.
Dani subiu para o bloco cirúrgico, a médica já havia ligado para o hospital pedindo para prepará-la para o parto.
A enfermeira do bloco permitia apenas a entrada de um acompanhante, Matheus foi se trocar e enquanto isso eu argumentava com ela e com a secretária que era preciso que eu entrasse. Quando a médica chegou pedi que ela autorizasse minha entrada e foi então que a enfermeira cedeu, ainda pedi que Maria Rosa entrasse também,  mas ela foi irredutível.
Me troquei às pressas e quando chegamos na sala Dani estava deitada de costas  e as enfermeiras fazendo o acesso na veia.
Tal como um super herói que detém o vilão no momento exato, a obstetra ao se deparar com a cena disparou: “Não! Parem com isso! Isso é só um parto!”
“Isso é só um parto”. Que frase mais certeira!
Desapontadas as enfermeiras saíram da sala. Me senti orgulhosa de estar ali vencendo uma árdua batalha contra o sistema. Enfim acabou-se o pandemônio hospitalar e agora um parto estava acontecendo com toda a sua tranquilidade merecida.
Em um canto da sala a obstetra posicionou a banqueta de parto, Matheus serviu de apoio para as costas de Dani. A médica sentou-se no chão em frente ao casal, colocou Norah Jones como trilha sonora, apagou as luzes, deixou a sala na penumbra e ficou ali aguardando Raul nascer. Eu fotografava.
Em instantes vieram os puxos, Dani usava toda a sua força, o cabelinho de Raul começou a aparecer. Pedimos a Dani para tocar, mostramos a chegada de Raul com um espelhinho para o pai que ficou extasiado.
Mais alguns puxos e às 16:30 Raul nasceu. Foi para o colo de sua mãe, ficamos todos maravilhados e emocionados com a simplicidade e magnitude do que acabara de acontecer: era apenas um parto, mas parou o tempo por alguns minutos.
Bem vindo, Raul!

Bem vindo, Raul!

Eles haviam conseguido. Os dias de incerteza, a equipe médica que não se achava, a espera longe de casa, a angústia, um trabalho de parto intenso, o cansaço, o sistema hospitalar amarrado a protocolos e regras, o destino que estava fadado a não realizar os desejos do coração. Nada disso importava mais, eles haviam conseguido contra todas as previsões. Raul, Dani e Matheus fizeram acontecer naquela maternidade algo raro: a naturalidade de um parto.
 A obstetra esperou uns 20 minutos até o cordão parar de pulsar para então Matheus cortá-lo.
O pai cortou o cordão umbilical.

O pai cortou o cordão umbilical.

Enquanto a mãe recebia alguns pontinhos, Raul seguiu para o berçário com o pai e logo todos se encontraram no quarto com os avós que esperavam ansiosos. Ainda caía uma chuvinha fina enquanto eu e Marrosa voltávamos para casa, ocitocinadas e em êxtase.
As avós corujas!

As avós corujas,

A mãe realizada.

a mãe realizada,

O pai babão!

o pai babão,

e o bebê mais lindo do pedaço!

e o bebê mais lindo do pedaço!

Dani e Matheus: pessoas queridas, de corações lindos e sinceros, lhes desejo toda a felicidade, resgate e iluminação que a vinda de um filho possa representar. Vocês batalharam tanto por esse momento, acreditaram, pesistiram. Conseguiram.
Agradeço pela confiança, pelo apoio e amizade.  Que Raul cresça forte e saudável nesse ninho de amor!
Marrosa: Obrigada por estar conosco nesse momento. Você é maravilhosa em dedicação e gentileza!
Dona Sávia e Dona Fátima: grata pela confiança! E principalmente pela compreensão, apesar da ansiedade que tomaram conta daquelas horas.
Fotos por: Heloá Aires.
Vedada reprodução sem autorização. Todos os direitos reservados.

