parto de maio

o grito dela emocionava.

o trabalho de parto vinha rápido, a galope, atropelando.
as vezes cedia o passo, mas continuava firme, intenso.
e aí, de repente começou a afirmar:
eu preciso.
eu preciso de algo.
de quê eu preciso?
…..
não sei. eu não sei de nada.
não sei a resposta, meu filho.
…..
as frases pareciam aleatórias… desavisados poderiam pensar que era delírio.
mas eu não,
eu sabia que elas vinham de um lugar muito profundo.
o significado estava além do que poderíamos entender em palavras.
era apenas sentir. e veio.
o sentimento bateu no peito e refletiu os olhos marejados.
era a beleza em si.
crua. nua.
era a condição humana revelando-se em fragilidade e força.
era o encontro inevitável de si mesmo, sem fugas, sem máscaras.
era apenas a verdade.

Relato de parto de Clarisse, nascimento de Camila

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender 

(Sol de primavera – Beto Guedes)

 

Bom, esse relato de parto é especial. Primeiramente porque a própria Clarisse me pediu que eu o escrevesse para ajudá-la a lembrar daquele dia e segundo porque esse parto é especial por si só como vocês poderão ver…

Na manhã do dia 31 de agosto recebo o telefonema de uma mulher ofegante perguntando sobre meu trabalho e se eu estaria disponível para aquele dia mesmo. Eu estava preparando o material para um ensaio que eu ia fotografar naquela tarde, então tendo isso em mente perguntei: é para fotografar? E ela disse: não, para me acompanhar como doula.

Oi?

Parei um segundo e pensei: gente, como assim ela tá procurando uma doula em pleno trabalho de parto? Por que não procurou antes?

E então ela me contou a história. Sua bebê estava em posição pélvica* dias antes de entrar em trabalho de parto e por esse motivo ela não se animou de ir atrás de nada sobre o parto… disse que estava sentindo umas cólicas e que ao ser atendida pelo plantonista ele reforçou que ela tentasse ter o bebê de parto normal mesmo e que procurasse uma doula para ajudá-la.

E então ela estava ali, inciando o trabalho de parto, me perguntando se eu poderia acompanhá-la.

Nós, doulas, preferimos conhecer a gestante ao longo da gestação para criarmos um vínculo, entendermos a dinâmica da família, conhecermos os planos e expectativas para o parto. Mas enquanto estava ali falando com Clarisse senti que deveria atender seu chamado, que deveria estar com ela. Combinamos de nos falarmos ao longo do dia e eu passaria para visitá-la no final da tarde.

 

primavera

Fonte: the mandala journey

 

Depois do ensaio fomos fazer um lanche e quando voltei a falar com Clarisse ela tinha resolvido ir ao hospital avaliar o andamento do trabalho de parto. Cheguei lá por volta de 19:30h.  A dinâmica das contrações estava boa, 3 cm de dilatação e colo quase apagado. Nos conhecemos, fomos conversando e em nenhuma momento senti estranheza ou desconforto. Ficava feliz quando ela dizia que as massagens estavam ajudando a suportar a dor. Ela tinha chegado com os ombros muito tensos e com as massagens percebi seu corpo relaxando… Clarisse tem o jeito de mulher forte, prática, determinada. Seu trabalho de parto tinha bem essa característica: como se ela mirasse em um objetivo, estava disposta a atingi-lo. Ficou na bola muito tempo. As massagens na lombar e nos ombros a ajudavam a relaxar…

Martin, seu marido, estava sempre ali solícito em atendê-la quando ela pedia, mas nos deixava bem a vontade para fazermos o nosso trabalho, eu massageando e ela trazendo Camila ao mundo.

Por volta de 23h ela quis descansar um pouco e deitou-se de lado. Nos intervalos das contrações chegou a cochilar, quando a contração vinha tudo o que ela me pedia era a massagem.  O médico veio avaliá-la de meia-noite e pediu para o chamarmos novamente às 2h. As contrações estavam bem fortes a essa altura, não sei nem como ela conseguia suportá-las deitada. Mas estava funcionando tão bem que cochilamos os três (nos intervalos das contrações) até umas 02:10 da manhã quando depois de uma contração ela levantou-se para ir ao banheiro. Bastou sentar no sanitário para ouvirmos o  “chuááá…” da bolsa que acabara de estourar.

A próxima contração veio com uma leve vontade de fazer força, esperei mais uma para ter certeza. Ela colocava a mão como se estivesse segurando a cabeça da bebê e eu perguntava se ela sentia algo ali embaixo. Ela dizia que não, mas a mão continuava lá. Vi medo nos seus olhos, tentei dizer que não tivesse medo, que era Camila chegando, que estava tudo bem. Não sei se ela ouviu, seu olhar variava entre amedrontado e animalesco, orbitando em outro planeta. Pedi a Martin para chamar o médico, a enfermeira veio olhar como quem não tava entendendo que a bebê ia nascer dali a pouco. Depois da terceira contração Clarisse levantou, se posicionou na cama, o médico chegou e confirmou que a bebê já estava nascendo mesmo. Em mais três contrações Camila veio ao mundo, num expulsivo rápido e forte que me lembrou o nascimento do meu Vini. Eu vi no momento que Clarisse jogou o olhar para cima, surpreendida pela dor, pela força e ainda assim tão entregue e determinada àquilo. Eu vi naquela cena um olhar incrédulo e lampejante mirando para o alto e quase pude ler seus pensamentos naquele instante (se é que se consegue pensar em algo numa hora dessas). Imagino que ela ali ela encontrou a maior força que ela jamais imaginou que pudesse ter, que por um momento ela duvidou que a bebê ia sair e que por fim ela ela se maravilhou sem acreditar que então Camila estava do lado de fora, tendo passado por dentro dela… foi colocada diretamente em seus braços, quentinha e chorando a plenos pulmões.

Rosada, sem sangue nem vérnix (e isso parece tanto com a chegada de Vini!) recebida com as palavras da mãe, assim nasceu Camila na madrugada do primeiro dia de setembro, aniversário do seu avô materno. Lembro especialmente de Clarisse dizer:

“Você é a irmã do Nick”…

meus olhos ficaram marejados… o primeiro filho certamente a uma grande motivação para que o segundo parto fosse natural. O pai emocionado registrava algumas fotos…

Foi simplesmente lindo, exato, intenso. Indescritivelmente a experiência mexeu comigo, me confirmou o destino, me encheu de ocitocina e gratidão ao universo por me colocar no lugar certo, nas horas certas. :)

Clarisse, Martin, Camila e Nick (que ainda não conheço): obrigada pelo aprendizado! Por se abrirem a mim, por se permitirem viver esse parto e por terem me ligado tão em cima da hora para estar junto!

______________________

*bebês em posição pélvica NÃO é indicação de cesariana. Mas a mãe em questão, além de não encontrar na cidade um profissional que topasse assistir um parto pélvico, tinha seus próprios receios.

Relato de Parto de Jucilene e Adriano, nascimento de Samuel

Conheci a Jucilene pela internet. Na época ela morava em Fortaleza e em um grupo de apoio ao parto no Facebook pediu orientações para parto natural em João Pessoa. Começamos a conversar e ela me contou toda a história da primeira gestação. Havia muitos traumas a serem superados: a cesariana sem indicação, a recuperação difícil, a alergia que o primeiro filho desenvolveu, e depois o terrorismo que sofreu por ter engravidado pouco tempo depois da cesárea. Ela conta que logo após o nascimento de João Gabriel realmente já queria engravidar de novo, mas dessa vez para parir, e trazer ao mundo com suas forças, o próximo filho.

E assim foi…

Nos falávamos muito pela internet e nos conhecemos pessoalmente no início de março. No final de abril ela finalmente se mudou para João Pessoa. Jucilene é uma mulher devotada à família, me encantou sua simplicidade que se confunde com algo parecido com a ingenuidade das pessoas bondosas de coração… outro traço marcante de sua personalidade é que ela é ligada no 220v, dá conta de várias coisas ao mesmo tempo ou como diria meu avô: é uma mulher avexada! Mas pudera: mãe dedicada está atenta aos mínimos detalhes da alimentação do João Gabriel que tem alergia à proteína do leite de vaca, tudo tem que ser preparado impecavelmente de modo a eliminar os traços da proteína, teve que de lidar com uma mudança de cidade no final da gestação, com as incertezas do trabalho do marido e de seu próprio, comprar mobília para o apartamento novo… e em meio a tudo isso ainda encontrar um obstetra que topasse um parto natural depois de uma cesárea com intervalo menor que dois anos. Do nosso primeiro encontro ficou a impressão de que era uma mulher com muitas questões  a superar. Eu tinha medo de que sua bagagem emocional a assustasse durante o processo do trabalho de parto, mas confiava e acreditava muito na sua determinação e vontade de parir.

