parto de maio

o grito dela emocionava.

o trabalho de parto vinha rápido, a galope, atropelando.
as vezes cedia o passo, mas continuava firme, intenso.
e aí, de repente começou a afirmar:
eu preciso.
eu preciso de algo.
de quê eu preciso?
…..
não sei. eu não sei de nada.
não sei a resposta, meu filho.
…..
as frases pareciam aleatórias… desavisados poderiam pensar que era delírio.
mas eu não,
eu sabia que elas vinham de um lugar muito profundo.
o significado estava além do que poderíamos entender em palavras.
era apenas sentir. e veio.
o sentimento bateu no peito e refletiu os olhos marejados.
era a beleza em si.
crua. nua.
era a condição humana revelando-se em fragilidade e força.
era o encontro inevitável de si mesmo, sem fugas, sem máscaras.
era apenas a verdade.

pequena história de parto: a saudade

No corredor havia alguns janelões por onde entrava uma luz clara e suave. Aquela luz mansa que atrai os passarinhos pela manhã. Caminhávamos para lá e pra cá e numa das voltas, passando pela janela, ela se apressou para a  curva do corredor, num cantinho onde elegemos ter mais privacidade para os agachamentos durante as contrações. Ali soltou um “está me dando vontade de chorar” já desabando no choro.

“Sempre que ouço o canto do bem-te-vi lembro do meu pai que amava passarinhos. Lembro especialmente de uma cena quando ele atravessou o portão e um bem-te-vi começou a cantar. Por isso sempre lembro dele quando ouço esse canto. E é como se ele estivesse comigo nessa hora.”

Me contou que seu pai falecera há dois anos depois de uma intensa luta contra o câncer. Disse várias vezes que ele morreu em casa, ao lado dos seus e ela estava lá quando ele partiu.

Todo aquele relato encheu meu coração. E sentindo a sinceridade daqueles sentimentos, toda aquela saudade… também comecei a chorar.

Prosseguimos no caminhar de um trabalho de parto sofrido e que se arrastava. Tantos bloqueios, tanta preocupação lhe vinha à tona, o ambiente não ajudava, a cabeça não conseguia relaxar. Volta e meia falava do pai.

Em certo momento lembrei de algo que li e lhe disse: “Querida, a dor do parto é a dor da vida”. 

Me lançou um olhar tentando achar aquilo bonito, como se  “vida” nesta frase se referisse àquele ser que iria chegar.

“Não. É a dor da nossa vida, nossa bagagem emocional.”

Soltou o choro.

“É que estou sentindo muita falta do meu pai hoje, sabe? Estou lembrando tanto dele. Ele sofreu muito… Queria tanto que ele estivesse aqui comigo.”

“Sim, eu sei.” – disse eu, mais uma vez chorando ao compartilhar daquela tristeza.

O parto aconteceria em uma maternidade pública onde os maridos só podem entrar na sala de parto no momento do expulsivo. Ainda assim pedi para chamá-lo para que se vissem naquele corredor mesmo, por um instante que fosse. Ela precisava da presença dele mais do que nunca.

Ele chegou, se abraçaram e foram caminhar juntos. Ele a fazia rir, lhe dava força, lhe passava segurança. Outras questões foram sendo desatadas… Tudo parecia ir bem, eu confiava que aquilo fizesse o trabalho de parto evoluir. Então uma enfermeira chegou e pediu que o marido saísse dali e que ela entrasse para o quarto onde as outras mulheres estavam.

Foi o momento de crise.

E no meio daquele caos, ela finalmente conseguiu desabafar e dizer que não queria ficar naquele lugar, que se irritava com a ligação da família querendo saber em que ponto estava aquele parto ou aconselhando a fazer uma cesárea afinal; que não aguentava mais ver e ouvir outras mulheres recebendo seus bebês enquanto ela estava ali, travada naquela luta.

O caos. Aquele momento único, o lampejo de desordem onde tudo pode voltar para o lugar.

E voltou.

E então saímos dali finalmente, procuramos a tranquilidade de outra estrutura, o alívio de outra forma. E então ela pode receber sua filha, encontrando uma força que jamais pensou que teria. A pequena chegou no raiar do dia.

Naquela hora da luz suave quando cantam os passarinhos.

 

 

Relato de parto de Clarisse, nascimento de Camila

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender 

(Sol de primavera – Beto Guedes)

 

Bom, esse relato de parto é especial. Primeiramente porque a própria Clarisse me pediu que eu o escrevesse para ajudá-la a lembrar daquele dia e segundo porque esse parto é especial por si só como vocês poderão ver…

Na manhã do dia 31 de agosto recebo o telefonema de uma mulher ofegante perguntando sobre meu trabalho e se eu estaria disponível para aquele dia mesmo. Eu estava preparando o material para um ensaio que eu ia fotografar naquela tarde, então tendo isso em mente perguntei: é para fotografar? E ela disse: não, para me acompanhar como doula.