Relato da Doula: Parto de Adrieny e Emmanuel, nascimento de Amélie

[Antes de iniciar este relato quero agradecer à Adrieny e Emmanuel pela confiança. Por me escolherem para estar presente no dia mais importante de suas vidas. Pela amizade, carinho e por tudo o que pude vivenciar neste parto maravilhoso.]

Conheci Adrieny por intermédio de Juliana quando ela estava com 6 meses de gestação. Marcamos um encontro na casa de Ju, nos conhecemos pessoalmente e partir dali fomos conversando sobre meus serviços como doula.

Eu já tinha fechado contrato com outras pessoas, mas pelas datas prováveis dos partos (DPP) o de Adrieny seria a minha primeira doulagem. Antes, eu acompanharia o parto de May, mas como fotógrafa.

Eu e ela temos um jeito parecido. Um pouco reservadas no início, fomos nos conhecendo aos pouquinhos… A gestação de Amélie foi tranquila, sem intercorrências. Adrieny é o tipo de mulher decidida, que sabe o que quer e corre atrás: leu livros sobre parto e maternagem, se informou, frequentou as rodas de gestantes, trocou de médica várias vezes até encontrar uma que lhe passasse a segurança necessária para o parto tão desejado.

No caminho que ela trilhava para realizar esse desejo eu via a mim mesma, há mais de 1 ano atrás, quando  iniciei meu caminho de descoberta e resgate que culminou no parto de Vinícius.

Quando ela completou 37 semanas, nos reunimos em sua casa para tirar dúvidas quanto ao trabalho de parto, passei algumas orientações. Pintamos sua barriga (eu desenhei e o marido pintou) e foi uma tarde realmente muito agradável. Lembro com muito carinho desse momento, pois neste dia pude descobrir outras afinidades com o casal. Novas e lindas amizades floresceram em minha vida.

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Pintura de barriga. Amélie envolta em céu, noite, dia e natureza.

O tempo foi passando com calma e tranquilidade, perto de completar 40 semanas, Adrieny começou a sentir contrações cada dia mais intensas, mas ainda bem espaçadas. O final da gestação que já é marcado de ansiedade e espera, começa a virar cobrança dos amigos e familiares à medida que o tempo vai passando. Na véspera de completar 41 semanas, ela foi para uma consulta de rotina com a GO. Fez mais alguns exames e um toque que revelou o colo desfavorável para o início do trabalho de parto, apesar das contrações das semanas anteriores. Nesta mesma noite, insisti para que ela fosse até a casa de Juliana onde estávamos reunidas com outras gestantes, para que nesse clima descontraído, ela pudesse relaxar um pouco, desabafar, encontrar com outras mulheres que estavam na mesma espera e ansiedade que ela… Conversamos e fizemos o chá da Naoli novamente (ela tinha tomado  também na noite anterior), era quarta-feira de noite.

Na quinta de manhã (dia 20 de fevereiro) ela me liga dizendo que passou a noite em claro, com contrações ritmadas. Ainda estavam um pouco espaçadas, então o telefonema era para me deixar de sobreaviso. Duas horas depois ela liga, deixando transparecer na voz um certo cansaço e impaciência, pedindo que eu fosse lá. Eu estava comprando umas frutas no mercado, corri para casa, abasteci Vini com leitinho, peguei minha bolsa de doula e fui. No meio do caminho falei para ela aplicar compressas quentes, pois as dores se concentravam apenas no pé da barriga.

Quando eu cheguei (12:45 mais ou menos) Emmanuel estava com ela, firme e fiel na sua função de “maridoulo”, passando à ferro os panos da compressa. Eu me preocupava em fazê-la descansar entre as contrações, pois sabia que não havia dormido nada na noite anterior. Fiz um escalda pés para que ela relaxasse e sugeri uma posição que facilitasse esse descanso. Permanecemos assim por um tempo, apenas aplicando as compressas. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam 50 segundos, mas percebi que a fase ativa do trabalho de parto havia apenas começado. No meio da tarde ela conseguiu relaxar e até cochilar entre uma contração e outra. Tentei segurá-la em casa o máximo possível, mas ela começava a se aperrear com as dores e o cansaço. Resolvemos então que ela tomaria um banho e iríamos no consultório da GO avaliar o colo.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