à espera de Samuelzinho

à espera de Samuel

O Samuel começou a dar sinal de queria nascer assim que saiu a nomeação do pai. A nomeação deveria ter saído semanas antes e essa pendência era motivo de aflição na família… bastou se resolver para o parto se desenhar.

Na madrugada do dia 16 ela me fala muito emocionada que estava com contrações ainda irregulares, mas cada vez mais fortes… fomos nos falando ao longo do dia e já eram quase 23h quando cheguei na sua casa. Ela me deu um longo abraço e muito emocionada me dizia o quanto tinha esperado por aquele dia para sentir aquelas dores… ficamos só eu e ela no quarto. O marido tentava dormir na sala e o João Gabriel dormia no seu quartinho.

Foi maravilhoso ver a transformação daquela mulher ansiosa em mulher ativa e determinada. Tudo o que fosse bom para o andamento do parto ela topava. Claro que a ansiedade nos rodeava, mas ela ia contornando, lidando com as contrações a cada vez, procurando uma posição mais confortável sempre. Assim que a contração passava ela voltava a falar sobre seus traumas no parto anterior, sobre como estava feliz naquele dia, procurava resolver alguma pendência (quem ficaria com o João Gabriel quando fôssemos para a maternidade?),  mas era só sorrisos e felicidade. Durante as contrações ela foi aprendendo a se concentrar, a ouvir seu corpo… se remexia procurando alívio e inventava posições para ficar mais confortável. Naquela madrugada meu coração se encheu de uma alegria imensa. Alegria por estar ali com ela, acompanhando aquele parto que era tão desejado. Nunca me senti tão útil e tão feliz em servir alguém… uma alegria que vinha da gratidão pela confiança que ela depositou em mim para estar ali naquele momento. Eu via o passado sendo superado naquelas horas: cada contração era a prova de si mesma, era a certeza que ela conseguiria, que seu corpo podia parir, que seu útero não romperia.

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

assim que a contração passava ela sorria feliz por estar em trabalho de parto

alívio no chuveiro quente

alívio no chuveiro quente

Ligamos para a médica por volta das 4 horas da manhã e chegamos ao hospital por volta das 5. Chegando lá a médica fez o toque e constatou 8cm de dilatação, bebê um pouco alto ainda. Descemos para o bloco cirúrgico, onde ia acontecer o parto. Para o bebê descer propus o “andar de pato”e ela prontamente se agachou e começou a caminhar de cócoras pelo corredor do bloco. Antes daquela cena eu pensava que nenhuma mulher ia se prontificar a fazer isso no auge da dilatação quando a dor é de ver estrelas. Mas naqueles minutos eu vi a diferença que faz a determinação e a vontade de parir em mulher! Houve um momento durante esse exercício em que ela agarrou meus braços e olhou bem nos meus olhos com um sorriso feliz no rosto. Nos encaramos por uns segundos…  o olhar embriagado de dor, emoção e ocitocina me dizia apenas: eu vou conseguir.

Sentou-se um pouco na banqueta, a neonatologista chegou e ela em lágrimas pediu para ficar com o filho assim que ele nascesse e que não fosse ofertado leite artificial (diferente do que aconteceu com o primeiro). A incredulidade do que estava prestes a acontecer a deixava muito emocionada.

minutos antes de o Samuel nascer

minutos antes de o Samuel nascer

As contrações ficaram um pouco mais espaçadas e a médica resolveu conduzir o expulsivo, pois não podia usar ocitocina em virtude da cesárea prévia. Às 5:55  Samuel nasceu curando sua mãe por dentro e enchendo de orgulho o pai e esta doula que aqui escreve.  Alguém mencionou que ele teria nascido às 6 na hora da Virgem Maria e foi linda a consagração que a mãe proferiu naquele momento.

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

eu adoro essa foto! a ansiedade das mãos que querem pegar o filho recém saído

emoção

“Realizei um sonho”, ela me disse logo após o parto.

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

o primeiro beijo dos muitos que virão :)

Ju, minha querida… que deusa era você naquelas horas? Tão determinada e dona de si. Superando cada contração como um degrau a ser escalado… contra tudo o que você ouviu na gestação de João Gabriel, contra todo o terrorismo que te fizeram na gestação do Samuel você pariu, seu útero não rompeu como te disseram que aconteceria. Você com a sua história quebrou mitos e provou para si e para todos do que o corpo de uma mulher é capaz. Agora és além de uma mulher ligada no 220v (rsrsrs) uma inspiração para vida e o sonho de tantas outras mulheres. Gratidão!!!

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

Samuel olhando em direção ao pai que conversava com ele nesta hora

reconhecendo a mamãe

reconhecendo a mamãe

a família está completa agora!

a família está completa agora!

 

 

O parto da Carol – parte 1

Pensei muito antes de iniciar esse post. Primeiramente porque eu já sabia que não encontraria palavras para descrever a emoção e tudo o que significa esse parto. Segundo porque não quero estragar com as minhas palavras o que Carol está tecendo desde antes do nascimento de Daniel: um relato que certamente inspirará outras mulheres a realizarem tudo o que seus corações desejarem. Quando ela terminar vou pedir autorização para postá-lo aqui. :)

Mas, ontem começou uma manifestação nacional (e internacional também!) contra o caso ocorrido em Torres-RS, onde uma mulher (Adelir Guimarães) foi levada presa para ser submetida a uma cesariana sob alegação de que estava pondo em risco a vida do filho. Esse caso já foi amplamente noticiado e debatido e quem quiser saber mais pode encontrar detalhes aqui, aqui e aqui. Esse episódio dramático mexeu muito com todos que lutam e acreditam na humanização do parto. Cada vez que penso sobre ele, me revolta e me choca o abuso de direito do Estado e a violação dos direitos mais básicos do ser humano, dentre eles a integridade do próprio corpo e a liberdade de suas escolhas.

E então, resolvi fazer esse post não para relatar o parto de Carol, mas para, através da fotografia, contestar e levantar bandeira: por que é negado às mulheres receberem seus bebês assim? Na tranquilidade do local que escolherem, acompanhadas das pessoas que escolherem, pela via de nascimento que escolherem?

Assim como Adelir, Carol tinha duas cesáreas prévias. E seu útero não rompeu. Existia o risco de uma ruptura uterina? Sim, existia. O que os médicos não falam é que este risco existe desde a primeira gestação para qualquer mulher no planeta, mas ele é baixíssimo e por outro lado aumenta à medida que mais incisões cirúrgicas vão sendo feitas no útero. Assim, cesarianas sucessivas envolve mais riscos que a tentativa de um parto normal após cesárea.

O parto de Carol não deveria ser  exceção. Não deveria ser uma realidade distante para a maioria das brasileiras. Todas merecemos parir em paz, com respeito, cercadas de amor. Da forma como escolhemos. São direitos básicos.E é por isto que lutamos, por todas nós, da rede privada, da rede pública, seja como for. Parir é  um evento familiar, é uma aliança com a humanidade. O parto precisa retomar seu lugar de sagrado.

**

Carol pariu em casa, numa tranquilidade que jamais vi. Serena, consciente do seu corpo. O bebê nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo. Não houve pressa.

Durante a gestação eu vibrava nas nossas conversas pela Facebook a cada “reviravolta” desse parto: ia ser hospitalar, podia aparecer uma pré-eclâmpsia, ia ser a última tentativa; ia ser pelo menos uma indução; vai ser domiciliar, o bebê que estava pélvico virou (mas isto não era um problema!), apareceu uma parteira perfeita para o plano, a médica topou ficar de backup, pródromos prolongados… as semanas passaram em ansiedade no desejo de um parto que floresceu em muitos corações…

E então, aquela mulher negada ao direito de parir há 4 anos atrás, finalmente realizava o desejo do corpo e do coração, numa facilidade, tranquilidade e simplicidade… que atestava claramente: sim, nós mulheres sabemos parir. Nós, mulheres, gostamos de parir.

 

O pai que esperava ansioso a hora do parto

O pai que esperava ansioso a hora do parto

detalhes do parto em casa: Reparir é o nome do blog de Juliana e este mimo foi presente de Carol. Estava lá pendurado de frente para cama, ao lado do quadro com versículos da Bíblia em romeno.

detalhes do parto em casa: Reparir é o nome do blog de Juliana e este mimo foi presente de Carol. Estava lá pendurado de frente para cama, ao lado do quadro com versículos da Bíblia em romeno.

"Vou descansar um pouco e depois quando eu acordar vamos nos mexer para esse parto acontecer hoje."

“Vou descansar um pouco e depois quando eu acordar vamos nos mexer para esse parto acontecer hoje.”

escalda-pés para relaxar...

escalda-pés para relaxar…

cenas do parto em casa: conversa com a parteira, amiga amamentando na rede...

cenas do parto em casa: conversa com a parteira, amiga amamentando na rede…

Carol com 6,5cm de dilatação.