Oi?

Parei um segundo e pensei: gente, como assim ela tá procurando uma doula em pleno trabalho de parto? Por que não procurou antes?

E então ela me contou a história. Sua bebê estava em posição pélvica* dias antes de entrar em trabalho de parto e por esse motivo ela não se animou de ir atrás de nada sobre o parto… disse que estava sentindo umas cólicas e que ao ser atendida pelo plantonista ele reforçou que ela tentasse ter o bebê de parto normal mesmo e que procurasse uma doula para ajudá-la.

E então ela estava ali, inciando o trabalho de parto, me perguntando se eu poderia acompanhá-la.

Nós, doulas, preferimos conhecer a gestante ao longo da gestação para criarmos um vínculo, entendermos a dinâmica da família, conhecermos os planos e expectativas para o parto. Mas enquanto estava ali falando com Clarisse senti que deveria atender seu chamado, que deveria estar com ela. Combinamos de nos falarmos ao longo do dia e eu passaria para visitá-la no final da tarde.

 

primavera

Fonte: the mandala journey

 

Depois do ensaio fomos fazer um lanche e quando voltei a falar com Clarisse ela tinha resolvido ir ao hospital avaliar o andamento do trabalho de parto. Cheguei lá por volta de 19:30h.  A dinâmica das contrações estava boa, 3 cm de dilatação e colo quase apagado. Nos conhecemos, fomos conversando e em nenhuma momento senti estranheza ou desconforto. Ficava feliz quando ela dizia que as massagens estavam ajudando a suportar a dor. Ela tinha chegado com os ombros muito tensos e com as massagens percebi seu corpo relaxando… Clarisse tem o jeito de mulher forte, prática, determinada. Seu trabalho de parto tinha bem essa característica: como se ela mirasse em um objetivo, estava disposta a atingi-lo. Ficou na bola muito tempo. As massagens na lombar e nos ombros a ajudavam a relaxar…

Martin, seu marido, estava sempre ali solícito em atendê-la quando ela pedia, mas nos deixava bem a vontade para fazermos o nosso trabalho, eu massageando e ela trazendo Camila ao mundo.

Por volta de 23h ela quis descansar um pouco e deitou-se de lado. Nos intervalos das contrações chegou a cochilar, quando a contração vinha tudo o que ela me pedia era a massagem.  O médico veio avaliá-la de meia-noite e pediu para o chamarmos novamente às 2h. As contrações estavam bem fortes a essa altura, não sei nem como ela conseguia suportá-las deitada. Mas estava funcionando tão bem que cochilamos os três (nos intervalos das contrações) até umas 02:10 da manhã quando depois de uma contração ela levantou-se para ir ao banheiro. Bastou sentar no sanitário para ouvirmos o  “chuááá…” da bolsa que acabara de estourar.

A próxima contração veio com uma leve vontade de fazer força, esperei mais uma para ter certeza. Ela colocava a mão como se estivesse segurando a cabeça da bebê e eu perguntava se ela sentia algo ali embaixo. Ela dizia que não, mas a mão continuava lá. Vi medo nos seus olhos, tentei dizer que não tivesse medo, que era Camila chegando, que estava tudo bem. Não sei se ela ouviu, seu olhar variava entre amedrontado e animalesco, orbitando em outro planeta. Pedi a Martin para chamar o médico, a enfermeira veio olhar como quem não tava entendendo que a bebê ia nascer dali a pouco. Depois da terceira contração Clarisse levantou, se posicionou na cama, o médico chegou e confirmou que a bebê já estava nascendo mesmo. Em mais três contrações Camila veio ao mundo, num expulsivo rápido e forte que me lembrou o nascimento do meu Vini. Eu vi no momento que Clarisse jogou o olhar para cima, surpreendida pela dor, pela força e ainda assim tão entregue e determinada àquilo. Eu vi naquela cena um olhar incrédulo e lampejante mirando para o alto e quase pude ler seus pensamentos naquele instante (se é que se consegue pensar em algo numa hora dessas). Imagino que ela ali ela encontrou a maior força que ela jamais imaginou que pudesse ter, que por um momento ela duvidou que a bebê ia sair e que por fim ela ela se maravilhou sem acreditar que então Camila estava do lado de fora, tendo passado por dentro dela… foi colocada diretamente em seus braços, quentinha e chorando a plenos pulmões.

Rosada, sem sangue nem vérnix (e isso parece tanto com a chegada de Vini!) recebida com as palavras da mãe, assim nasceu Camila na madrugada do primeiro dia de setembro, aniversário do seu avô materno. Lembro especialmente de Clarisse dizer:

“Você é a irmã do Nick”…

meus olhos ficaram marejados… o primeiro filho certamente a uma grande motivação para que o segundo parto fosse natural. O pai emocionado registrava algumas fotos…

Foi simplesmente lindo, exato, intenso. Indescritivelmente a experiência mexeu comigo, me confirmou o destino, me encheu de ocitocina e gratidão ao universo por me colocar no lugar certo, nas horas certas. :)

Clarisse, Martin, Camila e Nick (que ainda não conheço): obrigada pelo aprendizado! Por se abrirem a mim, por se permitirem viver esse parto e por terem me ligado tão em cima da hora para estar junto!