Fui dirigindo e no banco de atrás Adrieny era amparada por Emmanuel, estava claro que o suporte emocional que ela precisava era apenas a presença dele. Peguei um caminho mais longo, o que certamente a deixou irritada, mas com isso eu esperava ganhar um tempinho a mais. Temia que a avaliação da GO detectasse um colo com pouca dilatação, pois isto certamente seria um balde de água fria em todos. Na metade do caminho seu comportamento demonstrava que o trabalho de parto estava sim avançado, e com isso me tranquilizei, certa que saímos de casa no momento certo, era 16h.

O colo, que no dia anterior estava alto e grosso, estava completamente apagado e dilatado em 7 cm, o que deixou a GO (que estava apostando mais alguns dias de gestação) bastante surpresa. Este é um ótimo exemplo de como os processos que regem o parto são misteriosos. Respiramos aliviados e felizes rumo ao hospital!

Esperamos um pouco na entrada, subimos para o quarto. Avisei a Juliana e a Rafaela que estávamos ali, e que se elas quisessem poderiam se juntar a nós. Por volta de 18:30h Rafa chegou. A bolsa havia estourado às 18h e liguei para a GO avisando. Continuamos revezando as posições. Ela sempre encontrava alívio nas compressas (lembrei de levar o ferro para o hospital! Rsrs) e na banqueta. Quando a GO chegou e avaliou, a dilatação estava quase completa, mas a bebê no primeiro plano ainda.

A cumplicidade e sintonia entre o casal.

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momentos de relaxamento entre as contrações

Adrieny e Emmanuel ficaram um tempo no chuveiro, luz apagada… era linda a cumplicidade entre eles. Quando saíram, chamamos a GO, pois Adrieny dizia que sentia vontade de fazer força. Avaliação: bebê no 2º plano. Sugerimos, então, que ela se agachasse e puxasse um lençol quando sentisse vontade de fazer força. A força dos seus braços era algo incrível! Estava ali já exausta, sem dormir, mas determinada, focada em trazer Amélie. Dizia que estava cansada, lhe dávamos água e chocolate para repor as energias, mas em nenhum momento reclamou da dor. Emmanuel era seu apoio, seu encosto, o carinho e a fonte onde ela renovava suas forças.

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

Juliana chegou por volta de 20:00h (eu acho! a essa altura eu já havia perdido a noção do tempo). E continuamos ali, nos revezando para encorajá-la, torcendo que Amélie descesse. A ausculta do coração da bebê era perfeita todo o tempo. Talvez seu modo de dizer que estava vindo lentamente mesmo, no seu tempo. Adrieny sentia-se confortável quando ficava de cócoras ou em quatro apoios e entre forças e puxos, o expulsivo durou 2:30h.

Quando a cabecinha de Amélie se insinuou me emocionei ao ver que Emmanuel tinha lágrimas nos olhos. Fotografei. Enfim, ela nasceria. Adrieny tocou a cabeça da filha, brincamos dizendo que os cabelos de Amélie eram longos. Ela sorriu. Em meio a todo o cansaço e exaustão Adrieny conseguia sorrir das besteiras que falávamos… A GO perguntou qual o cantor preferido de Adrieny e achou no Youtube a trilha perfeita para o nascimento: o disco Into the Wild, de Eddie Vader.

Emmanuel emocionado com iminência do nascimento. Adrieny sorria ao tocar a cabecinha da bebê.

Emoção com a iminência do parto.

Amélie, escaladora como seus pais, atravessou longamente o canal do parto, ia e vinha. Despediu-se de cada milímetro de sua mãe por dentro. Adrieny encontrou sua posição para parir, a cabeça então coroou no períneo e saiu lentamente. O pai cortou o cordão umbilical. Amélie nasceu bem às 22:30 aproximadamente, precisou ser aspirada com a pêra, recebeu os cuidados médicos e foi para os braços da mãe, onde dormiu a noite toda.

bienvenue, Amélie!

bienvenue, Amélie!