Carol com 6,5cm de dilatação.

saímos para caminhar na pracinha ao lado... este é o céu daquele tarde.

saímos para caminhar na pracinha ao lado… este é o céu daquele tarde

cenas do parto em casa: nosso jantar!

cenas do parto em casa: nosso jantar!

só o universo explica um encontro de almas como esse!

só o universo explica um encontro de almas como esse!

Carol, aos NOVE cm de dilatação. Isso mesmo!

Carol, aos NOVE cm de dilatação. Isso mesmo!

Daniel saiu lentamente e foi tranquilamente aparado por Regine, a parteira.

Daniel saiu lentamente e foi tranquilamente aparado por Regine, a parteira

o momento em que descobriram o sexo do bebê

o momento em que descobriram o sexo do bebê

papai orgulhoso!

papai orgulhoso!

a querida tia Marli, que tinha viagem marcada para a madrugada, mas conseguiu assistir ao parto

a querida tia Marli, que tinha viagem marcada para a madrugada, mas conseguiu assistir ao parto

Daniel foi parido em casa, depois de duas cesáreas. Nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo, o útero não rompeu. Nós mulheres sabemos parir! :)

Daniel foi parido em casa, depois de duas cesáreas. Nasceu com 4,5kg. Não houve laceração no períneo, o útero não rompeu. Nós mulheres sabemos parir! :)

 

Gratidão! :)

Relato da doula: parto de Danielly e Matheus, nascimento de Raul

Conheci Dani através de um grupo de apoio ao parto normal no Facebook. Ela procurava indicações de médicos que atendessem ao parto em Campina Grande e logo começamos a conversar e procurar as opções (bem escassas! rsrs)

Ela é pernambucana e mora em Santa Cruz, e como em sua cidade não há uma boa estrutura hospitalar, o plano era ter o bebê em Campina Grande, ficando então, hospedada na casa dos sogros.

Dani foi a primeira pessoa que me contratou como doula e por isso lhe tenho um grande carinho e gratidão.
A afinidade entre nós foi acontecendo facilmente… Nos conhecemos pessoalmente em novembro de 2013 no primeiro encontro da Gestar e Maternar em Campina Grande e prosseguimos com nossa conversa online. Enquanto isso, Dani seguia buscando um obstetra que atendesse seu desejo de um parto natural, sem intervenções.
Em janeiro de 2014 nos encontramos em João Pessoa para fazermos as fotos de Raul. Foi uma tarde muito agradável. Eu e Flávio saímos da sessão com aquela impressão de que neles víamos a nós mesmo meses atrás: um casal jovem, primeiro filho, em busca de um parto, com sede de informação.
Essa afinidade com os casais que tenho acompanhado é algo que me dá certeza desse destino de ser doula. Agradeço a Deus por todas essas belas amizades que tem surgido em minha vida!
Dani e Matheus à espera de Raul.

Dani e Matheus à espera de Raul.

Enfim Dani encontrou uma obstetra que topou seu parto e lhe transmitiu a segurança necessária. Respiramos aliviadas! Agora era só esperar a hora de Raul nascer.
Na quarta-feira, dia 12 de março, Dani me liga pela manhã dizendo que estava sentindo contrações dolorosas  a ponto de nem conseguir descansar, mas ainda sem ritmo. Conversamos sobre a iminência do parto e frisei que ela procurasse descansar e que me ligasse se sentisse qualquer mudança nessa dinâmica, enquanto isso eu arrumaria minha bagagem para viajar. Assim que desliguei, liguei para Maria Rosa, que estaria conosco como doula também. Avisei da iminência do parto.
Ao longo do dia nenhuma mudança. No fim da tarde Dani resolveu fazer uma avaliação com a obstetra e no toque o colo estava alto e grosso. Resolvi ficar por João Pessoa, pois estava esperando outro parto que poderia acontecer a qualquer momento também. Na madrugada Matheus me liga dizendo que ela estava vomitando muito, sem conseguir dormir e as contrações estavam mais regulares. Pedi a ele que procurasse fazê-la descansar para o trabalho de parto que, sim, estava começando.
Ao raiar o dia, organizei minhas coisas, super animada com mais esse parto. A semana já estava bem ocitocinada para mim que havia fotografado um parto na terça! Tinha combinado com uma diarista nova uma faxina praquele dia, esperei ela chegar e peguei a estrada.
Na saída Matheus me liga e fala que as contrações estavam mais ou menos de 5 em 5 minutos, era 09:30 mais ou menos. Liguei para Maria Rosa e pedi que ela fosse ao encontro deles. Nisso, Juliana me liga dizendo que o outro parto que eu acompanharia como doula estava dando sinais claros de início. Haja emoção!!!
Como Dani estava com uma dinâmica mais avançada, segui viagem confiando que daria tempo de atender aos dois partos. (E sim, deu! Uhuu!)
A decoração do quartinho de Raul foi feita pela mamãe habilidosa.

A decoração do quartinho de Raul foi feita pela mamãe habilidosa.

Cheguei na casa às 11:30 mais ou menos. Ela estava cansada das noites mal dormidas, não conseguia comer e o que comia vomitava. Me preocupei com seu estado físico. Tentamos fazê-la descansar, mas as dores eram muito fortes.
Maria Rosa veio me dizer que as contrações não tinham um padrão de tempo e duração e que Dani se preocupava com isso. Lembro que assim que entrei no quarto Dani me olhou e disse: “mulher, tu acha que isso é trabalho de parto mesmo?” Achei graça. “É sim, Dani!” Conversamos e resolvemos não cronometrar as contrações então para que ela se entregasse ao processo.
A mão da mãe ansiava diminuir as dores da filha.

A mão da mãe ansiava diminuir as dores da filha.

E assim seguimos. Nos preocupávamos em encontrar uma posição que lhe trouxesse alívio, mas sozinha em pé ou em quatro apoios é que Dani se sentia melhor. Percebíamos que ela ainda se preocupava com coisas externas e alheias ao trabalho de parto, na dor as vezes desesperava. Ficamos a sós com ela, conversamos… mas só quando Matheus deu a boa notícia de que conseguira uma folga no trabalho para ficar até  segunda-feira em Campina, é que ela relaxou e finalmente o trabalho de parto engrenou. E engrenou mesmo! As dores vinham fortes, ela se desinibiu para vocalizar. Fomos para o chuveiro, a água quente nas costas agora lhe trazia alívio. Tentamos fazê-la comer o que quer que fosse. Dani havia me falado que queria ir para o hospital com a dilatação bastante avançada, pois queria passar o menor tempo possível lá, então combinamos de irmos para o consultório da médica avaliar o colo às 16h. Eu queria tardar ao máximo esse momento, mas desde 14:00 ela me perguntava se já não estava na hora. Dizia que queria ir para o hospital e eu lhe dizia: você quer que Raul nasça. Calma, não confunda!
Oferecemos açaí na esperança de repor as energias de Dani.

Oferecemos açaí na esperança de repor as energias de Dani.

Passamos um tempo no chuveiro, todos entregues ao trabalho de parto.

Passamos um tempo no chuveiro, todos entregues ao trabalho de parto.

Eram quase 15h quando ela disse: estou sentindo vontade de fazer força! Me assustei. Olhei para Maria Rosa e ela sugeriu a Dani que mudasse um pouco a posição. A vontade passou. Resolvi cronometrar as contrações então, pois a médica me perguntaria a dinâmica. E ficamos mais meia hora cronometrando. As contrações vinham a cada 2 minutos. E depois a cada 3. E depois a cada 6.
O estado físico e emocional de Dani me falava que o trabalho de parto estava avançado, não podia me orientar apenas pelas contrações. Quando começou a sair pedaços maiores do tampão, ela ficou impaciente novamente e pediu para irmos pro hospital.
Saímos do chuveiro, ela se vestiu, sogra e mãe organizaram o que tinha para levar. A chuva começou a cair. Saímos no meu carro, eu, ela Matheus e Maria Rosa. A família ia depois em outro carro. Era 16h e seguíamos para o consultório da médica.
Entre toalhas e vestidos as contrações continuavam.

Entre toalhas e vestidos as contrações continuavam.

O apoio constante de Matheus trazia tranquilidade à Dani.

O apoio constante de Matheus trazia tranquilidade à Dani.

A chuva que caia para embalar a chegada de Raul.

A chuva que caia para embalar a chegada de Raul.

No banco de trás o casal trocava beijos e carícias, eu e Marrosa comentávamos felizes aquela cena até que na sequencia Dani dá um grito desesperador. Estar sentada lhe trazia grande desconforto, mas era algo mais.
e tudo ali era só amor.

e tudo ali era só amor.

