“por que você se tornou doula?”

Esse texto-desabafo eu escrevi no começo de julho e fiquei adiando a publicação… por falta de tempo e por não ter certeza se seria entendida, mas enfim… ei-lo aí

………….

Sexta-feira saí para fotografar uma gestante, mas a chuva nos apanhou no momento em que fiz o primeiro clique. Resolvemos esperar um pouco e enquanto a chuva não cedia,  a gestante, sua mãe e eu conversávamos qualquer coisa para passar o tempo. No meio da conversa a mãe disparou: já que não estamos fazendo nada, me conte aí: afinal, por que você resolveu ser doula?

Hã? Oi?

Sou doula há mais de um ano e já respondi essa pergunta algumas vezes. Mas, para minha própria surpresa, titubeei e a primeira coisa que consegui responder foi:
Pois é, boa pergunta. Afinal por que resolvi ser doula? 
As palavras saíam da minha boca à medida que eu procurava alguma resposta sincera, que dissesse a verdade, o motivo fundamental e certeiro de eu ter me tornado doula.
Tão assim de supetão não encontrei outra forma de responder a não ser o “velho texto batido”:
“para ajudar outras mulheres e proporcionar a elas o que eu recebi no parto do meu filho.”
Mais uma vez as palavras saíam e eu me arrependia delas, não pude frear a autocrítica: afinal quem sou eu para pretender “ajudar” uma mulher e lhe “proporcionar” algo que ela não pudesse criar por si mesma? Como se eu pudesse ter uma chave, uma sabedoria mágica ou qualquer coisa que fosse salvadora e importante?
Sei lá, de repente tudo aquilo me soou estranho porque me dei conta que eu não ajudo mulheres (sim, eu ajudo, claro! mas essencialmente EU não faço nada além do que ela própria conseguiria fazer ou acessar). O trabalho de doula não vem de mim, do meu intelecto, não é algo que eu produzo. Não tenho expectativas de carreira profissional, não tenho planos nem metas quanto a isso. As vezes eu realmente me pergunto: como se deu essa escolha? Em que momento eu decidi?
Sinceramente, conscientemente eu não decidi nada. Nunca desejei, nem grávida, nem após o parto, conscientemente ser doula. As coisas foram acontecendo e, isto sim é verdade, decidi me levar por elas. E bom, não sei onde li a frase, mas me apego a ela: o caminho se faz caminhando. 
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Recentemente muitas pessoas vieram me perguntar sobre o trabalho de doula, como é, se é bom, se é bem remunerado, se vale a pena o investimento, etc. Se eu fosse responder com a razão, moldada culturalmente nessa sociedade ocidental, eu diria: é uma merda.  Afinal, fisicamente é muito cansativo, a equação tempo e disponibilidade versus remuneração não bate, além do não reconhecimento e situações de stress que enfrentamos. 

Eu nunca responderia assim tão diretamente “é uma merda” porque sei (pois vivencio) que ser doula contempla uma satisfação em si que não pode ser mensurada pelo que se espera de um trabalho/carreira de sucesso.
No entanto, urge em mim a necessidade de dizer: ser doula não é nadar num mar de rosas cheios de bebês fofinhos e mulheres iluminadas e relatos de partos emocionantes. Não é.
Para além de tudo ser doula é se confrontar diariamente. É resgatar um feminino esquecido, machucado. É mergulhar em suas próprias águas para conseguir entender as águas turbulentas de uma mulher parindo. E mergulhar em si. E rever nossos naufrágios e tesouros submarinos não é fácil. É lidar com muitas expectativas e consequentemente decepções, é trabalhar minuto a minuto o ego, a vaidade, a humildade.
E então, por que eu me tornei doula, afinal? – continuava martelando…

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Essas reflexões me levaram a concluir que eu “resolvi” ser doula porque eu tenho um chamado. Não é algo que se escolhe racionalmente. Esse chamado que me leva a estar em círculo com as mulheres, compartilhando com elas desse momento sagrado do parto e do ser-mãe. Me reconectando a tudo que vivi e acessei na sacralidade do parto de Vinícius, resgatando minha ancestralidade, minhas origens. Minhas e de todas as mulheres que vieram antes de mim. Ah, isto sim é claro como água… E aí eu tenho certeza que elas é que me ajudam iluminando o caminho pelo qual percorro para encontrar quem eu sou, quem eu fui e o que eu vim fazer aqui. Em cada parto, em cada grito de dor, nos olhares em transe que elas devolvem, nos corpos se contorcendo eu me reconheço enquanto fêmea, mulher-selvagem, e acessar essa memória produz o maior sentimento de pertencimento que eu jamais senti: nesse momento miraculoso eu reencontro minha manada, minhas irmãs. Quem proporciona o que a quem afinal?

Eu resolvi ser doula porque eu estive lá uma vez e não consegui mais sair. 