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*bebês em posição pélvica NÃO é indicação de cesariana. Mas a mãe em questão, além de não encontrar na cidade um profissional que topasse assistir um parto pélvico, tinha seus próprios receios.

Relato de Parto de Jucilene e Adriano, nascimento de Samuel

Conheci a Jucilene pela internet. Na época ela morava em Fortaleza e em um grupo de apoio ao parto no Facebook pediu orientações para parto natural em João Pessoa. Começamos a conversar e ela me contou toda a história da primeira gestação. Havia muitos traumas a serem superados: a cesariana sem indicação, a recuperação difícil, a alergia que o primeiro filho desenvolveu, e depois o terrorismo que sofreu por ter engravidado pouco tempo depois da cesárea. Ela conta que logo após o nascimento de João Gabriel realmente já queria engravidar de novo, mas dessa vez para parir, e trazer ao mundo com suas forças, o próximo filho.

E assim foi…

Nos falávamos muito pela internet e nos conhecemos pessoalmente no início de março. No final de abril ela finalmente se mudou para João Pessoa. Jucilene é uma mulher devotada à família, me encantou sua simplicidade que se confunde com algo parecido com a ingenuidade das pessoas bondosas de coração… outro traço marcante de sua personalidade é que ela é ligada no 220v, dá conta de várias coisas ao mesmo tempo ou como diria meu avô: é uma mulher avexada! Mas pudera: mãe dedicada está atenta aos mínimos detalhes da alimentação do João Gabriel que tem alergia à proteína do leite de vaca, tudo tem que ser preparado impecavelmente de modo a eliminar os traços da proteína, teve que de lidar com uma mudança de cidade no final da gestação, com as incertezas do trabalho do marido e de seu próprio, comprar mobília para o apartamento novo… e em meio a tudo isso ainda encontrar um obstetra que topasse um parto natural depois de uma cesárea com intervalo menor que dois anos. Do nosso primeiro encontro ficou a impressão de que era uma mulher com muitas questões  a superar. Eu tinha medo de que sua bagagem emocional a assustasse durante o processo do trabalho de parto, mas confiava e acreditava muito na sua determinação e vontade de parir.

à espera de Samuelzinho

à espera de Samuel

O Samuel começou a dar sinal de queria nascer assim que saiu a nomeação do pai. A nomeação deveria ter saído semanas antes e essa pendência era motivo de aflição na família… bastou se resolver para o parto se desenhar.

Na madrugada do dia 16 ela me fala muito emocionada que estava com contrações ainda irregulares, mas cada vez mais fortes… fomos nos falando ao longo do dia e já eram quase 23h quando cheguei na sua casa. Ela me deu um longo abraço e muito emocionada me dizia o quanto tinha esperado por aquele dia para sentir aquelas dores… ficamos só eu e ela no quarto. O marido tentava dormir na sala e o João Gabriel dormia no seu quartinho.

Foi maravilhoso ver a transformação daquela mulher ansiosa em mulher ativa e determinada. Tudo o que fosse bom para o andamento do parto ela topava. Claro que a ansiedade nos rodeava, mas ela ia contornando, lidando com as contrações a cada vez, procurando uma posição mais confortável sempre. Assim que a contração passava ela voltava a falar sobre seus traumas no parto anterior, sobre como estava feliz naquele dia, procurava resolver alguma pendência (quem ficaria com o João Gabriel quando fôssemos para a maternidade?),  mas era só sorrisos e felicidade. Durante as contrações ela foi aprendendo a se concentrar, a ouvir seu corpo… se remexia procurando alívio e inventava posições para ficar mais confortável. Naquela madrugada meu coração se encheu de uma alegria imensa. Alegria por estar ali com ela, acompanhando aquele parto que era tão desejado. Nunca me senti tão útil e tão feliz em servir alguém… uma alegria que vinha da gratidão pela confiança que ela depositou em mim para estar ali naquele momento. Eu via o passado sendo superado naquelas horas: cada contração era a prova de si mesma, era a certeza que ela conseguiria, que seu corpo podia parir, que seu útero não romperia.

