“por que você se tornou doula?”

Esse texto-desabafo eu escrevi no começo de julho e fiquei adiando a publicação… por falta de tempo e por não ter certeza se seria entendida, mas enfim… ei-lo aí

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Sexta-feira saí para fotografar uma gestante, mas a chuva nos apanhou no momento em que fiz o primeiro clique. Resolvemos esperar um pouco e enquanto a chuva não cedia,  a gestante, sua mãe e eu conversávamos qualquer coisa para passar o tempo. No meio da conversa a mãe disparou: já que não estamos fazendo nada, me conte aí: afinal, por que você resolveu ser doula?

Hã? Oi?

Sou doula há mais de um ano e já respondi essa pergunta algumas vezes. Mas, para minha própria surpresa, titubeei e a primeira coisa que consegui responder foi:
Pois é, boa pergunta. Afinal por que resolvi ser doula? 
As palavras saíam da minha boca à medida que eu procurava alguma resposta sincera, que dissesse a verdade, o motivo fundamental e certeiro de eu ter me tornado doula.
Tão assim de supetão não encontrei outra forma de responder a não ser o “velho texto batido”:
“para ajudar outras mulheres e proporcionar a elas o que eu recebi no parto do meu filho.”
Mais uma vez as palavras saíam e eu me arrependia delas, não pude frear a autocrítica: afinal quem sou eu para pretender “ajudar” uma mulher e lhe “proporcionar” algo que ela não pudesse criar por si mesma? Como se eu pudesse ter uma chave, uma sabedoria mágica ou qualquer coisa que fosse salvadora e importante?
Sei lá, de repente tudo aquilo me soou estranho porque me dei conta que eu não ajudo mulheres (sim, eu ajudo, claro! mas essencialmente EU não faço nada além do que ela própria conseguiria fazer ou acessar). O trabalho de doula não vem de mim, do meu intelecto, não é algo que eu produzo. Não tenho expectativas de carreira profissional, não tenho planos nem metas quanto a isso. As vezes eu realmente me pergunto: como se deu essa escolha? Em que momento eu decidi?
Sinceramente, conscientemente eu não decidi nada. Nunca desejei, nem grávida, nem após o parto, conscientemente ser doula. As coisas foram acontecendo e, isto sim é verdade, decidi me levar por elas. E bom, não sei onde li a frase, mas me apego a ela: o caminho se faz caminhando. 
desenho-lindo-de-doula

 

Recentemente muitas pessoas vieram me perguntar sobre o trabalho de doula, como é, se é bom, se é bem remunerado, se vale a pena o investimento, etc. Se eu fosse responder com a razão, moldada culturalmente nessa sociedade ocidental, eu diria: é uma merda.  Afinal, fisicamente é muito cansativo, a equação tempo e disponibilidade versus remuneração não bate, além do não reconhecimento e situações de stress que enfrentamos. 

Eu nunca responderia assim tão diretamente “é uma merda” porque sei (pois vivencio) que ser doula contempla uma satisfação em si que não pode ser mensurada pelo que se espera de um trabalho/carreira de sucesso.
No entanto, urge em mim a necessidade de dizer: ser doula não é nadar num mar de rosas cheios de bebês fofinhos e mulheres iluminadas e relatos de partos emocionantes. Não é.
Para além de tudo ser doula é se confrontar diariamente. É resgatar um feminino esquecido, machucado. É mergulhar em suas próprias águas para conseguir entender as águas turbulentas de uma mulher parindo. E mergulhar em si. E rever nossos naufrágios e tesouros submarinos não é fácil. É lidar com muitas expectativas e consequentemente decepções, é trabalhar minuto a minuto o ego, a vaidade, a humildade.
E então, por que eu me tornei doula, afinal? – continuava martelando…

doula avançado

 

Essas reflexões me levaram a concluir que eu “resolvi” ser doula porque eu tenho um chamado. Não é algo que se escolhe racionalmente. Esse chamado que me leva a estar em círculo com as mulheres, compartilhando com elas desse momento sagrado do parto e do ser-mãe. Me reconectando a tudo que vivi e acessei na sacralidade do parto de Vinícius, resgatando minha ancestralidade, minhas origens. Minhas e de todas as mulheres que vieram antes de mim. Ah, isto sim é claro como água… E aí eu tenho certeza que elas é que me ajudam iluminando o caminho pelo qual percorro para encontrar quem eu sou, quem eu fui e o que eu vim fazer aqui. Em cada parto, em cada grito de dor, nos olhares em transe que elas devolvem, nos corpos se contorcendo eu me reconheço enquanto fêmea, mulher-selvagem, e acessar essa memória produz o maior sentimento de pertencimento que eu jamais senti: nesse momento miraculoso eu reencontro minha manada, minhas irmãs. Quem proporciona o que a quem afinal?

Eu resolvi ser doula porque eu estive lá uma vez e não consegui mais sair. 

E aí se eu fosse responder com base na minha emoção, levando em conta tudo o que eu vivencio sendo doula, eu diria: ser doula é uma reinvenção da própria vida. 
E para terminar este texto  volto à conversa que lhe deu início e que por sua vez terminou com um lindo relato: a mulher que me fez a pergunta, no momento seguinte começou a me contar um pouco de sua história. Era neta de parteira, vivia no interior de Minas Gerais, nasceu em casa, assim como todos os seus irmãos, pelas mãos da avó. Relatou como era quando a mãe entrava em trabalho de parto, sendo acompanhada apenas por sua própria mãe e pelo marido, que renovava a água quente da bacia. O bebê nascia e os irmãos sabiam pelo choro que se ouvia ecoando pela casa. A mãe cumpria rigorosamente o resguardo de 40 dias dentro do quarto e ao sair apresentava o bebê à natureza do sítio onde moravam.
Minha amiga gestante, perguntou: apresentava o bebê à natureza ou a natureza ao bebê? 
– O bebê à natureza,
– Como uma oferenda?
– É, como uma oferenda. Levava o bebê no colo e abria os braços assim, mostrando o tudo em sua volta. 
À medida que ela falava a imagem se formava na minha cabeça. Me emocionei. Que coisa mais linda, apresentar o bebê à natureza, harmonizando essas duas forças que são parte de um todo…
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