E aí se eu fosse responder com base na minha emoção, levando em conta tudo o que eu vivencio sendo doula, eu diria: ser doula é uma reinvenção da própria vida. 
E para terminar este texto  volto à conversa que lhe deu início e que por sua vez terminou com um lindo relato: a mulher que me fez a pergunta, no momento seguinte começou a me contar um pouco de sua história. Era neta de parteira, vivia no interior de Minas Gerais, nasceu em casa, assim como todos os seus irmãos, pelas mãos da avó. Relatou como era quando a mãe entrava em trabalho de parto, sendo acompanhada apenas por sua própria mãe e pelo marido, que renovava a água quente da bacia. O bebê nascia e os irmãos sabiam pelo choro que se ouvia ecoando pela casa. A mãe cumpria rigorosamente o resguardo de 40 dias dentro do quarto e ao sair apresentava o bebê à natureza do sítio onde moravam.
Minha amiga gestante, perguntou: apresentava o bebê à natureza ou a natureza ao bebê? 
– O bebê à natureza,
– Como uma oferenda?
– É, como uma oferenda. Levava o bebê no colo e abria os braços assim, mostrando o tudo em sua volta. 
À medida que ela falava a imagem se formava na minha cabeça. Me emocionei. Que coisa mais linda, apresentar o bebê à natureza, harmonizando essas duas forças que são parte de um todo…
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a África em mim

Antes eu tinha um tremendo preconceito contra o candomblé. Desses que muita gente tem. E também tinha medo. Morria de medo só de passar em frente a uma casa de produtos para macumba. Ave Cruz! Preciso nem me alongar, pois sei que muita gente me entende. rsrs

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Até que um dia, num encontro de mulheres, reunidas na praia, algumas começaram a cantar louvores pros Orixás e eu parei ouvindo aquelas músicas, prestando atenção nas letras que falavam de amor, de beleza, das águas, das flores, do mar… e aquelas músicas me trouxeram paz e eu pensei: como pode uma coisa tão linda dessas ser algo ruim ou que me dê medo?
 E quando eu voltei para a minha casa, decidida em conhecer mais o candomblé, conversei com uma amiga que estava iniciando na umbanda e me surpreendi com as coisas que ela me falou: da festa e a da alegria na celebração dos orixás e que os orixás são deuses e humanos, que cada uma refletem personalidades humanas… que são verdadeiros arquétipos. E por esse motivo, quando comecei a me aprofundar no assunto, ouvindo as músicas, lendo a respeito, rompendo meu preconceito e meus medos, fui encontrando paz e felicidade nesse espaço, nessa forma de encarar a espiritualidade e que eu desconhecia.
Fui ao terreiro (que eu julgava ser um grande quintal a céu aberto onde corriam galinhas pretas! tamanha a ignorância!) e pedi pra mãe de santo jogar os búzios para me dizer quem são meus orixás. Oxum me guia, Ogum vai à minha frente e Iansã me protege atrás. E sabendo que essas três forças me acompanham mergulhei num autoconhecimento profundo, num autoreconhecimento, na verdade.
mamãe oxum

mamãe oxum

Eu, que sempre maldisse meu jeito “meigo” e as vezes “passivo” de ser, vi  em mim a doçura de Oxum, mãe das águas doces, e passei a bem dizer a doçura que aflora em mim e chega no outro através dos dons dessa deusa.
E passei a perceber também o quanto as pessoas se referiam a mim como uma pessoa doce e cada vez que eu ouvia isso, em minha mente, agradecia e referenciava a Oxum.
Por outro lado, e para minha surpresa, Ogum e Iansã, que são personalidades fortes, orixás de luta e guerra estão comigo e pensando nisso parei para observar que na minha vida, e apesar do que eu chamava de passividade, sempre fui aguerrida para abrir meus caminhos e bancar minhas escolhas, seja como for. Estou lá na luta, na coragem que a força desses orixás me dão… e é motivo de orgulho, para mim, estar ao lado deles, ser guiada por eles.
Quem já me viu com raiva, cega de fúria, sabe que como mamãe Oyá eu faço cair trovão e tempestade! 😉 hehehehehe
mamãe Iansã

Iansã

pai Ogum

 Ogum

O primeiro candomblé que eu fui foi mágico de tão lindo! Fiquei sentada olhando aquelas pessoas andarem em círculo, vestidas de branco, na pele a ancestralidade marcava, os atabaques estalando a a batucada e aquelas vozes cantando e louvando animadamente em iorubá. Pisquei o olho e num relance era como se eu estivesse vendo os negros da escravidão, ao redor de uma fogueira, procurando alento e alegria naqueles cantos, tentando reproduzir um pouco de suas origens, matando as saudades de suas terras, curando as feridas no coração e na carne que aquela extração selvagem lhes trouxera. Tive compaixão por aquelas almas que não conheci, mas que estão no meu sangue, na minha descendência, certamente. E é por eles, pela resistência deles, que todo dia eu me provoco a romper um pouco mais da minha ignorância, do meu preconceito ridículo e tento me aproximar e conhecer mais a cultura dos negros no Brasil.
Fiz esse post na esperança de que toque algum coração, para quem queira desmistificar essa religião de matriz africana e tão nossa!
Vamos viver na paz do amor de Deus. Axé!
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a saudade de todo dia

Quando eu era criança passava as férias na casa dos meus avós maternos. Por muito tempo também moramos perto deles, quase vizinhos mesmo e era comum passar as manhãs ou tardes por lá… sabe como é casa de vó, sempre um terreno fértil para brincar e ser paparicada!

No fim da tarde meus avós tinham o costume de colocar as cadeiras no terraço e ficar lá curtindo a brisa do entardecer. Minha Vó ficava lendo a Bíblia dela, um livro enorme de capa preta e com umas figuras um tanto assustadoras para uma criança de 5 anos, como eu rsrsrs. Nesses momentos ela também costurava, fazia crochê, bonecas de pano (não me perdoo por ter perdido a minha) e sobretudo fuxico! Só de lembrar me vem lágrimas aos olhos… ela me ensinava a alinhar aquelas bolinhas de retalho, lembro tão bem das suas mãos fazendo o movimento sinuoso da agulha no tecido… E dentro de sacos e mais sacos de plástico ela guardava retalhos, linhas, agulhas e uma tesoura enorme, que hoje eu guardo de recordação.