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

alívio no chuveiro quente

alívio no chuveiro quente

Ligamos para a médica por volta das 4 horas da manhã e chegamos ao hospital por volta das 5. Chegando lá a médica fez o toque e constatou 8cm de dilatação, bebê um pouco alto ainda. Descemos para o bloco cirúrgico, onde ia acontecer o parto. Para o bebê descer propus o “andar de pato”e ela prontamente se agachou e começou a caminhar de cócoras pelo corredor do bloco. Antes daquela cena eu pensava que nenhuma mulher ia se prontificar a fazer isso no auge da dilatação quando a dor é de ver estrelas. Mas naqueles minutos eu vi a diferença que faz a determinação e a vontade de parir em mulher! Houve um momento durante esse exercício em que ela agarrou meus braços e olhou bem nos meus olhos com um sorriso feliz no rosto. Nos encaramos por uns segundos…  o olhar embriagado de dor, emoção e ocitocina me dizia apenas: eu vou conseguir.

Sentou-se um pouco na banqueta, a neonatologista chegou e ela em lágrimas pediu para ficar com o filho assim que ele nascesse e que não fosse ofertado leite artificial (diferente do que aconteceu com o primeiro). A incredulidade do que estava prestes a acontecer a deixava muito emocionada.

minutos antes de o Samuel nascer

minutos antes de o Samuel nascer

As contrações ficaram um pouco mais espaçadas e a médica resolveu conduzir o expulsivo, pois não podia usar ocitocina em virtude da cesárea prévia. Às 5:55  Samuel nasceu curando sua mãe por dentro e enchendo de orgulho o pai e esta doula que aqui escreve.  Alguém mencionou que ele teria nascido às 6 na hora da Virgem Maria e foi linda a consagração que a mãe proferiu naquele momento.

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

emoção

“Realizei um sonho”, ela me disse logo após o parto.

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

Ju, minha querida… que deusa era você naquelas horas? Tão determinada e dona de si. Superando cada contração como um degrau a ser escalado… contra tudo o que você ouviu na gestação de João Gabriel, contra todo o terrorismo que te fizeram na gestação do Samuel você pariu, seu útero não rompeu como te disseram que aconteceria. Você com a sua história quebrou mitos e provou para si e para todos do que o corpo de uma mulher é capaz. Agora és além de uma mulher ligada no 220v (rsrsrs) uma inspiração para vida e o sonho de tantas outras mulheres. Gratidão!!!

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

reconhecendo a mamãe

reconhecendo a mamãe

a família está completa agora!

a família está completa agora!

 

 

Relato da doula: parto de Danielly e Matheus, nascimento de Raul

Conheci Dani através de um grupo de apoio ao parto normal no Facebook. Ela procurava indicações de médicos que atendessem ao parto em Campina Grande e logo começamos a conversar e procurar as opções (bem escassas! rsrs)

Ela é pernambucana e mora em Santa Cruz, e como em sua cidade não há uma boa estrutura hospitalar, o plano era ter o bebê em Campina Grande, ficando então, hospedada na casa dos sogros.

Dani foi a primeira pessoa que me contratou como doula e por isso lhe tenho um grande carinho e gratidão.
A afinidade entre nós foi acontecendo facilmente… Nos conhecemos pessoalmente em novembro de 2013 no primeiro encontro da Gestar e Maternar em Campina Grande e prosseguimos com nossa conversa online. Enquanto isso, Dani seguia buscando um obstetra que atendesse seu desejo de um parto natural, sem intervenções.
Em janeiro de 2014 nos encontramos em João Pessoa para fazermos as fotos de Raul. Foi uma tarde muito agradável. Eu e Flávio saímos da sessão com aquela impressão de que neles víamos a nós mesmo meses atrás: um casal jovem, primeiro filho, em busca de um parto, com sede de informação.
Essa afinidade com os casais que tenho acompanhado é algo que me dá certeza desse destino de ser doula. Agradeço a Deus por todas essas belas amizades que tem surgido em minha vida!
Dani e Matheus à espera de Raul.

Dani e Matheus à espera de Raul.

Enfim Dani encontrou uma obstetra que topou seu parto e lhe transmitiu a segurança necessária. Respiramos aliviadas! Agora era só esperar a hora de Raul nascer.
Na quarta-feira, dia 12 de março, Dani me liga pela manhã dizendo que estava sentindo contrações dolorosas  a ponto de nem conseguir descansar, mas ainda sem ritmo. Conversamos sobre a iminência do parto e frisei que ela procurasse descansar e que me ligasse se sentisse qualquer mudança nessa dinâmica, enquanto isso eu arrumaria minha bagagem para viajar. Assim que desliguei, liguei para Maria Rosa, que estaria conosco como doula também. Avisei da iminência do parto.
Ao longo do dia nenhuma mudança. No fim da tarde Dani resolveu fazer uma avaliação com a obstetra e no toque o colo estava alto e grosso. Resolvi ficar por João Pessoa, pois estava esperando outro parto que poderia acontecer a qualquer momento também. Na madrugada Matheus me liga dizendo que ela estava vomitando muito, sem conseguir dormir e as contrações estavam mais regulares. Pedi a ele que procurasse fazê-la descansar para o trabalho de parto que, sim, estava começando.
Ao raiar o dia, organizei minhas coisas, super animada com mais esse parto. A semana já estava bem ocitocinada para mim que havia fotografado um parto na terça! Tinha combinado com uma diarista nova uma faxina praquele dia, esperei ela chegar e peguei a estrada.
Na saída Matheus me liga e fala que as contrações estavam mais ou menos de 5 em 5 minutos, era 09:30 mais ou menos. Liguei para Maria Rosa e pedi que ela fosse ao encontro deles. Nisso, Juliana me liga dizendo que o outro parto que eu acompanharia como doula estava dando sinais claros de início. Haja emoção!!!
Como Dani estava com uma dinâmica mais avançada, segui viagem confiando que daria tempo de atender aos dois partos. (E sim, deu! Uhuu!)
A decoração do quartinho de Raul foi feita pela mamãe habilidosa.