No meu pensamento apenas o pedido de que a dilatação estivesse no final, pois pelo cansaço ela ficaria muito desapontada se ainda houvesse um caminho a percorrer.
Chegando ao consultório, a médica, que estava atendendo uma paciente, ao ouvir um grito de Dani durante uma contração pediu licença para examiná-la e nos veio com a boa notícia: dilatação completa!
Festejamos no consultório e saímos a pé para o hospital que fica na calçada em frente ao consultório.
Chegando ao hospital foi aquele alvoroço de enfermeiras que não sabiam o que fazer.
Dani subiu para o bloco cirúrgico, a médica já havia ligado para o hospital pedindo para prepará-la para o parto.
A enfermeira do bloco permitia apenas a entrada de um acompanhante, Matheus foi se trocar e enquanto isso eu argumentava com ela e com a secretária que era preciso que eu entrasse. Quando a médica chegou pedi que ela autorizasse minha entrada e foi então que a enfermeira cedeu, ainda pedi que Maria Rosa entrasse também,  mas ela foi irredutível.
Me troquei às pressas e quando chegamos na sala Dani estava deitada de costas  e as enfermeiras fazendo o acesso na veia.
Tal como um super herói que detém o vilão no momento exato, a obstetra ao se deparar com a cena disparou: “Não! Parem com isso! Isso é só um parto!”
“Isso é só um parto”. Que frase mais certeira!
Desapontadas as enfermeiras saíram da sala. Me senti orgulhosa de estar ali vencendo uma árdua batalha contra o sistema. Enfim acabou-se o pandemônio hospitalar e agora um parto estava acontecendo com toda a sua tranquilidade merecida.
Em um canto da sala a obstetra posicionou a banqueta de parto, Matheus serviu de apoio para as costas de Dani. A médica sentou-se no chão em frente ao casal, colocou Norah Jones como trilha sonora, apagou as luzes, deixou a sala na penumbra e ficou ali aguardando Raul nascer. Eu fotografava.
Em instantes vieram os puxos, Dani usava toda a sua força, o cabelinho de Raul começou a aparecer. Pedimos a Dani para tocar, mostramos a chegada de Raul com um espelhinho para o pai que ficou extasiado.
Mais alguns puxos e às 16:30 Raul nasceu. Foi para o colo de sua mãe, ficamos todos maravilhados e emocionados com a simplicidade e magnitude do que acabara de acontecer: era apenas um parto, mas parou o tempo por alguns minutos.
Bem vindo, Raul!

Bem vindo, Raul!

Eles haviam conseguido. Os dias de incerteza, a equipe médica que não se achava, a espera longe de casa, a angústia, um trabalho de parto intenso, o cansaço, o sistema hospitalar amarrado a protocolos e regras, o destino que estava fadado a não realizar os desejos do coração. Nada disso importava mais, eles haviam conseguido contra todas as previsões. Raul, Dani e Matheus fizeram acontecer naquela maternidade algo raro: a naturalidade de um parto.
 A obstetra esperou uns 20 minutos até o cordão parar de pulsar para então Matheus cortá-lo.
O pai cortou o cordão umbilical.

O pai cortou o cordão umbilical.

Enquanto a mãe recebia alguns pontinhos, Raul seguiu para o berçário com o pai e logo todos se encontraram no quarto com os avós que esperavam ansiosos. Ainda caía uma chuvinha fina enquanto eu e Marrosa voltávamos para casa, ocitocinadas e em êxtase.
As avós corujas!

As avós corujas,

A mãe realizada.

a mãe realizada,

O pai babão!

o pai babão,

e o bebê mais lindo do pedaço!

e o bebê mais lindo do pedaço!

Dani e Matheus: pessoas queridas, de corações lindos e sinceros, lhes desejo toda a felicidade, resgate e iluminação que a vinda de um filho possa representar. Vocês batalharam tanto por esse momento, acreditaram, pesistiram. Conseguiram.
Agradeço pela confiança, pelo apoio e amizade.  Que Raul cresça forte e saudável nesse ninho de amor!
Marrosa: Obrigada por estar conosco nesse momento. Você é maravilhosa em dedicação e gentileza!
Dona Sávia e Dona Fátima: grata pela confiança! E principalmente pela compreensão, apesar da ansiedade que tomaram conta daquelas horas.
Fotos por: Heloá Aires.
Vedada reprodução sem autorização. Todos os direitos reservados.

Relato da Doula: Parto de Adrieny e Emmanuel, nascimento de Amélie

[Antes de iniciar este relato quero agradecer à Adrieny e Emmanuel pela confiança. Por me escolherem para estar presente no dia mais importante de suas vidas. Pela amizade, carinho e por tudo o que pude vivenciar neste parto maravilhoso.]

Conheci Adrieny por intermédio de Juliana quando ela estava com 6 meses de gestação. Marcamos um encontro na casa de Ju, nos conhecemos pessoalmente e partir dali fomos conversando sobre meus serviços como doula.

Eu já tinha fechado contrato com outras pessoas, mas pelas datas prováveis dos partos (DPP) o de Adrieny seria a minha primeira doulagem. Antes, eu acompanharia o parto de May, mas como fotógrafa.

Eu e ela temos um jeito parecido. Um pouco reservadas no início, fomos nos conhecendo aos pouquinhos… A gestação de Amélie foi tranquila, sem intercorrências. Adrieny é o tipo de mulher decidida, que sabe o que quer e corre atrás: leu livros sobre parto e maternagem, se informou, frequentou as rodas de gestantes, trocou de médica várias vezes até encontrar uma que lhe passasse a segurança necessária para o parto tão desejado.

No caminho que ela trilhava para realizar esse desejo eu via a mim mesma, há mais de 1 ano atrás, quando  iniciei meu caminho de descoberta e resgate que culminou no parto de Vinícius.

Quando ela completou 37 semanas, nos reunimos em sua casa para tirar dúvidas quanto ao trabalho de parto, passei algumas orientações. Pintamos sua barriga (eu desenhei e o marido pintou) e foi uma tarde realmente muito agradável. Lembro com muito carinho desse momento, pois neste dia pude descobrir outras afinidades com o casal. Novas e lindas amizades floresceram em minha vida.

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Pintura de barriga. Amélie envolta em céu, noite, dia e natureza.

O tempo foi passando com calma e tranquilidade, perto de completar 40 semanas, Adrieny começou a sentir contrações cada dia mais intensas, mas ainda bem espaçadas. O final da gestação que já é marcado de ansiedade e espera, começa a virar cobrança dos amigos e familiares à medida que o tempo vai passando. Na véspera de completar 41 semanas, ela foi para uma consulta de rotina com a GO. Fez mais alguns exames e um toque que revelou o colo desfavorável para o início do trabalho de parto, apesar das contrações das semanas anteriores. Nesta mesma noite, insisti para que ela fosse até a casa de Juliana onde estávamos reunidas com outras gestantes, para que nesse clima descontraído, ela pudesse relaxar um pouco, desabafar, encontrar com outras mulheres que estavam na mesma espera e ansiedade que ela… Conversamos e fizemos o chá da Naoli novamente (ela tinha tomado  também na noite anterior), era quarta-feira de noite.

Na quinta de manhã (dia 20 de fevereiro) ela me liga dizendo que passou a noite em claro, com contrações ritmadas. Ainda estavam um pouco espaçadas, então o telefonema era para me deixar de sobreaviso. Duas horas depois ela liga, deixando transparecer na voz um certo cansaço e impaciência, pedindo que eu fosse lá. Eu estava comprando umas frutas no mercado, corri para casa, abasteci Vini com leitinho, peguei minha bolsa de doula e fui. No meio do caminho falei para ela aplicar compressas quentes, pois as dores se concentravam apenas no pé da barriga.

Quando eu cheguei (12:45 mais ou menos) Emmanuel estava com ela, firme e fiel na sua função de “maridoulo”, passando à ferro os panos da compressa. Eu me preocupava em fazê-la descansar entre as contrações, pois sabia que não havia dormido nada na noite anterior. Fiz um escalda pés para que ela relaxasse e sugeri uma posição que facilitasse esse descanso. Permanecemos assim por um tempo, apenas aplicando as compressas. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam 50 segundos, mas percebi que a fase ativa do trabalho de parto havia apenas começado. No meio da tarde ela conseguiu relaxar e até cochilar entre uma contração e outra. Tentei segurá-la em casa o máximo possível, mas ela começava a se aperrear com as dores e o cansaço. Resolvemos então que ela tomaria um banho e iríamos no consultório da GO avaliar o colo.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

O início do trabalho de parto. O carinho e cuidado de Emmanuel a ajudavam a relaxar.

Fui dirigindo e no banco de atrás Adrieny era amparada por Emmanuel, estava claro que o suporte emocional que ela precisava era apenas a presença dele. Peguei um caminho mais longo, o que certamente a deixou irritada, mas com isso eu esperava ganhar um tempinho a mais. Temia que a avaliação da GO detectasse um colo com pouca dilatação, pois isto certamente seria um balde de água fria em todos. Na metade do caminho seu comportamento demonstrava que o trabalho de parto estava sim avançado, e com isso me tranquilizei, certa que saímos de casa no momento certo, era 16h.