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uma das almofadas de fuxico que Vó fez

Tenho em casa almofadas de fuxico que Vó fez…  os meus fuxicos nunca ficaram tão bem feitinhos quanto os de Vó, bem franzidinhos e planos… as estampas combinadas sem nenhum planejamento, mas ainda assim num resultado tão harmonioso…

Lamento tanto não ter tido mais tempo para conversar com Vó sobre parto, queria tanto ter ouvido as histórias… ela faleceu quando eu estava com 3 meses de gestação e nem sonhava ainda com esse mundo dos partos naturais… mas sei que ela está comigo sempre, no meu sangue, nas minhas células. Na minha força. Minha avó veio em pensamento durante meu trabalho de parto para me dizer que conseguiria, assim como ela. Sua imagem me mostrou que eu seria forte… Penso muito como seria legal se ela tivesse conhecido Vinícius, posso imaginá-la sorrindo feliz, com Vini no colo e orgulhosa de ter um bisneto tão lindo e gordinho.

Mas eu iniciei esse post para falar de outra saudade que consegui “materializar” recentemente: o pão que meu avô fazia. Ele faleceu há 14 anos. E durante todo esse tempo além da saudade da presença dele – sempre tão bondoso- eu sentia muita saudade desse pão. Principalmente porque ele fazia quando eu ia lá e ainda fazia mais um para eu levar para casa. Demorei para encontrar a receita, apesar dela ser nada sofisticada. Um pão tão simples quanto meu avô, homem da roça e com quem eu também queria ter tido mais tempo para apreender o saber das coisas naturais…

No primeiro dia que fiz esse pão e deu certo eu não cabia em mim de felicidade, o cheiro, a textura, tudo igual ao que eu venerava durante a minha infância. E como é bom matar a saudade! Pena que só pude matar a saudade do pão…

o pão de Vô :D

o pão de Vô :D

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

o mesmo pão, mas com frutas cristalizadas no recheio

andar em Campina

 

quando eu tinha  de 18 anos e muitos cabelos na cabeça

quando eu tinha de 18 anos e muitos cabelos na cabeça

Ontem fui ao centro da cidade comprar algumas coisas e ao retornar para casa, pelo caminho percorrido milhões de vezes, uma brisa quase fria encheu meu coração de saudade. Fechei os olhos marejados e me transportei mentalmente para o tempo do colégio quando eu fazia este mesmo caminho diariamente. Sob aquele sol de meio-dia, o bafo quente do ar alternava uma brisa agradável vez ou outra, e eu voltava para casa agarrada ao meu fichário, que sempre tinha um livro dentro e era recheado dos bilhetinhos que trocávamos durante as aulas. Voltava com fome, os olhos ardendo de sono. Mas quando eu dobrava a esquina da 13 de Maio e entrava na Frei Caneca, a sensação era de paz, de alívio…

Lembro das vezes que envolvida pelo calor e suor do meio-dia, olhava a rua, avistava minha casa no final e me sentia feliz.  Lembrei com carinho dos meus amigos, das tardes que passávamos lá em casa, da vez que andamos com Arthur Felipe vendado pelo centro da cidade (para comemorar seu aniversário). Dos banhos de chuva no meio da rua que eu tomava feliz e liberta pela água que encharcava. Das vezes que eu saía andando sem destino à tarde, e nos meus devaneios românticos, parava numa praça e lia algumas páginas de um livro. Que saudades desse tempo!

Andar pelas ruas de Campina é um prazer inexplicável, que – sei – muitos campinenses entenderão.

Quando eu precisava ir ao colégio à tarde, voltava por outro caminho. Do outro lado, descendo a ladeira eu avisto um serra, prédios, e um céu quase sempre azul ou cinza pálido, o entardecer de Campina. A brisa fria. O silêncio ou o trânsito que compõem a trilha dessa caminhada.
Ontem eu chorei de saudade. 

O dia que você nasceu

Esse é o meu longo relato de parto. Eu não soube resumir o dia mais incrível, maravilhoso e excepcional da minha vida.

Nunca saberia.

Vinícius um dia lerá essa história e tem que ser assim com quase tudo que me lembro, com tudo que quis escrever.

Está dividido em partes. Quem quiser ler apenas o relato, pula logo para o tópico “O dia em que você nasceu”.

Fiquei feliz e realizada, pois meu plano de parto foi totalmente cumprido. Entregamos uma cópia à GO, levamos outra para a maternidade. Essa cópia minha doula mostrou à neonatologista e ela seguiu à risca, Vinícius nasceu, veio para o meu colo e não saiu mais de perto da gente. Ela deixou avisado no berçário que não era para dar banho; medir e pesar (horas depois) no apartamento ao lado dos pais. É importante fazer o plano de parto para ao menos visualizar e expressar seus desejos quanto ao parto e procedimentos que serão realizados (ou não).

Deixo aqui o plano de parto que fiz em conjunto com meu marido e com minha doula. Quem quiser pode baixar aqui.

 

“Meu filho,

como você sabe o seu nascimento não foi planejado, mas sim, muito desejado. Ah, como eu curti a gestação… amava sentir você mexer, sentir você em mim. Quantas tardes eu chorei emocionada por simplesmente te ter ali do outro lado da pele?

Eu não me sentia muito a vontade de falar com a barriga, confesso. Mas mentalmente conversávamos muito! Rsrs Comecei a ler O Pequeno Príncipe para você, e cantava muito. Te dediquei tantas músicas…

Você fazia com que eu me sentisse especial com aquela barrigona linda, bem pontuda. Eu andava orgulhosa por aí.

Ai, ai… mas hoje eu não quero falar da gestação. Quero falar do seu parto, do dia que você escolheu para nascer.