A decoração do quartinho de Raul foi feita pela mamãe habilidosa.

Cheguei na casa às 11:30 mais ou menos. Ela estava cansada das noites mal dormidas, não conseguia comer e o que comia vomitava. Me preocupei com seu estado físico. Tentamos fazê-la descansar, mas as dores eram muito fortes.
Maria Rosa veio me dizer que as contrações não tinham um padrão de tempo e duração e que Dani se preocupava com isso. Lembro que assim que entrei no quarto Dani me olhou e disse: “mulher, tu acha que isso é trabalho de parto mesmo?” Achei graça. “É sim, Dani!” Conversamos e resolvemos não cronometrar as contrações então para que ela se entregasse ao processo.
A mão da mãe ansiava diminuir as dores da filha.

A mão da mãe ansiava diminuir as dores da filha.

E assim seguimos. Nos preocupávamos em encontrar uma posição que lhe trouxesse alívio, mas sozinha em pé ou em quatro apoios é que Dani se sentia melhor. Percebíamos que ela ainda se preocupava com coisas externas e alheias ao trabalho de parto, na dor as vezes desesperava. Ficamos a sós com ela, conversamos… mas só quando Matheus deu a boa notícia de que conseguira uma folga no trabalho para ficar até  segunda-feira em Campina, é que ela relaxou e finalmente o trabalho de parto engrenou. E engrenou mesmo! As dores vinham fortes, ela se desinibiu para vocalizar. Fomos para o chuveiro, a água quente nas costas agora lhe trazia alívio. Tentamos fazê-la comer o que quer que fosse. Dani havia me falado que queria ir para o hospital com a dilatação bastante avançada, pois queria passar o menor tempo possível lá, então combinamos de irmos para o consultório da médica avaliar o colo às 16h. Eu queria tardar ao máximo esse momento, mas desde 14:00 ela me perguntava se já não estava na hora. Dizia que queria ir para o hospital e eu lhe dizia: você quer que Raul nasça. Calma, não confunda!
Oferecemos açaí na esperança de repor as energias de Dani.

Oferecemos açaí na esperança de repor as energias de Dani.

Passamos um tempo no chuveiro, todos entregues ao trabalho de parto.

Passamos um tempo no chuveiro, todos entregues ao trabalho de parto.

Eram quase 15h quando ela disse: estou sentindo vontade de fazer força! Me assustei. Olhei para Maria Rosa e ela sugeriu a Dani que mudasse um pouco a posição. A vontade passou. Resolvi cronometrar as contrações então, pois a médica me perguntaria a dinâmica. E ficamos mais meia hora cronometrando. As contrações vinham a cada 2 minutos. E depois a cada 3. E depois a cada 6.
O estado físico e emocional de Dani me falava que o trabalho de parto estava avançado, não podia me orientar apenas pelas contrações. Quando começou a sair pedaços maiores do tampão, ela ficou impaciente novamente e pediu para irmos pro hospital.
Saímos do chuveiro, ela se vestiu, sogra e mãe organizaram o que tinha para levar. A chuva começou a cair. Saímos no meu carro, eu, ela Matheus e Maria Rosa. A família ia depois em outro carro. Era 16h e seguíamos para o consultório da médica.
Entre toalhas e vestidos as contrações continuavam.

Entre toalhas e vestidos as contrações continuavam.

O apoio constante de Matheus trazia tranquilidade à Dani.

O apoio constante de Matheus trazia tranquilidade à Dani.

A chuva que caia para embalar a chegada de Raul.

A chuva que caia para embalar a chegada de Raul.

No banco de trás o casal trocava beijos e carícias, eu e Marrosa comentávamos felizes aquela cena até que na sequencia Dani dá um grito desesperador. Estar sentada lhe trazia grande desconforto, mas era algo mais.
e tudo ali era só amor.

e tudo ali era só amor.