O colo, que no dia anterior estava alto e grosso, estava completamente apagado e dilatado em 7 cm, o que deixou a GO (que estava apostando mais alguns dias de gestação) bastante surpresa. Este é um ótimo exemplo de como os processos que regem o parto são misteriosos. Respiramos aliviados e felizes rumo ao hospital!

Esperamos um pouco na entrada, subimos para o quarto. Avisei a Juliana e a Rafaela que estávamos ali, e que se elas quisessem poderiam se juntar a nós. Por volta de 18:30h Rafa chegou. A bolsa havia estourado às 18h e liguei para a GO avisando. Continuamos revezando as posições. Ela sempre encontrava alívio nas compressas (lembrei de levar o ferro para o hospital! Rsrs) e na banqueta. Quando a GO chegou e avaliou, a dilatação estava quase completa, mas a bebê no primeiro plano ainda.

A cumplicidade e sintonia entre o casal.

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momentos de relaxamento entre as contrações

Adrieny e Emmanuel ficaram um tempo no chuveiro, luz apagada… era linda a cumplicidade entre eles. Quando saíram, chamamos a GO, pois Adrieny dizia que sentia vontade de fazer força. Avaliação: bebê no 2º plano. Sugerimos, então, que ela se agachasse e puxasse um lençol quando sentisse vontade de fazer força. A força dos seus braços era algo incrível! Estava ali já exausta, sem dormir, mas determinada, focada em trazer Amélie. Dizia que estava cansada, lhe dávamos água e chocolate para repor as energias, mas em nenhum momento reclamou da dor. Emmanuel era seu apoio, seu encosto, o carinho e a fonte onde ela renovava suas forças.

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

puxar um lençol lhe ajudava a lidar com as contrações do expulsivo

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

o apoio das mãos da doula, uma cena recorrente nos partos.

Juliana chegou por volta de 20:00h (eu acho! a essa altura eu já havia perdido a noção do tempo). E continuamos ali, nos revezando para encorajá-la, torcendo que Amélie descesse. A ausculta do coração da bebê era perfeita todo o tempo. Talvez seu modo de dizer que estava vindo lentamente mesmo, no seu tempo. Adrieny sentia-se confortável quando ficava de cócoras ou em quatro apoios e entre forças e puxos, o expulsivo durou 2:30h.

Quando a cabecinha de Amélie se insinuou me emocionei ao ver que Emmanuel tinha lágrimas nos olhos. Fotografei. Enfim, ela nasceria. Adrieny tocou a cabeça da filha, brincamos dizendo que os cabelos de Amélie eram longos. Ela sorriu. Em meio a todo o cansaço e exaustão Adrieny conseguia sorrir das besteiras que falávamos… A GO perguntou qual o cantor preferido de Adrieny e achou no Youtube a trilha perfeita para o nascimento: o disco Into the Wild, de Eddie Vader.

Emmanuel emocionado com iminência do nascimento. Adrieny sorria ao tocar a cabecinha da bebê.

Emoção com a iminência do parto.

Amélie, escaladora como seus pais, atravessou longamente o canal do parto, ia e vinha. Despediu-se de cada milímetro de sua mãe por dentro. Adrieny encontrou sua posição para parir, a cabeça então coroou no períneo e saiu lentamente. O pai cortou o cordão umbilical. Amélie nasceu bem às 22:30 aproximadamente, precisou ser aspirada com a pêra, recebeu os cuidados médicos e foi para os braços da mãe, onde dormiu a noite toda.

bienvenue, Amélie!

bienvenue, Amélie!

Uma cena foi especialmente marcante para mim: Adrieny, em quatro apoios, apoiava as mãos na cama e jogava o corpo para frente durante a contração. Eu estava entre ela e o armário do quarto. De frente para seu rosto. Ela estava de olhos fechados numa expressão insondável. Eu não saberia descrever sua expressão concentrada de dor, cansaço, determinação e algo mais. O algo – mistério e encantamento – que envolve uma mulher parindo. Naquele átimo de segundo lembrei da crônica de Ric Jones, e imaginei que sentir-se como vidro era algo assim. Eu estava ali em sua frente, mas não importava. Tive medo que ela abrisse os olhos e encontrasse os meus. O impacto daquele olhar me marcaria certamente. Mas não foi preciso que ela abrisse. Estar ali, no pequeno espaço entre um armário e uma mulher parindo, foi algo surreal, de grande força e sutileza. Uma cena única e inesquecível.

muito amor em uma foto só

muito amor em uma foto só

E esta foi minha estreia como doula. Emocionante e inesquecível como todas as estreias, e cheia de aprendizado. Talvez o maior de todos: entender que não basta informação, não basta empoderamento, tudo isso é necessário frente ao modelo obstétrico atual, mas (e nova referência a Ric Jones) o parto acontece mesmo entre as orelhas, nas curvas da memória, nas emoções mais recônditas, acontece apesar do medo, apesar de nós mesmo. Duas horas e meia de expulsivo me relembraram o que eu tinha vivido na própria pele, que o parto acontece apesar de nós, superando nossos limites, sublimando nossa bagagem emocional. Forçando ao extremo nossos músculos, tecidos e pele numa explosão de força, amor e renovação.

*Fotos por Heloá Aires  para Ateliê Fotográfico. Todos os direitos reservados.

**Receita para o chá da Naoli aqui.

PS.: Obrigada a Juliana por ter nos apresentado e por estar presente no parto e obrigada a Rafa por também estar presente no parto e ainda ter levado um sanduíche de queijo para mim! rsrsrs Essa rede de mulheres que se apoiam em prol de outras mulheres é coisa linda de se ver! :****

O dia que você nasceu

Esse é o meu longo relato de parto. Eu não soube resumir o dia mais incrível, maravilhoso e excepcional da minha vida.

Nunca saberia.

Vinícius um dia lerá essa história e tem que ser assim com quase tudo que me lembro, com tudo que quis escrever.

Está dividido em partes. Quem quiser ler apenas o relato, pula logo para o tópico “O dia em que você nasceu”.

Fiquei feliz e realizada, pois meu plano de parto foi totalmente cumprido. Entregamos uma cópia à GO, levamos outra para a maternidade. Essa cópia minha doula mostrou à neonatologista e ela seguiu à risca, Vinícius nasceu, veio para o meu colo e não saiu mais de perto da gente. Ela deixou avisado no berçário que não era para dar banho; medir e pesar (horas depois) no apartamento ao lado dos pais. É importante fazer o plano de parto para ao menos visualizar e expressar seus desejos quanto ao parto e procedimentos que serão realizados (ou não).

Deixo aqui o plano de parto que fiz em conjunto com meu marido e com minha doula. Quem quiser pode baixar aqui.

 

“Meu filho,

como você sabe o seu nascimento não foi planejado, mas sim, muito desejado. Ah, como eu curti a gestação… amava sentir você mexer, sentir você em mim. Quantas tardes eu chorei emocionada por simplesmente te ter ali do outro lado da pele?

Eu não me sentia muito a vontade de falar com a barriga, confesso. Mas mentalmente conversávamos muito! Rsrs Comecei a ler O Pequeno Príncipe para você, e cantava muito. Te dediquei tantas músicas…

Você fazia com que eu me sentisse especial com aquela barrigona linda, bem pontuda. Eu andava orgulhosa por aí.

Ai, ai… mas hoje eu não quero falar da gestação. Quero falar do seu parto, do dia que você escolheu para nascer.

A decisão pelo parto natural

Chegou um momento na gravidez que eu tinha que começar a pesquisar sobre o parto. Eu, como a maioria das mulheres, morria de medo do parto, de algum de nós morrer, sei lá… mas eu sabia que esse era um tema importante e que merecia muita reflexão. Por coincidência meses antes de engravidar, numa conversa entre amigas, uma delas falou sobre a crueldade que é tirar o bebê antes do tempo, marcar uma cesariana e tal. Indicou o blog mamíferas para lermos, pois tínhamos que nos preparar para isso um dia. Interessante. Fiquei pensando sobre isso, e na época já havia concluído que fosse qual fosse a via de parto, eu esperaria entrar em trabalho de parto. Agendar jamais. E esse foi o ponto de partida.

Assim, eu e seu pai resolvemos assistir ao documentário Parto no Brasil: A caminho da humanização. Acho que esse documentário é voltado para os profissionais da área de saúde porque as cenas são bem explícitas. Foi até engraçado porque eu e seu pai ficamos passando mal no sofá, o sangue desaparecendo do rosto. heheh Se não estivéssemos sentados, acho que teríamos desmaiado! De tudo, porém, o que mais me chocou não foi ver uma episiotomia, mas simplesmente ver a preparação de uma mulher para uma cesárea. Ver uma enfermeira cobrindo de iodo uma barriga enorme, o cenário de um centro cirúrgico, a mulher deitada, campo erguido… Meu deus! Na mesma hora pensei: eu não sou obrigada a passar por isso. Quero ter escolha, quero poder decidir meu parto.