A decisão pelo parto natural

Chegou um momento na gravidez que eu tinha que começar a pesquisar sobre o parto. Eu, como a maioria das mulheres, morria de medo do parto, de algum de nós morrer, sei lá… mas eu sabia que esse era um tema importante e que merecia muita reflexão. Por coincidência meses antes de engravidar, numa conversa entre amigas, uma delas falou sobre a crueldade que é tirar o bebê antes do tempo, marcar uma cesariana e tal. Indicou o blog mamíferas para lermos, pois tínhamos que nos preparar para isso um dia. Interessante. Fiquei pensando sobre isso, e na época já havia concluído que fosse qual fosse a via de parto, eu esperaria entrar em trabalho de parto. Agendar jamais. E esse foi o ponto de partida.

Assim, eu e seu pai resolvemos assistir ao documentário Parto no Brasil: A caminho da humanização. Acho que esse documentário é voltado para os profissionais da área de saúde porque as cenas são bem explícitas. Foi até engraçado porque eu e seu pai ficamos passando mal no sofá, o sangue desaparecendo do rosto. heheh Se não estivéssemos sentados, acho que teríamos desmaiado! De tudo, porém, o que mais me chocou não foi ver uma episiotomia, mas simplesmente ver a preparação de uma mulher para uma cesárea. Ver uma enfermeira cobrindo de iodo uma barriga enorme, o cenário de um centro cirúrgico, a mulher deitada, campo erguido… Meu deus! Na mesma hora pensei: eu não sou obrigada a passar por isso. Quero ter escolha, quero poder decidir meu parto.

Na consulta seguinte perguntei para a ginecologista que estava me acompanhando se ela fazia parto normal, e ela piscou um segundo e disse: “Faço. Se estiver tudo bem eu faço…”   no momento que ela respondeu- eu senti no meu coração que ela não faria. Não tive confiança na resposta dela. Talvez por isso, ela tenha começado a falar sobre os partos que ela fazia no HU e que não faz em consultório porque as mulheres não  queriam. Tentando me convencer de que ela era a favor do parto normal, disse até que na sua 1ª gestação tinha tentando, mas que depois de X horas sem dilatação teve que fazer uma cesárea

Essa médica era muito boazinha e tal, mas perdi a confiança nela naquele momento. Por outro lado, não conhecia outra médica aqui em João Pessoa, não conhecia sequer alguém que tivesse tido um parto normal para me indicar uma equipe. Me senti meio perdida. Me deu uma certa ansiedade essa incerteza e até que chegasse a próxima consulta era tempo demais. Fiquei com medo de ficar sem opções e resolvi agir. E procurar. Comecei a procurar aqui em João Pessoa por histórias de parto normal, doulas, enfim… sei que cheguei ao blog Reparir. Nele havia um relato de parto normal, feito aqui em João Pessoa, na Clim, com doula e tudo. Vibrei de felicidade! Saí mandando mensagem para a mãe,  para a doula e para um grupo que achei no Facebook… E aí na mesma tarde (10 de janeiro) Juliana respondeu a um dos meus e-mails. Eu estava com 21 semanas de gestação. Marcamos um encontro e antes dele acontecer eu já havia decidido que queria uma doula. Eu já havia me convencido da imprescindibilidade dessa profissional: alguém que te passe confiança e segurança, mas que não esteja emocionalmente tão envolvido no momento do parto quanto o marido, por exemplo. Alguém que por causa desse distanciamento emocional pudesse ser meus olhos e minha boca na hora do parto, que fosse a guardiã dos meus desejos e me ajudasse a realizá-los.

Na reunião ela nos indicou uma Roda de Gestantes facilitada por uma médica parteira. Ficamos um pouco confusos quanto à frequentar essa roda ou não, até que soubemos que Luísa (prima do seu pai) havia parido Joana (num parto natural hospitalar). Flávio telefonou para ela, ela nos contou alguns detalhes e combinamos de ir à Roda juntos.

O empoderamento: construindo a vontade de parir

E aqui tudo começa a tomar forma para o desfecho que tivemos. A nossa primeira roda foi o colo de Lavínia. O colo é um momento lindo onde as participantes da roda se despedem da barriga da grávida que está pertinho de parir. Lavínia estava com 39 semanas, esperava Joaquim. Ela deitou-se no meio de um círculo de mulheres que cantavam, massageavam e diziam palavras bonitas, encorajando-a para o parto. Que lindo! Saí de lá emocionada e feliz que por ter encontrado aquele grupo.

No dia 28 de janeiro me consultei com a médica que acompanhou o parto de Luísa. Fomos eu e seu pai e saímos de lá mais tranquilos, pois havíamos encontrado enfim uma ginecologista que realmente faria o parto. Mudei de médica então.

Semanas depois a Juliana resolveu iniciar com Cíntia a Roda Gestar e Maternar, uma reunião de mães e gestantes com outro foco. E assim seguimos nossa gestação: frequentando as rodas, trocando experiências com outras grávidas, compartilhando as emoções desse momentos, aprendendo e decifrando tanta coisa…

O primeiro dia de roda Gestar e Maternar. :)

O primeiro dia de roda Gestar e Maternar. :)

Nessa época comecei a ler o livro “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra” da Laura Gutman e foi aquela catarse. Acho que nenhuma mulher sai incólume a esse livro. Me encontrei de vez na gestação. Foi uma fase muito gostosa, muito feliz!