No meu pensamento apenas o pedido de que a dilatação estivesse no final, pois pelo cansaço ela ficaria muito desapontada se ainda houvesse um caminho a percorrer.
Chegando ao consultório, a médica, que estava atendendo uma paciente, ao ouvir um grito de Dani durante uma contração pediu licença para examiná-la e nos veio com a boa notícia: dilatação completa!
Festejamos no consultório e saímos a pé para o hospital que fica na calçada em frente ao consultório.
Chegando ao hospital foi aquele alvoroço de enfermeiras que não sabiam o que fazer.
Dani subiu para o bloco cirúrgico, a médica já havia ligado para o hospital pedindo para prepará-la para o parto.
A enfermeira do bloco permitia apenas a entrada de um acompanhante, Matheus foi se trocar e enquanto isso eu argumentava com ela e com a secretária que era preciso que eu entrasse. Quando a médica chegou pedi que ela autorizasse minha entrada e foi então que a enfermeira cedeu, ainda pedi que Maria Rosa entrasse também,  mas ela foi irredutível.
Me troquei às pressas e quando chegamos na sala Dani estava deitada de costas  e as enfermeiras fazendo o acesso na veia.
Tal como um super herói que detém o vilão no momento exato, a obstetra ao se deparar com a cena disparou: “Não! Parem com isso! Isso é só um parto!”
“Isso é só um parto”. Que frase mais certeira!
Desapontadas as enfermeiras saíram da sala. Me senti orgulhosa de estar ali vencendo uma árdua batalha contra o sistema. Enfim acabou-se o pandemônio hospitalar e agora um parto estava acontecendo com toda a sua tranquilidade merecida.
Em um canto da sala a obstetra posicionou a banqueta de parto, Matheus serviu de apoio para as costas de Dani. A médica sentou-se no chão em frente ao casal, colocou Norah Jones como trilha sonora, apagou as luzes, deixou a sala na penumbra e ficou ali aguardando Raul nascer. Eu fotografava.
Em instantes vieram os puxos, Dani usava toda a sua força, o cabelinho de Raul começou a aparecer. Pedimos a Dani para tocar, mostramos a chegada de Raul com um espelhinho para o pai que ficou extasiado.
Mais alguns puxos e às 16:30 Raul nasceu. Foi para o colo de sua mãe, ficamos todos maravilhados e emocionados com a simplicidade e magnitude do que acabara de acontecer: era apenas um parto, mas parou o tempo por alguns minutos.
Bem vindo, Raul!

Bem vindo, Raul!

Eles haviam conseguido. Os dias de incerteza, a equipe médica que não se achava, a espera longe de casa, a angústia, um trabalho de parto intenso, o cansaço, o sistema hospitalar amarrado a protocolos e regras, o destino que estava fadado a não realizar os desejos do coração. Nada disso importava mais, eles haviam conseguido contra todas as previsões. Raul, Dani e Matheus fizeram acontecer naquela maternidade algo raro: a naturalidade de um parto.
 A obstetra esperou uns 20 minutos até o cordão parar de pulsar para então Matheus cortá-lo.
O pai cortou o cordão umbilical.

O pai cortou o cordão umbilical.

Enquanto a mãe recebia alguns pontinhos, Raul seguiu para o berçário com o pai e logo todos se encontraram no quarto com os avós que esperavam ansiosos. Ainda caía uma chuvinha fina enquanto eu e Marrosa voltávamos para casa, ocitocinadas e em êxtase.
As avós corujas!

As avós corujas,

A mãe realizada.

a mãe realizada,

O pai babão!

o pai babão,

e o bebê mais lindo do pedaço!

e o bebê mais lindo do pedaço!

Dani e Matheus: pessoas queridas, de corações lindos e sinceros, lhes desejo toda a felicidade, resgate e iluminação que a vinda de um filho possa representar. Vocês batalharam tanto por esse momento, acreditaram, pesistiram. Conseguiram.
Agradeço pela confiança, pelo apoio e amizade.  Que Raul cresça forte e saudável nesse ninho de amor!
Marrosa: Obrigada por estar conosco nesse momento. Você é maravilhosa em dedicação e gentileza!
Dona Sávia e Dona Fátima: grata pela confiança! E principalmente pela compreensão, apesar da ansiedade que tomaram conta daquelas horas.
Fotos por: Heloá Aires.
Vedada reprodução sem autorização. Todos os direitos reservados.

Relato da Doula: Parto de Adrieny e Emmanuel, nascimento de Amélie

[Antes de iniciar este relato quero agradecer à Adrieny e Emmanuel pela confiança. Por me escolherem para estar presente no dia mais importante de suas vidas. Pela amizade, carinho e por tudo o que pude vivenciar neste parto maravilhoso.]

Conheci Adrieny por intermédio de Juliana quando ela estava com 6 meses de gestação. Marcamos um encontro na casa de Ju, nos conhecemos pessoalmente e partir dali fomos conversando sobre meus serviços como doula.