Uma cena foi especialmente marcante para mim: Adrieny, em quatro apoios, apoiava as mãos na cama e jogava o corpo para frente durante a contração. Eu estava entre ela e o armário do quarto. De frente para seu rosto. Ela estava de olhos fechados numa expressão insondável. Eu não saberia descrever sua expressão concentrada de dor, cansaço, determinação e algo mais. O algo – mistério e encantamento – que envolve uma mulher parindo. Naquele átimo de segundo lembrei da crônica de Ric Jones, e imaginei que sentir-se como vidro era algo assim. Eu estava ali em sua frente, mas não importava. Tive medo que ela abrisse os olhos e encontrasse os meus. O impacto daquele olhar me marcaria certamente. Mas não foi preciso que ela abrisse. Estar ali, no pequeno espaço entre um armário e uma mulher parindo, foi algo surreal, de grande força e sutileza. Uma cena única e inesquecível.

muito amor em uma foto só

muito amor em uma foto só

E esta foi minha estreia como doula. Emocionante e inesquecível como todas as estreias, e cheia de aprendizado. Talvez o maior de todos: entender que não basta informação, não basta empoderamento, tudo isso é necessário frente ao modelo obstétrico atual, mas (e nova referência a Ric Jones) o parto acontece mesmo entre as orelhas, nas curvas da memória, nas emoções mais recônditas, acontece apesar do medo, apesar de nós mesmo. Duas horas e meia de expulsivo me relembraram o que eu tinha vivido na própria pele, que o parto acontece apesar de nós, superando nossos limites, sublimando nossa bagagem emocional. Forçando ao extremo nossos músculos, tecidos e pele numa explosão de força, amor e renovação.

*Fotos por Heloá Aires  para Ateliê Fotográfico. Todos os direitos reservados.

**Receita para o chá da Naoli aqui.

PS.: Obrigada a Juliana por ter nos apresentado e por estar presente no parto e obrigada a Rafa por também estar presente no parto e ainda ter levado um sanduíche de queijo para mim! rsrsrs Essa rede de mulheres que se apoiam em prol de outras mulheres é coisa linda de se ver! :****

O que é a doula?

A doula é uma acompanhante de parto capacitada. Durante a gestação ela vai conversar com a gestante, indicar leituras e vídeos que possam ajudar a mulher na construção e empoderamento quanto ao próprio parto. Durante o trabalho de parto e parto a doula oferece alívio não farmacológico da dor, apoio emocional, físico, encorajamento e incentivo. No pós-parto a doula pode ajudar com dicas de amamentação e cuidados com o recém-nascido.

Que novidade é essa? Isso é moda?

Não mesmo. O papel da doula sempre existiu. Antes da medicalização do parto, no tempo das nossas avós e bisavós, os partos aconteciam em casa, eram um evento familiar. As mulheres experientes da família ajudavam a parturiente dando apoio emocional e físico e também auxiliavam as parteiras nos pormenores (ferver água, buscar panos limpos, etc). As filhas mais velhas da parturiente ou outras parentes se encarregavam de cuidar das crianças. Depois do parto, elas permaneciam na casa da mulher para ajudá-la nos afazeres domésticos e nos cuidados com o recém-nascido no período do resguardo. No início do século XX com a transferência do parto para o ambiente hospitalar, este deixou de ser um evento partilhado entre pessoas íntimas da família para ser apenas mais um procedimento médico. A comunidade de mulheres que ajudava no parto é substituída, quando muito, pela figura da enfermeira. Desde então a mulher tem sido deixada à própria sorte no momento do parto, sendo-lhe negada muitas vezes a presença do(a) companheiro(a).

a presença das mulheres na cena do parto é algo comum na história da humanidade

a presença das mulheres na cena do parto é algo comum na história da humanidade. Fonte: google images

 

O que a doula faz?