Com 36 semanas de gestação viajamos para Pipa. Foi a nossa despedida da barriga, queria descansar, olhar o mar e curtir aquele finalzinho. Foi uma viagem tão boa! Me emociono só de lembrar… no último dia sentei em um rochedo para ver o sol se pôr, para me conectar com você, meu filho. Agradeci por você existir, pela sua vida. Agradeci ao universo e a você por essa experiência maravilhosa. Eu te disse que estava tudo pronto e que você viesse na sua hora. E eu me dei conta que essa seria a primeira coisa que saberíamos sobre você: a sua hora. A espera ficou muito mais doce quando me deparei com a beleza de descobrir a sua hora de nascer. Confiar em você e esperar.

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36 semanas de gestação

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Confiando ao universo a nossa hora. :)

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Eu sempre tive o pressentimento que você nasceria no dia 9 de maio. Você nasceu no dia 10, mas a dilatação já havia começado dia(s) antes. O dia 9 não foi o dia do seu nascimento, mas foi o dia que eu entendi que precisava deixar você nascer… E de todo o processo, acho que esse foi o aprendizado mais lindo.Marquei com as meninas da Roda meu colo para o dia 7 de maio. Foi um momento mágico! Enquanto elas me embalavam eu fechei os olhos e falei para você sentir aquele momento, guardar aquela energia, pois iríamos precisar dela. E imaginei uma grande árvore, uma árvore ancestral à todas as mulheres e ela se ligava a mim pelas mãos e palavras que as meninas iam me dizendo. Galhos e raízes se estendendo para me passar aquela energia. Foi tão lindo,  tão lindo… Me senti tão acolhida. Lembro que Mei começou o colo dizendo: “Vamos dar colo a quem em breve dará muito colo também.” Na madrugada escrevi esse texto:

“Hoje foi meu colo na Roda. Foi um momento muito especial. Fiquei deitada no meio da roda e as meninas ficaram me massageando, cantando e me encorajando com palavras. Me conectei com Vinícius, amei aquele momento. Quis reter toda a energia daquelas mulheres que estavam ali me apoiando e me imaginei que éramos árvores cheias de raízes, nos conectando através dos tempos. Foi lindo e emocionante, me senti muito acolhida, senti Vinícius muito acolhido. Toda grávida merece receber um colo assim. Muito colo para dar ela terá pela frente. E nesse momento tudo que sinto é isso, gratidão. Vontade de retribuir e orgulhar essas mulheres. :) Quando acabou o colo comecei a sentir contrações. Depois de um tempo elas foram ficando mais incômodas, e quando chegamos no carro para ir embora eu senti uma contração acompanhada de uma cólica mais forte. Ficamos felizes, aquele sentimento de que enfim o TP começaria ficou mais forte. Sempre tive a intuição de que ele nasceria dia 9/05. Não consigo me visualizar grávida por mais 1 semana ainda. Acho que todos os sinais e pressentimentos apontavam para isso: Vinícius vai chegar essa semana. Vem, meu filho! Vem, meu amor! Depois que saímos da Roda fomos jantar e em seguida ficamos caminhando na praia. Continuei sentindo as contraçõe e mais algumas cólicas. Depois disso ainda fomos fazer uma pequena feira, com comidas especialmente para o parto. :) Chegamos mortos de cansaço em casa. Tentei dormir, mas comecei a sentir mais cólica e Vinícius mexendo de uma forma estranha, senti um ploft! dentro de mim e fiquei bem atenta sentindo esse movimentos estranhos e tão gostosos. Vi que não ia dormir logo, então resolvi levantar para terminar de ler o livro “Quando o Corpo Consente” e aí resolvi começar a escrever e ouvir algumas músicas para relaxar.”

A semana antes do parto

No dia 8/05 (quarta-feira) senti muito sono! Acho que era meu corpo se preparando para o que viria a seguir… de noite fomos caminhar na Praça da Paz e durante toda a caminhada eu senti contrações. Cheguei em casa um pouco mal humorada. Depois de tantos episódios de contrações e movimentações estranhas (no domingo eu tinha sentido um cloc! na bacia) eu comecei a me sentir muito ansiosa, aflita, confusa. Eu sabia que não poderia perder o equilíbrio das emoções, eu precisava me manter centrada. Em tantos relatos a gente vê como é crucial a mulher manter a mente tranquila para deixar o corpo trabalhar. E eu não poderia, não queria ser a minha própria sabotagem. Naquela madrugada tive um sonho muito interessante: eu estava presa numa sala de aula, tinha umas crianças e eu entrava lá morrendo de rir dizendo que a porta estava fechada e não conseguia sair. Nisso eu coloquei a mão na minha perna e peguei uma chave, a chave que abriria a porta. Acordei no meio da madrugada e pensei: esse sonho quis me dizer alguma coisa. Voltei a dormir.

Chegou a quinta-feira, o dia 9. Acordei bem angustiada, chorei um bocado. Durante a semana algumas pessoas haviam perguntado se não estava perto de nascer, quando nasceria… essas coisas para deixar a gente nervosa (não propositalmente, claro). A semana ia passando e por mais que minha intuição dissesse que você nasceria dali há uns dias, ia crescendo um medo muito grande de chegar às 40 semanas e aí ter que “negociar” o parto com a ginecologista. Fiquei pensando no sonho da madrugada e mandei uma mensagem para uma amiga muito querida, que é doula. Uma pessoa muito sensível e especial. E ela (Luna) me disse assim:

“Se for preciso vá se isolando aos poucos e naturalmente para proteger-se de tanta pressão externa para marcar cesariana. Fique quietinha no seu ninho conversando e se conectando bem intimamente com Vinícius… beijos e tô sim com toda certeza do mundo torcendo por vcs e entregue e aceite aquilo que for para vivenciar. Neste momento o universo sagrado e poderoso esta agindo por nós…

Fui tomar um banho e refletir sobre isso. E ali no chuveiro onde chorei a emoção de descobrir a gravidez, onde havia chorado as oscilações da gestação, pedi a Deus e ao universo que acalmasse meu coração e me dessem serenidade. Que eu não sabotasse o processo do parto, que minha mente não me atrapalhasse, que eu soubesse esperar. Aceitei enfim que a gestação teria que terminar, que chegaria ao fim e eu me permitiria isso, pois eu era a chave desse processo. Resolvi então, não fazer a cardiotocografia marcada pr’aquele dia, um exame que a GO pediu, mas que pode dar falsos indicativos de urgência para o parto. Senti que não deveria mesmo fazer e agradeço à minha intuição por isso. Sabe-se lá que rumo isso poderia dar.