Eu já tinha fechado contrato com outras pessoas, mas pelas datas prováveis dos partos (DPP) o de Adrieny seria a minha primeira doulagem. Antes, eu acompanharia o parto de May, mas como fotógrafa.

Eu e ela temos um jeito parecido. Um pouco reservadas no início, fomos nos conhecendo aos pouquinhos… A gestação de Amélie foi tranquila, sem intercorrências. Adrieny é o tipo de mulher decidida, que sabe o que quer e corre atrás: leu livros sobre parto e maternagem, se informou, frequentou as rodas de gestantes, trocou de médica várias vezes até encontrar uma que lhe passasse a segurança necessária para o parto tão desejado.

No caminho que ela trilhava para realizar esse desejo eu via a mim mesma, há mais de 1 ano atrás, quando  iniciei meu caminho de descoberta e resgate que culminou no parto de Vinícius.

Quando ela completou 37 semanas, nos reunimos em sua casa para tirar dúvidas quanto ao trabalho de parto, passei algumas orientações. Pintamos sua barriga (eu desenhei e o marido pintou) e foi uma tarde realmente muito agradável. Lembro com muito carinho desse momento, pois neste dia pude descobrir outras afinidades com o casal. Novas e lindas amizades floresceram em minha vida.

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Pintura de barriga. Amélie envolta em céu, noite, dia e natureza.

O tempo foi passando com calma e tranquilidade, perto de completar 40 semanas, Adrieny começou a sentir contrações cada dia mais intensas, mas ainda bem espaçadas. O final da gestação que já é marcado de ansiedade e espera, começa a virar cobrança dos amigos e familiares à medida que o tempo vai passando. Na véspera de completar 41 semanas, ela foi para uma consulta de rotina com a GO. Fez mais alguns exames e um toque que revelou o colo desfavorável para o início do trabalho de parto, apesar das contrações das semanas anteriores. Nesta mesma noite, insisti para que ela fosse até a casa de Juliana onde estávamos reunidas com outras gestantes, para que nesse clima descontraído, ela pudesse relaxar um pouco, desabafar, encontrar com outras mulheres que estavam na mesma espera e ansiedade que ela… Conversamos e fizemos o chá da Naoli novamente (ela tinha tomado  também na noite anterior), era quarta-feira de noite.

Na quinta de manhã (dia 20 de fevereiro) ela me liga dizendo que passou a noite em claro, com contrações ritmadas. Ainda estavam um pouco espaçadas, então o telefonema era para me deixar de sobreaviso. Duas horas depois ela liga, deixando transparecer na voz um certo cansaço e impaciência, pedindo que eu fosse lá. Eu estava comprando umas frutas no mercado, corri para casa, abasteci Vini com leitinho, peguei minha bolsa de doula e fui. No meio do caminho falei para ela aplicar compressas quentes, pois as dores se concentravam apenas no pé da barriga.

Quando eu cheguei (12:45 mais ou menos) Emmanuel estava com ela, firme e fiel na sua função de “maridoulo”, passando à ferro os panos da compressa. Eu me preocupava em fazê-la descansar entre as contrações, pois sabia que não havia dormido nada na noite anterior. Fiz um escalda pés para que ela relaxasse e sugeri uma posição que facilitasse esse descanso. Permanecemos assim por um tempo, apenas aplicando as compressas. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam 50 segundos, mas percebi que a fase ativa do trabalho de parto havia apenas começado. No meio da tarde ela conseguiu relaxar e até cochilar entre uma contração e outra. Tentei segurá-la em casa o máximo possível, mas ela começava a se aperrear com as dores e o cansaço. Resolvemos então que ela tomaria um banho e iríamos no consultório da GO avaliar o colo.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

Fui dirigindo e no banco de atrás Adrieny era amparada por Emmanuel, estava claro que o suporte emocional que ela precisava era apenas a presença dele. Peguei um caminho mais longo, o que certamente a deixou irritada, mas com isso eu esperava ganhar um tempinho a mais. Temia que a avaliação da GO detectasse um colo com pouca dilatação, pois isto certamente seria um balde de água fria em todos. Na metade do caminho seu comportamento demonstrava que o trabalho de parto estava sim avançado, e com isso me tranquilizei, certa que saímos de casa no momento certo, era 16h.

O colo, que no dia anterior estava alto e grosso, estava completamente apagado e dilatado em 7 cm, o que deixou a GO (que estava apostando mais alguns dias de gestação) bastante surpresa. Este é um ótimo exemplo de como os processos que regem o parto são misteriosos. Respiramos aliviados e felizes rumo ao hospital!

Esperamos um pouco na entrada, subimos para o quarto. Avisei a Juliana e a Rafaela que estávamos ali, e que se elas quisessem poderiam se juntar a nós. Por volta de 18:30h Rafa chegou. A bolsa havia estourado às 18h e liguei para a GO avisando. Continuamos revezando as posições. Ela sempre encontrava alívio nas compressas (lembrei de levar o ferro para o hospital! Rsrs) e na banqueta. Quando a GO chegou e avaliou, a dilatação estava quase completa, mas a bebê no primeiro plano ainda.