Na consulta seguinte perguntei para a ginecologista que estava me acompanhando se ela fazia parto normal, e ela piscou um segundo e disse: “Faço. Se estiver tudo bem eu faço…”   no momento que ela respondeu- eu senti no meu coração que ela não faria. Não tive confiança na resposta dela. Talvez por isso, ela tenha começado a falar sobre os partos que ela fazia no HU e que não faz em consultório porque as mulheres não  queriam. Tentando me convencer de que ela era a favor do parto normal, disse até que na sua 1ª gestação tinha tentando, mas que depois de X horas sem dilatação teve que fazer uma cesárea

Essa médica era muito boazinha e tal, mas perdi a confiança nela naquele momento. Por outro lado, não conhecia outra médica aqui em João Pessoa, não conhecia sequer alguém que tivesse tido um parto normal para me indicar uma equipe. Me senti meio perdida. Me deu uma certa ansiedade essa incerteza e até que chegasse a próxima consulta era tempo demais. Fiquei com medo de ficar sem opções e resolvi agir. E procurar. Comecei a procurar aqui em João Pessoa por histórias de parto normal, doulas, enfim… sei que cheguei ao blog Reparir. Nele havia um relato de parto normal, feito aqui em João Pessoa, na Clim, com doula e tudo. Vibrei de felicidade! Saí mandando mensagem para a mãe,  para a doula e para um grupo que achei no Facebook… E aí na mesma tarde (10 de janeiro) Juliana respondeu a um dos meus e-mails. Eu estava com 21 semanas de gestação. Marcamos um encontro e antes dele acontecer eu já havia decidido que queria uma doula. Eu já havia me convencido da imprescindibilidade dessa profissional: alguém que te passe confiança e segurança, mas que não esteja emocionalmente tão envolvido no momento do parto quanto o marido, por exemplo. Alguém que por causa desse distanciamento emocional pudesse ser meus olhos e minha boca na hora do parto, que fosse a guardiã dos meus desejos e me ajudasse a realizá-los.

Na reunião ela nos indicou uma Roda de Gestantes facilitada por uma médica parteira. Ficamos um pouco confusos quanto à frequentar essa roda ou não, até que soubemos que Luísa (prima do seu pai) havia parido Joana (num parto natural hospitalar). Flávio telefonou para ela, ela nos contou alguns detalhes e combinamos de ir à Roda juntos.

O empoderamento: construindo a vontade de parir

E aqui tudo começa a tomar forma para o desfecho que tivemos. A nossa primeira roda foi o colo de Lavínia. O colo é um momento lindo onde as participantes da roda se despedem da barriga da grávida que está pertinho de parir. Lavínia estava com 39 semanas, esperava Joaquim. Ela deitou-se no meio de um círculo de mulheres que cantavam, massageavam e diziam palavras bonitas, encorajando-a para o parto. Que lindo! Saí de lá emocionada e feliz que por ter encontrado aquele grupo.

No dia 28 de janeiro me consultei com a médica que acompanhou o parto de Luísa. Fomos eu e seu pai e saímos de lá mais tranquilos, pois havíamos encontrado enfim uma ginecologista que realmente faria o parto. Mudei de médica então.

Semanas depois a Juliana resolveu iniciar com Cíntia a Roda Gestar e Maternar, uma reunião de mães e gestantes com outro foco. E assim seguimos nossa gestação: frequentando as rodas, trocando experiências com outras grávidas, compartilhando as emoções desse momentos, aprendendo e decifrando tanta coisa…

O primeiro dia de roda Gestar e Maternar. :)

O primeiro dia de roda Gestar e Maternar. :)

Nessa época comecei a ler o livro “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra” da Laura Gutman e foi aquela catarse. Acho que nenhuma mulher sai incólume a esse livro. Me encontrei de vez na gestação. Foi uma fase muito gostosa, muito feliz!

Com 36 semanas de gestação viajamos para Pipa. Foi a nossa despedida da barriga, queria descansar, olhar o mar e curtir aquele finalzinho. Foi uma viagem tão boa! Me emociono só de lembrar… no último dia sentei em um rochedo para ver o sol se pôr, para me conectar com você, meu filho. Agradeci por você existir, pela sua vida. Agradeci ao universo e a você por essa experiência maravilhosa. Eu te disse que estava tudo pronto e que você viesse na sua hora. E eu me dei conta que essa seria a primeira coisa que saberíamos sobre você: a sua hora. A espera ficou muito mais doce quando me deparei com a beleza de descobrir a sua hora de nascer. Confiar em você e esperar.

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36 semanas de gestação

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Confiando ao universo a nossa hora. :)

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Eu sempre tive o pressentimento que você nasceria no dia 9 de maio. Você nasceu no dia 10, mas a dilatação já havia começado dia(s) antes. O dia 9 não foi o dia do seu nascimento, mas foi o dia que eu entendi que precisava deixar você nascer… E de todo o processo, acho que esse foi o aprendizado mais lindo.Marquei com as meninas da Roda meu colo para o dia 7 de maio. Foi um momento mágico! Enquanto elas me embalavam eu fechei os olhos e falei para você sentir aquele momento, guardar aquela energia, pois iríamos precisar dela. E imaginei uma grande árvore, uma árvore ancestral à todas as mulheres e ela se ligava a mim pelas mãos e palavras que as meninas iam me dizendo. Galhos e raízes se estendendo para me passar aquela energia. Foi tão lindo,  tão lindo… Me senti tão acolhida. Lembro que Mei começou o colo dizendo: “Vamos dar colo a quem em breve dará muito colo também.” Na madrugada escrevi esse texto:

“Hoje foi meu colo na Roda. Foi um momento muito especial. Fiquei deitada no meio da roda e as meninas ficaram me massageando, cantando e me encorajando com palavras. Me conectei com Vinícius, amei aquele momento. Quis reter toda a energia daquelas mulheres que estavam ali me apoiando e me imaginei que éramos árvores cheias de raízes, nos conectando através dos tempos. Foi lindo e emocionante, me senti muito acolhida, senti Vinícius muito acolhido. Toda grávida merece receber um colo assim. Muito colo para dar ela terá pela frente. E nesse momento tudo que sinto é isso, gratidão. Vontade de retribuir e orgulhar essas mulheres. :) Quando acabou o colo comecei a sentir contrações. Depois de um tempo elas foram ficando mais incômodas, e quando chegamos no carro para ir embora eu senti uma contração acompanhada de uma cólica mais forte. Ficamos felizes, aquele sentimento de que enfim o TP começaria ficou mais forte. Sempre tive a intuição de que ele nasceria dia 9/05. Não consigo me visualizar grávida por mais 1 semana ainda. Acho que todos os sinais e pressentimentos apontavam para isso: Vinícius vai chegar essa semana. Vem, meu filho! Vem, meu amor! Depois que saímos da Roda fomos jantar e em seguida ficamos caminhando na praia. Continuei sentindo as contraçõe e mais algumas cólicas. Depois disso ainda fomos fazer uma pequena feira, com comidas especialmente para o parto. :) Chegamos mortos de cansaço em casa. Tentei dormir, mas comecei a sentir mais cólica e Vinícius mexendo de uma forma estranha, senti um ploft! dentro de mim e fiquei bem atenta sentindo esse movimentos estranhos e tão gostosos. Vi que não ia dormir logo, então resolvi levantar para terminar de ler o livro “Quando o Corpo Consente” e aí resolvi começar a escrever e ouvir algumas músicas para relaxar.”

A semana antes do parto

No dia 8/05 (quarta-feira) senti muito sono! Acho que era meu corpo se preparando para o que viria a seguir… de noite fomos caminhar na Praça da Paz e durante toda a caminhada eu senti contrações. Cheguei em casa um pouco mal humorada. Depois de tantos episódios de contrações e movimentações estranhas (no domingo eu tinha sentido um cloc! na bacia) eu comecei a me sentir muito ansiosa, aflita, confusa. Eu sabia que não poderia perder o equilíbrio das emoções, eu precisava me manter centrada. Em tantos relatos a gente vê como é crucial a mulher manter a mente tranquila para deixar o corpo trabalhar. E eu não poderia, não queria ser a minha própria sabotagem. Naquela madrugada tive um sonho muito interessante: eu estava presa numa sala de aula, tinha umas crianças e eu entrava lá morrendo de rir dizendo que a porta estava fechada e não conseguia sair. Nisso eu coloquei a mão na minha perna e peguei uma chave, a chave que abriria a porta. Acordei no meio da madrugada e pensei: esse sonho quis me dizer alguma coisa. Voltei a dormir.