Resolvi relaxar, entreguei ao universo. Outra coisa interessante é que senti muita vontade de terminar de ler o livro “Quando o Corpo Consente”. Passei a tarde empenhada nisso e à noite, meio desanimada, fui caminhar de novo com Flávio e continuei tendo as contrações.

O dia em que você nasceu

Na manhã seguinte (dia 10/05) fomos para uma consulta de rotina com a GO. Me perguntou sobre o exame, eu disse que não estava afim de fazer. Ela disse que tudo bem, mas se chegasse nas 40 semanas, eu faria então. Ok. Perguntou como eu estava e eu falei que estava um pouco desanimada por ter sentido tantas contrações durante a semana. Ela então me perguntou se eu queria fazer um toque para ver como estava o colo e tal. Concordei.

E surpresa: já estava com 3cm de dilatação! Ela falou que isso era ótimo, afinal eu ainda não tinha nem entrado em trabalho de parto, nem sentido dores… Pensei: se continuar assim, melhor. Lembro que ela falou que eu tinha a bacia larga e boa para o parto e que estava tudo ótimo. Mas que aqueles 3 cm não significavam muita coisa, o parto poderia demorar para acontecer. Me avisou que viajaria dali há uma semana e que se necessário uma médica amiga dela me atenderia em sua ausência.

Saí de lá feliz pela dilatação, mas não quis me animar muito e começar toda aquela expectativa de novo. Não fiquei ansiosa. Fiquei tranquila, tudo daria certo. Ainda no carro fiquei sentindo cólicas, mas creditei o incômodo ao exame de toque. Lembro que pegamos um engarrafamento para chegar em casa… lembro que cheguei morrendo de sono, pois tinha dormido muito mal na noite anterior. Achei que ia dormir a tarde todinha. Mas antes, resolvi terminar umas lembrancinhas e assistir a um episódio de Arrested Development. Continuei sentindo cólica pelo resto da manhã e pensei em tomar um banho antes de ir dormir para relaxar e ver se a dor passava.

E lá no chuveiro, mais uma vez, perdida nos meus pensamentos de repente percebo que aquelas contrações estavam muito estranhas. Vinham mais ou menos no mesmo intervalo e duravam quase o mesmo tempo também. “Meu deus, isso é o trabalho de parto!” Fiquei um tempo incrédula, quis chorar, quis sorrir. Vi um pouco do tampão escorrendo pelo ralo… “Ai, que lindo!” Agradeci por esse momento e te disse mais uma vez: “Pode vir, meu filho! Estamos esperando você, tudo está preparado para você chegar…”

Saí do banho meio sem saber o que fazer, procurava o celular e não achava. As contrações iam ficando mais dolorosas e estar sozinha em casa foi me dando um desespero. Pedi, pelo Facebook, para sua tia Renata me ligar e ela me disse que estava em Recife e não tinha créditos. Kkkkk! Ah, se ela soubesse o que estava acontecendo! Eu tinha decidido não avisar a ninguém da família ou amigos quando entrasse em trabalho de parto pois, eu pensava que a preocupação deles poderia me deixar preocupada por tabela e isso atrapalharia a progressão do trabalho de parto. Viu? Quis de todas as formas me preservar para me conectar só com você nesse momento tão nosso.Mandei mensagem para várias amigas e nenhuma me ligava. Até que, uma delas (Helayne) liga e finalmente eu acho meu celular para ligar pro seu pai. Mas liguei para Juliana antes (nossa doula) e ela me falou para observar, que eu ligasse pra Flávio e depois nos falávamos. Liguei pro seu pai, acho que ele ficou surpreso, pois tínhamos nos visto há pouco tempo e estava tudo tranquilo. Tentei cronometrar as contrações (de 3 em 3 minutos, duração de 40 segundos) e liguei para avisar à GO. Ela disse para eu observar e qualquer coisa ligasse para ela, pois PODERIA ser sim o trabalho de parto.

Ai, Jesus! Poderia? É sim, criatura! –  tive vontade de dizer.

Liguei pra Juliana para dizer como estava, disse que Flávio ia vir para casa e a gente se falava. Ela estava de folga naquele dia, achei tão providencial isso. Rsrs

Voltei para o chuveiro na intenção de aliviar as dores e esperei Flávio chegar.

E foi tão lindo quando seu pai chegou… me lembro bem. Ele emocionado foi lá no chuveiro, com os olhos marejados e a gente se olhou um tempo sem acreditar no que estava acontecendo. Eu disse: é hoje, amor. Hoje a gente vai dormir com ele nos braços…

Flávio foi providenciar meu almoço (já era umas 14h), terminei o banho e liguei para Juliana dizendo que Flávio tinha chegado e eu ainda ia almoçar, que ela não tivesse pressa de vir. Na verdade eu queria ficar sozinha com seu pai por um tempinho. Me senti muito segura depois que ele chegou. Ficava mostrando as contrações enquanto ele cronometrava. Lógico que doía, mas quando passava eu acha divertido simplesmente não sentir nada naquele intervalo. O mundo todo acontecendo lá fora, plena sexta-feira de sol e a gente experimentando o universo do parto. Foi uma sensação muito especial.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-2

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-2

Juliana chegou umas 15:30 e sua presença me deu muita segurança também, senti que agora que ela tinha chegado o negócio era pra valer. Ela me ensinou a usar a bola de um jeito mais eficiente enquanto me massageava e ficamos ali um tempão. Eu teria ficado ali, aliás, mas ela me alertou que era melhor irmos para o hospital antes de as dores ficarem muito fortes, pois ainda tinha toda a locomoção e o trânsito. Esperamos Cíntia chegar (ela fotografou nosso parto) e fomos.