A cumplicidade e sintonia entre o casal.

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momentos de relaxamento entre as contrações

Adrieny e Emmanuel ficaram um tempo no chuveiro, luz apagada… era linda a cumplicidade entre eles. Quando saíram, chamamos a GO, pois Adrieny dizia que sentia vontade de fazer força. Avaliação: bebê no 2º plano. Sugerimos, então, que ela se agachasse e puxasse um lençol quando sentisse vontade de fazer força. A força dos seus braços era algo incrível! Estava ali já exausta, sem dormir, mas determinada, focada em trazer Amélie. Dizia que estava cansada, lhe dávamos água e chocolate para repor as energias, mas em nenhum momento reclamou da dor. Emmanuel era seu apoio, seu encosto, o carinho e a fonte onde ela renovava suas forças.

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

Juliana chegou por volta de 20:00h (eu acho! a essa altura eu já havia perdido a noção do tempo). E continuamos ali, nos revezando para encorajá-la, torcendo que Amélie descesse. A ausculta do coração da bebê era perfeita todo o tempo. Talvez seu modo de dizer que estava vindo lentamente mesmo, no seu tempo. Adrieny sentia-se confortável quando ficava de cócoras ou em quatro apoios e entre forças e puxos, o expulsivo durou 2:30h.

Quando a cabecinha de Amélie se insinuou me emocionei ao ver que Emmanuel tinha lágrimas nos olhos. Fotografei. Enfim, ela nasceria. Adrieny tocou a cabeça da filha, brincamos dizendo que os cabelos de Amélie eram longos. Ela sorriu. Em meio a todo o cansaço e exaustão Adrieny conseguia sorrir das besteiras que falávamos… A GO perguntou qual o cantor preferido de Adrieny e achou no Youtube a trilha perfeita para o nascimento: o disco Into the Wild, de Eddie Vader.

Emmanuel emocionado com iminência do nascimento. Adrieny sorria ao tocar a cabecinha da bebê.

Emoção com a iminência do parto.

Amélie, escaladora como seus pais, atravessou longamente o canal do parto, ia e vinha. Despediu-se de cada milímetro de sua mãe por dentro. Adrieny encontrou sua posição para parir, a cabeça então coroou no períneo e saiu lentamente. O pai cortou o cordão umbilical. Amélie nasceu bem às 22:30 aproximadamente, precisou ser aspirada com a pêra, recebeu os cuidados médicos e foi para os braços da mãe, onde dormiu a noite toda.

bienvenue, Amélie!

bienvenue, Amélie!

Uma cena foi especialmente marcante para mim: Adrieny, em quatro apoios, apoiava as mãos na cama e jogava o corpo para frente durante a contração. Eu estava entre ela e o armário do quarto. De frente para seu rosto. Ela estava de olhos fechados numa expressão insondável. Eu não saberia descrever sua expressão concentrada de dor, cansaço, determinação e algo mais. O algo – mistério e encantamento – que envolve uma mulher parindo. Naquele átimo de segundo lembrei da crônica de Ric Jones, e imaginei que sentir-se como vidro era algo assim. Eu estava ali em sua frente, mas não importava. Tive medo que ela abrisse os olhos e encontrasse os meus. O impacto daquele olhar me marcaria certamente. Mas não foi preciso que ela abrisse. Estar ali, no pequeno espaço entre um armário e uma mulher parindo, foi algo surreal, de grande força e sutileza. Uma cena única e inesquecível.

muito amor em uma foto só

muito amor em uma foto só

E esta foi minha estreia como doula. Emocionante e inesquecível como todas as estreias, e cheia de aprendizado. Talvez o maior de todos: entender que não basta informação, não basta empoderamento, tudo isso é necessário frente ao modelo obstétrico atual, mas (e nova referência a Ric Jones) o parto acontece mesmo entre as orelhas, nas curvas da memória, nas emoções mais recônditas, acontece apesar do medo, apesar de nós mesmo. Duas horas e meia de expulsivo me relembraram o que eu tinha vivido na própria pele, que o parto acontece apesar de nós, superando nossos limites, sublimando nossa bagagem emocional. Forçando ao extremo nossos músculos, tecidos e pele numa explosão de força, amor e renovação.

*Fotos por Heloá Aires  para Ateliê Fotográfico. Todos os direitos reservados.

**Receita para o chá da Naoli aqui.

PS.: Obrigada a Juliana por ter nos apresentado e por estar presente no parto e obrigada a Rafa por também estar presente no parto e ainda ter levado um sanduíche de queijo para mim! rsrsrs Essa rede de mulheres que se apoiam em prol de outras mulheres é coisa linda de se ver! :****