A doula oferece alívio não- farmacológico da dor, para isso, ela pode utilizar técnicas de massagens, aromaterapia, exercícios na bola suíça, dentre outras opções. A doula também funciona como suporte emocional e psicológico para a mulher, procurando construir, dentro das possibilidades, um ambiente favorável para o melhor desfecho do parto. Estudos comprovam que a presença da doula:

– reduz a duração do trabalho de parto

– reduz a necessidade de analgesia ou anestesia

– os nascimentos naturais são mais frequentes quando a mulher conta com a presença de uma doula

– a presença contínua de uma doula reduz a incidência de cesarianas

Efeitos psicológicos e a longo prazo em uma mulher que recebeu suporte de uma doula:

Por ajudar na construção de um ambiente favorável ao parto, aumentando as chances de uma experiência positiva, a presença da doula está relacionada com melhores níveis de bem estar no pós-parto, sucesso na amamentação e bom desenvolvimento no vínculo mãe-bebê nos primeiros dias. A mulher no puerpério, se encontra em um período sensível, os cuidados que ela e seu filho receberam durante o parto tem impacto imediato na sua autoestima , na relação com seu/sua companheiro(a), com seu bem estar e nos cuidados com o recém-nascido.

eu e minha doula durante o trabalho de parto em casa

eu e minha doula durante o trabalho de parto em casa (antes de ir para o hospital)

O que a doula faz o marido ou outro acompanhante não poderiam fazer?

Teoricamente sim. Mas a doula é uma profissional capacitada para aquilo. Outro ponto a se levar em consideração é que pessoas muito próximas da parturiente estarão emocionalmente muito envolvidas com a cena de parto, alguns podem ficar nervosos, tensos, ansiosos e pela confusão dos próprios sentimentos não conseguirão dar o apoio emocional que a parturiente necessita. A doula por outro lado é capaz de lidar e entender de forma profissional os sentimentos da mulher e de forma geral saberá usar de artifícios para  controlar as emoções das demais pessoas envolvidas na cena do parto. Possibilitando, assim, que o ambiente do parto seja o mais tranquilo e aconchegante possível para que a mulher se sinta segura. A presença de uma doula permite que os maridos e acompanhantes curtam o parto, se envolvam e participarem emocionalmente, deixando de lado outras preocupações.

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a doula é uma profissional capacitada para acompanhar partos. Fonte: google images

O que a doula não faz?

A doula não realiza procedimentos técnicos e médicos, como: toques vaginas e ausculta do coração do bebê. Ela também não decide o tipo de parto e nem as intervenções a serem feitas (ou não) na mãe e no bebê. Tudo isto deve estar previamente acordado entre a doula e sua cliente e registrado em um plano de parto.

Nesse link você pode ler mais sobre as funções da doula:

http://www.doulas.com.br/oque.php

http://www.despertardoparto.com.br/doula—o-que-eacute.html

 

Vale a pena contratar uma doula? Faz diferença?

Sim, sim, sim! Faz muita diferença. Não sou a favor do endeusamento da figura da doula, afinal o parto é da mulher e ela é a protagonista daquele momento. Mas, falando por experiência própria: contratar uma doula foi um passo importante na minha preparação para o parto, pois saber da sua presença me deu confiança e tranquilidade para me entregar ao processo do parto e parir. Além de todo o aspecto técnico do alívio das dores, eu sabia que ela seria meus olhos, ouvidos e boca, enquanto eu estava ali na Partolândia. Ela sabia como eu queria vivenciar o parto, ela me compreendia, estava ali para me ajudar a escalar a montanha do parto e ver a vista lá de cima. Deu segurança a mim e a meu marido, pois com o apoio dela o parto foi uma experiência incrível para nós dois.

em todas as fotos do parto eu estou com uma feição exausta e as demais pessoas com semblantes tranquilos. É muito interessante isso! Nessa minha doula tá até rindo... rsrs

em todas as fotos do parto eu estou com uma feição exausta e as demais pessoas com semblantes tranquilos. É muito interessante isso! Nessa minha doula tá até rindo… rsrs