Lembro que no banco de trás, coloquei meus óculos escuros e disse para Ju: Partolândia, aí vou eu! Rsrsrs

E fui mesmo!

Até então as dores eram como cólicas menstruais, sendo que bem mais fortes e se espalhando pela lombar e pelo pé da barriga. Entre uma e outra havia um tempinho para respirar, então eu estava aguentando bem com as massagens que Juliana fazia. Durante as contrações eu encaixava a pelve (uma dica de parteira que li no livro Quando o Corpo Consente) e ia esperando que ela passasse. Porque quando ela passa tudo fica normal.

Quando chegamos na Unimed houve uma burocracia na entrada, passar por triagem e essas coisas. Perguntei a Juliana o que estava havendo e ela disse: Não se preocupe com nada disso, isso aqui a gente resolve, vá curtir seu parto.

Foi tão bom ouvir aquilo, pensei: é, vou curtir meu parto! O maqueiro quis que eu fosse de cadeira de rodas, mas eu sabia que não suportaria ficar sentada. Subimos andando mesmo e cada vez que eu parava para passar uma contração, ele insistia na cadeira: Eu avisei que era melhor a senhora ir na cadeira. Mal sabia ele que eu estava achando ótimo aquilo tudo! Hahaha

Ficamos esperando a plantonista me examinar, e na sala de observação senti um líquido quente escorrendo pelas pernas. Fui ao banheiro ver e era sangue, muito sangue.

Em situações normais uma pessoa ficaria em pânico ao ver tanto sangue escorrendo de si, mas na minha partolândia, aquilo não era nada demais. Ouvi Juliana dizer que era sangue do colo e que estava perto de nascer… foi apressar a médica para me examinar.

Durante o exame de toque a plantonista ligou para a minha GO avisando que ela fosse logo para o hospital porque eu estava com 8cm de dilatação, que ia nascer já já.

Era só o que eu ouvia: vai nascer, já vai nascer! E haja dor e nada de eu sentir que ia nascer mesmo. Até então não tinham arranjado apartamento para eu me internar. A plantonista me acalmou dizendo que se não arranjassem nasceria ali no consultório mesmo. Fui com Juliana para o chuveiro dessa sala, fechamos a porta e eu disse a Ju: Ó, qualquer coisa a gente se tranca aqui e eu vou ter nesse chuveiro mesmo! Hahahahaha Coisas da partolândia: eu querendo transformar a doula em parteira a todo custo. Mas a verdade é que eu tinha medo de ser acompanhada por um médico desconhecido, antes nós duas ali que um GO cesarista…. vai saber!

Enfim arranjaram um quarto e lá fomos nós, seu pai, doula, fotógrafa, bola, banqueta…

Flávio colocou para tocar a playlist que eu tinha feito. Eu ouvia uma coisa e outra. Frases soltas e pensava: ah, legal tá tocando essa música agora! Mas as contrações estavam muito fortes e no intervalo eu simplesmente não conseguia pensar em nada, não queria nem falar para não desperdiçar aquele tempo tão precioso de descanso. Ju já tinha me falado dos sinais subjetivos do trabalho de parto, isto é, pelo humor e comportamento da mulher, pode-se ter uma ideia sobre em que fase o trabalho de parto está. E isso é interessante, pois desde aquele momento de espera, quando a dilatação chegou aos 8, meu humor de fato mudou. Eu não estava mais conversando qualquer coisa com o pessoal, queria apenas me isolar, ficar calada e concentrada.

Minha médica chegou e pediu para fazer um toque, foi um martírio subir na cama do hospital, me deitar… depois do toque ela disse que ainda tinha um caminho a percorrer e eu fiquei passada: “um caminho? como assim? Não já estava quase nascendo?” Desde que chegamos no hospital criou-se a expectativa de que iria nascer logo e quando a GO vinha examinar sempre dizia que tinha mais um tempinho ainda… mas no mundo real tudo transcorreu rápido, em apenas 2 horas você nasceu.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-8

Auscultando seu coração entre as contrações.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-7

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-6

Durante todo o trabalho de parto seu pai esteve presente me dando força e carinho.

Seu pai achava que eu estava além dos meus limites. E estava mesmo. Mas isso é que é lindo no parto uma constante superação de limites até chegar ao prêmio.

Seu pai achava que eu estava além dos meus limites. E estava mesmo. Mas isso é que é lindo no parto uma constante superação de limites até chegar ao prêmio.

Eu me perguntava que tempinho era esse e se eu teria forças para aguentar, já estava exausta, querendo acabar com aquilo. Não pensava em pedir analgesia porque desde o início descartei veementemente essa possibilidade. A cada contração forte eu pensava: “Vamos, isso tem que acabar! Não estou aguentando mais. Calma, Heloá, passou. Espera a próxima e aí você decide o que fazer”.   Estava muito concentrada em deixar a dor vir e passar. Mas quando algo me desconcentrava eu olhava em volta e via que tudo estava indo bem, o chuveiro aliviava as dores, pessoas de confiança estavam comigo, tocavam as músicas que eu tinha escolhido e voltava para a minha partolândia.

