parto de maio

o grito dela emocionava.

o trabalho de parto vinha rápido, a galope, atropelando.
as vezes cedia o passo, mas continuava firme, intenso.
e aí, de repente começou a afirmar:
eu preciso.
eu preciso de algo.
de quê eu preciso?
…..
não sei. eu não sei de nada.
não sei a resposta, meu filho.
…..
as frases pareciam aleatórias… desavisados poderiam pensar que era delírio.
mas eu não,
eu sabia que elas vinham de um lugar muito profundo.
o significado estava além do que poderíamos entender em palavras.
era apenas sentir. e veio.
o sentimento bateu no peito e refletiu os olhos marejados.
era a beleza em si.
crua. nua.
era a condição humana revelando-se em fragilidade e força.
era o encontro inevitável de si mesmo, sem fugas, sem máscaras.
era apenas a verdade.

pequena história de parto: a saudade

No corredor havia alguns janelões por onde entrava uma luz clara e suave. Aquela luz mansa que atrai os passarinhos pela manhã. Caminhávamos para lá e pra cá e numa das voltas, passando pela janela, ela se apressou para a  curva do corredor, num cantinho onde elegemos ter mais privacidade para os agachamentos durante as contrações. Ali soltou um “está me dando vontade de chorar” já desabando no choro.

“Sempre que ouço o canto do bem-te-vi lembro do meu pai que amava passarinhos. Lembro especialmente de uma cena quando ele atravessou o portão e um bem-te-vi começou a cantar. Por isso sempre lembro dele quando ouço esse canto. E é como se ele estivesse comigo nessa hora.”

Me contou que seu pai falecera há dois anos depois de uma intensa luta contra o câncer. Disse várias vezes que ele morreu em casa, ao lado dos seus e ela estava lá quando ele partiu.

Todo aquele relato encheu meu coração. E sentindo a sinceridade daqueles sentimentos, toda aquela saudade… também comecei a chorar.

Prosseguimos no caminhar de um trabalho de parto sofrido e que se arrastava. Tantos bloqueios, tanta preocupação lhe vinha à tona, o ambiente não ajudava, a cabeça não conseguia relaxar. Volta e meia falava do pai.

Em certo momento lembrei de algo que li e lhe disse: “Querida, a dor do parto é a dor da vida”. 

Me lançou um olhar tentando achar aquilo bonito, como se  “vida” nesta frase se referisse àquele ser que iria chegar.

“Não. É a dor da nossa vida, nossa bagagem emocional.”

Soltou o choro.

“É que estou sentindo muita falta do meu pai hoje, sabe? Estou lembrando tanto dele. Ele sofreu muito… Queria tanto que ele estivesse aqui comigo.”

“Sim, eu sei.” – disse eu, mais uma vez chorando ao compartilhar daquela tristeza.

O parto aconteceria em uma maternidade pública onde os maridos só podem entrar na sala de parto no momento do expulsivo. Ainda assim pedi para chamá-lo para que se vissem naquele corredor mesmo, por um instante que fosse. Ela precisava da presença dele mais do que nunca.

Ele chegou, se abraçaram e foram caminhar juntos. Ele a fazia rir, lhe dava força, lhe passava segurança. Outras questões foram sendo desatadas… Tudo parecia ir bem, eu confiava que aquilo fizesse o trabalho de parto evoluir. Então uma enfermeira chegou e pediu que o marido saísse dali e que ela entrasse para o quarto onde as outras mulheres estavam.

Foi o momento de crise.

E no meio daquele caos, ela finalmente conseguiu desabafar e dizer que não queria ficar naquele lugar, que se irritava com a ligação da família querendo saber em que ponto estava aquele parto ou aconselhando a fazer uma cesárea afinal; que não aguentava mais ver e ouvir outras mulheres recebendo seus bebês enquanto ela estava ali, travada naquela luta.

O caos. Aquele momento único, o lampejo de desordem onde tudo pode voltar para o lugar.

E voltou.

E então saímos dali finalmente, procuramos a tranquilidade de outra estrutura, o alívio de outra forma. E então ela pode receber sua filha, encontrando uma força que jamais pensou que teria. A pequena chegou no raiar do dia.

Naquela hora da luz suave quando cantam os passarinhos.