Chegou a quinta-feira, o dia 9. Acordei bem angustiada, chorei um bocado. Durante a semana algumas pessoas haviam perguntado se não estava perto de nascer, quando nasceria… essas coisas para deixar a gente nervosa (não propositalmente, claro). A semana ia passando e por mais que minha intuição dissesse que você nasceria dali há uns dias, ia crescendo um medo muito grande de chegar às 40 semanas e aí ter que “negociar” o parto com a ginecologista. Fiquei pensando no sonho da madrugada e mandei uma mensagem para uma amiga muito querida, que é doula. Uma pessoa muito sensível e especial. E ela (Luna) me disse assim:

“Se for preciso vá se isolando aos poucos e naturalmente para proteger-se de tanta pressão externa para marcar cesariana. Fique quietinha no seu ninho conversando e se conectando bem intimamente com Vinícius… beijos e tô sim com toda certeza do mundo torcendo por vcs e entregue e aceite aquilo que for para vivenciar. Neste momento o universo sagrado e poderoso esta agindo por nós…

Fui tomar um banho e refletir sobre isso. E ali no chuveiro onde chorei a emoção de descobrir a gravidez, onde havia chorado as oscilações da gestação, pedi a Deus e ao universo que acalmasse meu coração e me dessem serenidade. Que eu não sabotasse o processo do parto, que minha mente não me atrapalhasse, que eu soubesse esperar. Aceitei enfim que a gestação teria que terminar, que chegaria ao fim e eu me permitiria isso, pois eu era a chave desse processo. Resolvi então, não fazer a cardiotocografia marcada pr’aquele dia, um exame que a GO pediu, mas que pode dar falsos indicativos de urgência para o parto. Senti que não deveria mesmo fazer e agradeço à minha intuição por isso. Sabe-se lá que rumo isso poderia dar.

Resolvi relaxar, entreguei ao universo. Outra coisa interessante é que senti muita vontade de terminar de ler o livro “Quando o Corpo Consente”. Passei a tarde empenhada nisso e à noite, meio desanimada, fui caminhar de novo com Flávio e continuei tendo as contrações.

O dia em que você nasceu

Na manhã seguinte (dia 10/05) fomos para uma consulta de rotina com a GO. Me perguntou sobre o exame, eu disse que não estava afim de fazer. Ela disse que tudo bem, mas se chegasse nas 40 semanas, eu faria então. Ok. Perguntou como eu estava e eu falei que estava um pouco desanimada por ter sentido tantas contrações durante a semana. Ela então me perguntou se eu queria fazer um toque para ver como estava o colo e tal. Concordei.

E surpresa: já estava com 3cm de dilatação! Ela falou que isso era ótimo, afinal eu ainda não tinha nem entrado em trabalho de parto, nem sentido dores… Pensei: se continuar assim, melhor. Lembro que ela falou que eu tinha a bacia larga e boa para o parto e que estava tudo ótimo. Mas que aqueles 3 cm não significavam muita coisa, o parto poderia demorar para acontecer. Me avisou que viajaria dali há uma semana e que se necessário uma médica amiga dela me atenderia em sua ausência.

Saí de lá feliz pela dilatação, mas não quis me animar muito e começar toda aquela expectativa de novo. Não fiquei ansiosa. Fiquei tranquila, tudo daria certo. Ainda no carro fiquei sentindo cólicas, mas creditei o incômodo ao exame de toque. Lembro que pegamos um engarrafamento para chegar em casa… lembro que cheguei morrendo de sono, pois tinha dormido muito mal na noite anterior. Achei que ia dormir a tarde todinha. Mas antes, resolvi terminar umas lembrancinhas e assistir a um episódio de Arrested Development. Continuei sentindo cólica pelo resto da manhã e pensei em tomar um banho antes de ir dormir para relaxar e ver se a dor passava.

E lá no chuveiro, mais uma vez, perdida nos meus pensamentos de repente percebo que aquelas contrações estavam muito estranhas. Vinham mais ou menos no mesmo intervalo e duravam quase o mesmo tempo também. “Meu deus, isso é o trabalho de parto!” Fiquei um tempo incrédula, quis chorar, quis sorrir. Vi um pouco do tampão escorrendo pelo ralo… “Ai, que lindo!” Agradeci por esse momento e te disse mais uma vez: “Pode vir, meu filho! Estamos esperando você, tudo está preparado para você chegar…”

Saí do banho meio sem saber o que fazer, procurava o celular e não achava. As contrações iam ficando mais dolorosas e estar sozinha em casa foi me dando um desespero. Pedi, pelo Facebook, para sua tia Renata me ligar e ela me disse que estava em Recife e não tinha créditos. Kkkkk! Ah, se ela soubesse o que estava acontecendo! Eu tinha decidido não avisar a ninguém da família ou amigos quando entrasse em trabalho de parto pois, eu pensava que a preocupação deles poderia me deixar preocupada por tabela e isso atrapalharia a progressão do trabalho de parto. Viu? Quis de todas as formas me preservar para me conectar só com você nesse momento tão nosso.Mandei mensagem para várias amigas e nenhuma me ligava. Até que, uma delas (Helayne) liga e finalmente eu acho meu celular para ligar pro seu pai. Mas liguei para Juliana antes (nossa doula) e ela me falou para observar, que eu ligasse pra Flávio e depois nos falávamos. Liguei pro seu pai, acho que ele ficou surpreso, pois tínhamos nos visto há pouco tempo e estava tudo tranquilo. Tentei cronometrar as contrações (de 3 em 3 minutos, duração de 40 segundos) e liguei para avisar à GO. Ela disse para eu observar e qualquer coisa ligasse para ela, pois PODERIA ser sim o trabalho de parto.

Ai, Jesus! Poderia? É sim, criatura! –  tive vontade de dizer.

Liguei pra Juliana para dizer como estava, disse que Flávio ia vir para casa e a gente se falava. Ela estava de folga naquele dia, achei tão providencial isso. Rsrs

Voltei para o chuveiro na intenção de aliviar as dores e esperei Flávio chegar.

E foi tão lindo quando seu pai chegou… me lembro bem. Ele emocionado foi lá no chuveiro, com os olhos marejados e a gente se olhou um tempo sem acreditar no que estava acontecendo. Eu disse: é hoje, amor. Hoje a gente vai dormir com ele nos braços…

Flávio foi providenciar meu almoço (já era umas 14h), terminei o banho e liguei para Juliana dizendo que Flávio tinha chegado e eu ainda ia almoçar, que ela não tivesse pressa de vir. Na verdade eu queria ficar sozinha com seu pai por um tempinho. Me senti muito segura depois que ele chegou. Ficava mostrando as contrações enquanto ele cronometrava. Lógico que doía, mas quando passava eu acha divertido simplesmente não sentir nada naquele intervalo. O mundo todo acontecendo lá fora, plena sexta-feira de sol e a gente experimentando o universo do parto. Foi uma sensação muito especial.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-2

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-2

Juliana chegou umas 15:30 e sua presença me deu muita segurança também, senti que agora que ela tinha chegado o negócio era pra valer. Ela me ensinou a usar a bola de um jeito mais eficiente enquanto me massageava e ficamos ali um tempão. Eu teria ficado ali, aliás, mas ela me alertou que era melhor irmos para o hospital antes de as dores ficarem muito fortes, pois ainda tinha toda a locomoção e o trânsito. Esperamos Cíntia chegar (ela fotografou nosso parto) e fomos.

Lembro que no banco de trás, coloquei meus óculos escuros e disse para Ju: Partolândia, aí vou eu! Rsrsrs

E fui mesmo!

Até então as dores eram como cólicas menstruais, sendo que bem mais fortes e se espalhando pela lombar e pelo pé da barriga. Entre uma e outra havia um tempinho para respirar, então eu estava aguentando bem com as massagens que Juliana fazia. Durante as contrações eu encaixava a pelve (uma dica de parteira que li no livro Quando o Corpo Consente) e ia esperando que ela passasse. Porque quando ela passa tudo fica normal.

Quando chegamos na Unimed houve uma burocracia na entrada, passar por triagem e essas coisas. Perguntei a Juliana o que estava havendo e ela disse: Não se preocupe com nada disso, isso aqui a gente resolve, vá curtir seu parto.

Foi tão bom ouvir aquilo, pensei: é, vou curtir meu parto! O maqueiro quis que eu fosse de cadeira de rodas, mas eu sabia que não suportaria ficar sentada. Subimos andando mesmo e cada vez que eu parava para passar uma contração, ele insistia na cadeira: Eu avisei que era melhor a senhora ir na cadeira. Mal sabia ele que eu estava achando ótimo aquilo tudo! Hahaha

Ficamos esperando a plantonista me examinar, e na sala de observação senti um líquido quente escorrendo pelas pernas. Fui ao banheiro ver e era sangue, muito sangue.

Em situações normais uma pessoa ficaria em pânico ao ver tanto sangue escorrendo de si, mas na minha partolândia, aquilo não era nada demais. Ouvi Juliana dizer que era sangue do colo e que estava perto de nascer… foi apressar a médica para me examinar.