Me senti um pouco fraca, pedi o chocolate e continuei me revezando entre as posições, Juliana sugeria a bola, mas em algum momento eu achei que seria incômodo sentar nela. Usei muito a banqueta no chuveiro, água bem quente nas costas, na barriga aliviava bastante as dores.

Mais um toque e nele a GO retirou um rebordo de colo. Eu sabia o que aquilo e que ia doer, mas depois dele as coisas iriam evoluir mais rápido.  Doía muito continuar deitada na cama, mas eu não conseguia me mover para descer. Em algum momento eu disse: só queria conseguir sair daqui. E Juliana disse que seria bom porque eu estava há muito tempo deitada. Me levantei e fui para a banqueta no chuveiro.  Depois de algumas contrações e eu senti uma coisa “estranha” descendo, vindo encaixar nas minhas pernas… fez um ploft! e escorreu uma água, pensei: a bolsa estourou. E num milésimo de segundo saí da partolândia para respirar aliviada e feliz, estávamos perto do fim! E como “aquilo” permaneceu entre minhas pernas, resolvi tocar e surpresa: algo macio estava lá. Pensei: a bolsa estourou e a cabeça fez um tampão (tudo bem estudado antes do parto! hehehe)

Chamei Juliana para dizer que achava que sua cabeça estava ali já e ela me perguntou: é duro? Eu disse: duro não, é macio. E ela: mas a cabeça é dura… E eu: “Ah, mas é macio! Vem ver então!”

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-13

E ela hesitou um pouco, pois não é apropriado que a doula realize toque nas parturientes, mas já estávamos tão intimas àquela altura que ela cedeu: é sim a cabeça! Vamos para a cama Dra. G não vai conseguir pegar seu filho aí!

E lá fomos para a cama, logo chegaram a GO, a neonatologista e depois eu soube, algumas enfermeiras (pra assistir?!). Do meu lado direito estava a doula, do esquerdo, seu pai. Eu me contorcia e me agarrava na blusa e nos braços dele, precisava da força dele também.

Senti uma queimação no pé da barriga, pensei que o círculo de fogo arderia mais. Houve uma pausa longa entre uma das contrações, fiquei ansiosa pela próxima, queria terminar logo. Parecia que tudo tinha acabado, mas ainda não era hora de descansar. Estava tocando “Comfortably Numb” do Pink Floyd. A GO pediu para desligar as luzes, ficou apenas um foco em cima da cama. Achei a penumbra relaxante.  Eu senti meu períneo alargar, Juliana me falava para relaxar mais. Eu tentava.

E veio o momento mais marcante: no final de uma contração longa eu joguei meu corpo para trás para descansar, mas como rolou uma tensão entre a equipe médica (porque a GO não estava conseguindo achar os batimentos do seu coração, mas afinal você já estava nascendo…), me veio a ideia de terminar aquilo e junto veio uma força tão grande, mas tão grande! Na hora eu não acreditava que eu estava conseguindo fazer aquela força toda para terminar o expulsivo. Pensei na árvore que visualizei no colo, pensei na força de todas as mulheres, me agarrei em algo maior que eu e então você nasceu.

Parto Heloa - Nascimento Vinicius-15

Coisa mais linda!

Coisa mais linda!

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Renascidos

E veio direto para o meu colo. Sem aspirar, sem colírio. Chorou para dizer que estava tudo bem, logo se acalmou.

Um nascimento respeitoso de verdade.

Ainda tomou a injeção de vitamina K no meu colo, mas nem chorasse, filho!

Olhei seu corpinho, saiu todo limpinho, nem vérnix nem sangue…  me vi refletida nos teus olhos, quis reter na minha memória aquela imagem para sempre. Você me olhando e eu te dizendo repetidamente: “Meu filho, como você é lindo! A gente conseguiu! Você é tão lindo, meu filho! A gente conseguiu!”

Parto Heloa - Nascimento Vinicius

Disse que não conseguia chorar, Cíntia disse que todos chorariam por nós naquele momento.

Quando seu pai cortou o cordão umbilical, este já tinha parado de pulsar. A placenta saiu naturalmente. Você mamou um pouquinho e passou a noite tranquilo, não chorou nem mais uma vez. Foi para o colo do seu pai e eu fui levar um pontinho, pois um vaso havia rompido. Estávamos em êxtase. Eu sentia uma energia incrível, queria pular, gritar, contar para todo mundo que aconteceu ali. Como eu poderia descrever o momento mais maravilhoso da minha vida?

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Durante meu trabalho de parto eu não dava conta do que estava acontecendo, em que fase estávamos, se você estava encaixado, girando, passando pela bacia… mas meu corpo registrou todos esses movimentos, as sensações que eles causaram, a dor (claro que senti dor, mas jamais diria que sofri!). As vezes sinto saudade desse dia, do parto, das contrações. Queria reviver tudo de novo, do jeitinho que foi, sentir mais uma vez o que é indizível.

Depois Juliana comentou que em hora alguma foi ouvida a palavra dor. Achei isso tão bonito. E fiquei feliz porque a memória que fica não é da dor, é de algo maravilhoso acontecendo, algo sobrenatural que toma conta de nós, uma força imensa, uma força incrível. Tão incrível que juro, as vezes não acredito que fui capaz, que sou capaz. Mas sim, eu te pari, meu filho, eu te trouxe para esse mundo, com a graça de Deus, e olhar o universo, atravessamos vidas. Renovamos as nossas.

Te amo e te agradeço por essa experiência linda. Iniciamos nossas vidas da forma mais bonita que podia ser.