Durante o exame de toque a plantonista ligou para a minha GO avisando que ela fosse logo para o hospital porque eu estava com 8cm de dilatação, que ia nascer já já.

Era só o que eu ouvia: vai nascer, já vai nascer! E haja dor e nada de eu sentir que ia nascer mesmo. Até então não tinham arranjado apartamento para eu me internar. A plantonista me acalmou dizendo que se não arranjassem nasceria ali no consultório mesmo. Fui com Juliana para o chuveiro dessa sala, fechamos a porta e eu disse a Ju: Ó, qualquer coisa a gente se tranca aqui e eu vou ter nesse chuveiro mesmo! Hahahahaha Coisas da partolândia: eu querendo transformar a doula em parteira a todo custo. Mas a verdade é que eu tinha medo de ser acompanhada por um médico desconhecido, antes nós duas ali que um GO cesarista…. vai saber!

Enfim arranjaram um quarto e lá fomos nós, seu pai, doula, fotógrafa, bola, banqueta…

Flávio colocou para tocar a playlist que eu tinha feito. Eu ouvia uma coisa e outra. Frases soltas e pensava: ah, legal tá tocando essa música agora! Mas as contrações estavam muito fortes e no intervalo eu simplesmente não conseguia pensar em nada, não queria nem falar para não desperdiçar aquele tempo tão precioso de descanso. Ju já tinha me falado dos sinais subjetivos do trabalho de parto, isto é, pelo humor e comportamento da mulher, pode-se ter uma ideia sobre em que fase o trabalho de parto está. E isso é interessante, pois desde aquele momento de espera, quando a dilatação chegou aos 8, meu humor de fato mudou. Eu não estava mais conversando qualquer coisa com o pessoal, queria apenas me isolar, ficar calada e concentrada.

Minha médica chegou e pediu para fazer um toque, foi um martírio subir na cama do hospital, me deitar… depois do toque ela disse que ainda tinha um caminho a percorrer e eu fiquei passada: “um caminho? como assim? Não já estava quase nascendo?” Desde que chegamos no hospital criou-se a expectativa de que iria nascer logo e quando a GO vinha examinar sempre dizia que tinha mais um tempinho ainda… mas no mundo real tudo transcorreu rápido, em apenas 2 horas você nasceu.

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Auscultando seu coração entre as contrações.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-7

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-6

Durante todo o trabalho de parto seu pai esteve presente me dando força e carinho.

Seu pai achava que eu estava além dos meus limites. E estava mesmo. Mas isso é que é lindo no parto uma constante superação de limites até chegar ao prêmio.

Seu pai achava que eu estava além dos meus limites. E estava mesmo. Mas isso é que é lindo no parto uma constante superação de limites até chegar ao prêmio.

Eu me perguntava que tempinho era esse e se eu teria forças para aguentar, já estava exausta, querendo acabar com aquilo. Não pensava em pedir analgesia porque desde o início descartei veementemente essa possibilidade. A cada contração forte eu pensava: “Vamos, isso tem que acabar! Não estou aguentando mais. Calma, Heloá, passou. Espera a próxima e aí você decide o que fazer”.   Estava muito concentrada em deixar a dor vir e passar. Mas quando algo me desconcentrava eu olhava em volta e via que tudo estava indo bem, o chuveiro aliviava as dores, pessoas de confiança estavam comigo, tocavam as músicas que eu tinha escolhido e voltava para a minha partolândia.

Me senti um pouco fraca, pedi o chocolate e continuei me revezando entre as posições, Juliana sugeria a bola, mas em algum momento eu achei que seria incômodo sentar nela. Usei muito a banqueta no chuveiro, água bem quente nas costas, na barriga aliviava bastante as dores.

Mais um toque e nele a GO retirou um rebordo de colo. Eu sabia o que aquilo e que ia doer, mas depois dele as coisas iriam evoluir mais rápido.  Doía muito continuar deitada na cama, mas eu não conseguia me mover para descer. Em algum momento eu disse: só queria conseguir sair daqui. E Juliana disse que seria bom porque eu estava há muito tempo deitada. Me levantei e fui para a banqueta no chuveiro.  Depois de algumas contrações e eu senti uma coisa “estranha” descendo, vindo encaixar nas minhas pernas… fez um ploft! e escorreu uma água, pensei: a bolsa estourou. E num milésimo de segundo saí da partolândia para respirar aliviada e feliz, estávamos perto do fim! E como “aquilo” permaneceu entre minhas pernas, resolvi tocar e surpresa: algo macio estava lá. Pensei: a bolsa estourou e a cabeça fez um tampão (tudo bem estudado antes do parto! hehehe)

Chamei Juliana para dizer que achava que sua cabeça estava ali já e ela me perguntou: é duro? Eu disse: duro não, é macio. E ela: mas a cabeça é dura… E eu: “Ah, mas é macio! Vem ver então!”

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-13

E ela hesitou um pouco, pois não é apropriado que a doula realize toque nas parturientes, mas já estávamos tão intimas àquela altura que ela cedeu: é sim a cabeça! Vamos para a cama Dra. G não vai conseguir pegar seu filho aí!

E lá fomos para a cama, logo chegaram a GO, a neonatologista e depois eu soube, algumas enfermeiras (pra assistir?!). Do meu lado direito estava a doula, do esquerdo, seu pai. Eu me contorcia e me agarrava na blusa e nos braços dele, precisava da força dele também.

Senti uma queimação no pé da barriga, pensei que o círculo de fogo arderia mais. Houve uma pausa longa entre uma das contrações, fiquei ansiosa pela próxima, queria terminar logo. Parecia que tudo tinha acabado, mas ainda não era hora de descansar. Estava tocando “Comfortably Numb” do Pink Floyd. A GO pediu para desligar as luzes, ficou apenas um foco em cima da cama. Achei a penumbra relaxante.  Eu senti meu períneo alargar, Juliana me falava para relaxar mais. Eu tentava.

E veio o momento mais marcante: no final de uma contração longa eu joguei meu corpo para trás para descansar, mas como rolou uma tensão entre a equipe médica (porque a GO não estava conseguindo achar os batimentos do seu coração, mas afinal você já estava nascendo…), me veio a ideia de terminar aquilo e junto veio uma força tão grande, mas tão grande! Na hora eu não acreditava que eu estava conseguindo fazer aquela força toda para terminar o expulsivo. Pensei na árvore que visualizei no colo, pensei na força de todas as mulheres, me agarrei em algo maior que eu e então você nasceu.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-15

Coisa mais linda!

Coisa mais linda!

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-14

Renascidos

E veio direto para o meu colo. Sem aspirar, sem colírio. Chorou para dizer que estava tudo bem, logo se acalmou.

Um nascimento respeitoso de verdade.

Ainda tomou a injeção de vitamina K no meu colo, mas nem chorasse, filho!

Olhei seu corpinho, saiu todo limpinho, nem vérnix nem sangue…  me vi refletida nos teus olhos, quis reter na minha memória aquela imagem para sempre. Você me olhando e eu te dizendo repetidamente: “Meu filho, como você é lindo! A gente conseguiu! Você é tão lindo, meu filho! A gente conseguiu!”

Parto Heloa - Nascimento Vinicius

Disse que não conseguia chorar, Cíntia disse que todos chorariam por nós naquele momento.

Quando seu pai cortou o cordão umbilical, este já tinha parado de pulsar. A placenta saiu naturalmente. Você mamou um pouquinho e passou a noite tranquilo, não chorou nem mais uma vez. Foi para o colo do seu pai e eu fui levar um pontinho, pois um vaso havia rompido. Estávamos em êxtase. Eu sentia uma energia incrível, queria pular, gritar, contar para todo mundo que aconteceu ali. Como eu poderia descrever o momento mais maravilhoso da minha vida?

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-16

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-17

Durante meu trabalho de parto eu não dava conta do que estava acontecendo, em que fase estávamos, se você estava encaixado, girando, passando pela bacia… mas meu corpo registrou todos esses movimentos, as sensações que eles causaram, a dor (claro que senti dor, mas jamais diria que sofri!). As vezes sinto saudade desse dia, do parto, das contrações. Queria reviver tudo de novo, do jeitinho que foi, sentir mais uma vez o que é indizível.

Depois Juliana comentou que em hora alguma foi ouvida a palavra dor. Achei isso tão bonito. E fiquei feliz porque a memória que fica não é da dor, é de algo maravilhoso acontecendo, algo sobrenatural que toma conta de nós, uma força imensa, uma força incrível. Tão incrível que juro, as vezes não acredito que fui capaz, que sou capaz. Mas sim, eu te pari, meu filho, eu te trouxe para esse mundo, com a graça de Deus, e olhar o universo, atravessamos vidas. Renovamos as nossas.

Te amo e te agradeço por essa experiência linda. Iniciamos nossas vidas da forma mais bonita que podia ser.